Especial São Francisco de Assis

Como vejo Francisco

Frei Fábio Cesar Gomes (*)

 Prezada Irmã, prezado Irmão!
O Senhor te dê a paz!

Desde o primeiro momento em que me foi solicitado de responder à pergunta: “Francisco, como eu o vejo?”, nos meus ouvidos ressoou um eco daquela pergunta que Jesus dirigiu aos discípulos: “E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mc 8,29; Mt 16,16; Lc 9,20). Foi como se Francisco mesmo estivesse agora me perguntando: “E tu, quem dizes que eu sou?”

Senti toda a exigência da pergunta, pois, não se trata de simplesmente repetir o que os outros já disseram sobre Francisco – “que ele é o santo da paz; o patrono da ecologia; o homem do milênio” –, mas de dizer quem é ele para mim.

E como, então, Francisco me pede uma resposta pessoal, peço licença aos leitores (as), para, na tentativa de responder-lhe, fazer acenos a alguns momentos da minha experiência pessoal.

“Mergulhando dentro de mim mesmo” encontrei quatro respostas à pergunta de Francisco, a partir das quais direi brevemente quem ele foi, tornou-se, tem se tornado e sempre será para mim. Resumi tais respostas em quatro expressões que, coincidentemente, iniciam todas elas com a letra “m” (“m” de mãe, de Maria, palavras tão caras a Francisco): Francisco foi para mim um “momento decisivo”, tornou-se uma “mediação fundamental”, tem se tornado uma “medida boa” e sempre será um “mistério profundo”.

“Momento decisivo”

Como todo adolescente, buscava eu um ideal grande pelo qual devotar toda a minha existência. Estando assim, nessa procura, deparei-me com um livro: “O Irmão de Assis”, do Frei Inácio Larrañaga, esquecido, “por acaso”, por uma pessoa da família na casa de meu avô. Então, simplesmente, “devorei” aquele livro que me propunha o maior de todos os ideais: a fraternidade universal. Assim, o encontro com Francisco através daquele livro representou para mim um momento decisivo que deu à minha vida um rumo totalmente novo.

“Mediação fundamental”

Aos poucos, porém, foi compreendendo que, para realizar o ideal de Francisco, eu deveria abraçar a sua Forma de Vida que consiste, substancialmente, em seguir Jesus Cristo pobre e crucificado. Assim, Francisco foi se transformando para mim numa mediação fundamental para o seguimento de Cristo, pois, talvez mais do que nenhum outro, ele O seguiu radicalmente. De fato, é ele quem me recorda que para seguir Jesus Cristo é preciso não apropriar-me de nada (cfr. Regra Bulada 6,2) e tudo restituir a Deus por palavras e obras (cfr. Regra não Bulada 17,17-18).

“Medida boa”

Porque mediação fundamental para o seguimento de Cristo, Francisco tem se tornado para mim uma medida boa com a qual sempre de novo preciso me medir. Isso porque, com seu forte senso de realismo, ele me diz que em mim existe tanto a possibilidade de possuir o Espírito do Senhor e o seu santo modo de operar, quanto a de ser habitado pelo “espírito da carne” que quer contentar-se apenas com uma aparência de religião (cfr. Regra não Bulada 17,9-16). Francisco é, portanto, aquele que com a força das suas admoestações me convida a adquirir a medida boa – calcada, sacudida e transbordante (cfr. Lc 6,38) – do amor do Filho de Deus.

“Mistério profundo”

Quanto mais leio os Escritos de Francisco, mais dou-me conta de que ele, como bom medieval, ao mesmo tempo em que se nos revela, também se nos esconde. De fato, como disse uma clarissa há quatro décadas: “Compreender Francisco é como compreender o Evangelho e, compreender o Evangelho, não está em nós. Apenas o Espírito do Senhor o pode porque penetra a Palavra e a faz penetrar” (Chiara A. Lainati, Escrito com o coração, in Vita Minorum, 14, 1972). Assim, Francisco permanecerá sempre para mim um mistério que, certamente, somente aos simples será dado conhecer. E é bom que assim seja, pois, desse modo, ele jamais poderá ser reduzido às minhas pré-compreensões e enquadrado nas minhas definições.

 Amigo, Amiga! Não sei se essas minhas respostas deixaram Francisco satisfeito. Porém, estou certo de que, se pude dizer isso, foi porque, antes, Francisco já me disse como me vê, quem sou eu para ele, ou melhor, quem somos para ele todos nós. E isso, ele nos responde com uma única expressão que, também esta, inicia pela letra “m”:

“Meus irmãos benditos” (cfr. Testamento de São Francisco 34).

Para o louvor de Cristo.

(*) Frei Fábio Cesar Gomes, OFM, vestiu o hábito franciscano em 1993.
É Doutor em Teologia, com especialização em Espiritualidade Franciscana.