O que é a pós-modernidade? Ela realmente existe? Quais são suas implicações? Seria o fim da modernidade ou apenas sua continuação sob outro verniz?
Estas e outras questões permeiam o pensamento do homem há algum tempo e não são poucas as teorias sobre o assunto. Modernidade versus pós-modernidade já foi tema de diversas teses dos mais variados pensadores e teóricos e por fim sempre restam dúvidas no ar.
O termo pós-modernidade começou a circular no início da década de 80, século XX, na filosofia, e é
Jean-François Lyotard quem define a idéia de pós-modernidade como a recusa de narrativas longas sobre as coisas. Já
Zygmunt Bauman acredita que a pós-modernidade é a consciência antes de tudo de um fracasso, ou seja, do fracasso da modernidade, já que esta não conseguiu atingir os objetivos a que se propôs, fracassou nas utopias que nos prometeu. Segundo
Luiz Felipe Pondé, a pós-modernidade é “o despertar maldito de um sonho colorido”, já que se acabaram as referências, as regras colocadas pelas teorias, não há mais nenhum tipo de manual a ser seguido. Resumindo, acabou-se a razão.
Por este motivo alguns teóricos preferem chamá-la de contra-modernidade, já que tem-se exatamente o oposto do que era antes. Tudo o que a modernidade havia construído e proposto fora por água abaixo, transformado em líquido, uma modernidade líquida, como
Bauman exemplifica, parodiando a máxima “tudo que é sólido desmancha no ar”, a modernidade se desfez não no ar, mas como líquido, sem forma, se espalhando, se esvaindo.
O sentimento pós-moderno está em todos os ambientes do nosso cotidiano. Está nas relações interpessoais, com nossa família, amigos, colegas de trabalho, é nosso trabalho. Uma metáfora muito compatível com esse sentimento é a da fina camada de gelo que
Bauman propõe. Estamos num deserto, mas invés de ser areia, o chão é apenas uma fina camada de gelo. Se ficarmos parados sobre ela, ela se rompe e nos afogamos. Então precisamos sempre estar em movimento, sempre correndo, sem mesmo saber para onde, mas sempre indo em frente e rapidamente.
É exatamente esta a sensação que temos hoje em dia, estamos sempre correndo, sempre tentando alcançar algo que não sabemos o que, nem para quê, mas sabemos que se pararmos por um segundo alguém passará por nós, e a fina camada de gelo trincará. Por isso estamos sempre nos atualizando, recebendo informações das mais variadas formas, e todo tipo de informação, inclusive aquelas que nem nos interessam tanto. E tudo isso por quê?
A pós-modernidade é essa sensação de desencanto, de que algo está por vir mas não se sabe ao certo o que é. Uma sensação de esquecimento, de que nada na verdade irá nos tornar felizes de verdade. Na modernidade a promessa de felicidade era tão grande, a expectativa de que tudo daria certo se fundamentava nas novas descobertas de cada dia e com elas a crença de que sempre haveria uma resposta para todas as questões.
Inclusive o papel do Estado na modernidade era sólido e racional, já que este deveria ser capaz de resolver todos os problemas, de produzir justiça no mundo, de garantia de qualidade de vida das pessoas e de um capitalismo civilizado e sob o seu controle, que produzisse riqueza que servisse a todos. Mas exatamente o oposto é visto na pós-modernidade: um Estado cada vez menor, já que agora, quanto maior, mais ele atrapalha e este Estado acabou-se descobrindo uma empresa ineficiente, cada vez mais diminuído e dando mais espaço à iniciativa privada, que por sua vez está mergulhada no chamado mercado livre, que é o mais líquido de todos, ou seja, o que se desfaz com mais facilidade.
Pouca coisa se salva com a chegada da pós-modernidade. Com ela findaram-se todas as normas, padrões, modelos e regras, tudo que a modernidade levara séculos para levantar. A falta de referências causou uma ‘pane’ na sociedade atual, invertendo a ordem das coisas, gerando uma massa pós-moderna que perdeu o senso de continuidade histórica. Agora, em vez de crer e integrar a História, o indivíduo se volta para dentro, supervalorizando sua vida, investindo cada vez mais no aprimoramento pessoal, perdendo-se numa sucessão de instantes isolados e sem rumo.
Sem definições concretas para arte, religião, política e filosofia de vida, o homem pós-moderno segue sendo mais um na multidão que caminha no deserto, sobre a fina camada de gelo, preocupando-se apenas em como conseguirá tornar-se melhor, mais atualizado, quando chegarão às lojas as roupas da última
fashion week e sonhará com a última geração de televisores de plasma. Segundo
Jair Ferreira dos Santos, “O sujeito pós-moderno é a glorificação do ego no instante, sem esperança alguma no futuro”.
Apesar de quase tudo na pós-modernidade caminhar para o zero absoluto, o vazio completo, para o niilismo total, resta uma dúvida: a negação de todas as formas que o modernismo criou não nos leva inevitavelmente ao retorno de padrões ainda mais antigos? Se a pós-modernidade se pretende assim uma contra-modernidade, não resta muita coisa a não ser voltar aos padrões pré-modernos; já que não há nada de novo que não tenha sido feito ou pensado, já que todas as formas já foram estudadas à exaustão.
Sem dúvida alguma é muito difícil fazer uma análise concreta da pós-modernidade, já que é neste período que nos encontramos agora e não podemos ter o distanciamento necessário para diagnosticá-lo. Mas o que podemos ver e sentir é que de certa forma, as pessoas bem adaptadas a este ambiente pós-moderno já não sofrem tanto com suas mudanças e antagonismos. E ainda assim, resquícios de modernidade pairam sobre o ar..
(*) Flávia Santos Arielo é professora de História e Sociologia e escreve especialmente para este site.