Especial São Francisco de Assis

Em louvor de Cristo e Francisco!

Frei Neylor Tonin (*)

O fascínio que exerce a figura de São Francisco, há mais de 800 anos, ultrapassa em muito os limites de uma Ordem e da própria Igreja. Ele é um santo universal, um homem que ocupa um dos patamares mais altos na paisagem espiritual da humanidade.

Estamos diante de um “santo incomparável”, afirma o historiador alemão Josef Lortz. “I Fioretti” confessam, sem meios termos, que ele foi “conforme a Cristo bendito”. Para Pio XI, ele teria sido “quase um Cristo redivivo”. Até Mussolini se deixou cativar por São Francisco, para quem ele foi “o mais santo dos italianos e o mais italiano dos santos”.

Para todos sobra uma pergunta, que intriga e causa admiração: Quem foi Francisco de Assis? Pe. Congar aplica a ele o que Pe. Allo dissera de São Paulo: “Foi o primeiro depois do único, Cristo”. Jacques de Vitry, Cardeal pouco depois da morte de Francisco, o descreve como “um homem simples e iletrado, amado por Deus e pelos homens”. O Papa Inocêncio III, seu contemporâneo, o vê, num sonho, como “um homem pequeno e de aspecto miserável”. Ele mesmo, Francisco de Assis, se confessa “homem inútil e indigna criatura de Deus Nosso Senhor”. E passou para a história como “Il Poverello”.

O que encanta, antes de mais nada, em São Francisco é a inteireza de sua personalidade. Ele foi um homem íntegro, um carvalho que se alteava na paisagem chã de seu tempo, uma pessoa que queria uma só coisa que, no entanto, não era ele mesmo. Viveu apaixonadamente para fora de si mesmo, em direção aos outros. Estes outros podiam ser o leproso, o pobre, os ladrões, Clara, o Papa, Cristo crucificado e o próprio Deus. Sua personalidade era monolítica, não por seu aspecto de dureza ou por seu caráter refratário e impenetrável, mas por não ter fissuras por onde se perdia a água viva da graça; seu endereço era unicamente altruístico e sua disposição somente fraterna. O outro, não importa quem fosse, lhe era um irmão a ser servido, amado e cantado.

Este santo, com alma de Evangelho e coração de irmão menor, tem muito o que dizer a nosso mundo que busca soluções para os desencontros humanos, seja pelos caminhos enviasados da diplomacia, que ajeita momentaneamente, sem resolver em definitivo, interesses conflitantes, seja pelos atalhos impacientes e violentos da força e da guerra, aprofundando as desavenças e atiçando ódios que tornam trágicos os caminhos da paz.

São Francisco, acredito, não seria, hoje, um crítico azedo e condenatório do mal, embora não compactuando com ele. Seria, antes, um pregador do bem, um promotor da fraternidade, um instrumento de paz. Ele não se preocuparia tanto com a maldade e o egoísmo, quanto se ocuparia, preferentemente, em reforçar e dar corpo aos anseios do bem que todos carregam queimando, em línguas de fogo, dentro de si.

Ele seria simplesmente irmão de todos e ajudaria nosso tempo a encontrar-se em sua identidade mais autêntica, embora encoberta por tantos véus já tão poucos disfarçáveis.

Não se pode dizer que os tempos de São Francisco eram melhores e fossem menos angustiantes e caóticos do que os nossos. “O Velho mundo se decompunha na podridão do vício; todas as classes da Igreja, entorpecidas, dormitavam. (…) A pregação do Evangelho jazia em meio a um aviltamento não parcial, mas geral”, assevera seu primeiro biógrafo, Tomás de Celano.

O caos imperava na sociedade e na Igreja que tanto amava e procurava servir e melhorar. Foi pelos caminhos do serviço e da obediência, sem ser amargo ou agressivo, que ele se fez reconstrutor das instituições. Foi vivendo o bem que se fez promotor do bem. Foi se deixando plenificar por tudo e por todos, que se fez medida de tudo e para todos.

Só assim, compreende-se, uma pequena cidade como Assis se transformou num centro de espiritualidade evangélica tão importante quanto Roma. Porque dentro dela havia um homem que, embora “inútil e indigna criatura de Deus Nosso Senhor”, se fez menor e não temeu que o chamassem de louco: louco de Deus e limpador das chagas de seus irmãos leprosos. Por isso, Deus o exaltou e todos nós, leprosos de mil lepras, o celebramos há mais de 800 anos. Em louvor de Cristo e Francisco! Amém!

 

 

(*) Frei Neylor Tonin é mestre em Espiritualidade, formado em Psicologia, Sociologia
e Jornalismo. Escritor e conferencista e professor de Oratória Sacra (Homilética).