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ARTE
SACRA E ICONOGRAFIA CRISTÃ
A ARTE SACRA
D. Marcos Barbosa, O .S. B.
O Vaticano II não podia deixar de tratar, como realmente
o faz no capitulo VII da "Sacrosanctum Concilium", da
relação entre o culto e as artes. Pois não
só no Antigo Testamento vemos como são determinados
por Deus as formas, dimensões e materiais do tabernáculo
e do templo, com seu mobiliário, utensílios e vestes
dos ministros, como vemos também o próprio Cristo,
já no despojamento do Novo, ocupar-se com o ambiente onde
vai inaugurar a nova e eterna aliança. Manda Pedro e João
à frente, em busca da sala ampla e alta, guarnecida de almofadas,
que lhes será misteriosamente indicada para a última
ceia e a primeira missa. Passado o tempo da perseguição,
período em que os apóstolos e os seus sucessores "partiam
o pão pelas casas", vemos erguerem-se por toda a terra,
sempre com a preocupação de refletirem alguma coisa
da Jerusalém celeste do Apocalipse, as novas casas de Deus.
Nada mais natural, nada mais na linha do mistério da Encarnação
(e até mesmo da Criação), que a Igreja se preocupe
com as coisas materiais, que podem ser não apenas sinais,
mas também símbolos e canais das coisas invisíveis,
e do Criador de todas.
NATUREZA DA ARTE SACRA
Logo no início do capítulo (art. 122), deparamos
uma distinção de grande importância, que evitaria,
levada em conta, freqüentes equívocos em terreno tão
difícil, por contingente e concreto. Vislumbramos ali a distinção,
que nos parece óbvia, e já proposta por Jacques Maritain
no seu clássico livro Art et Scolastique : dentro da arte
em geral, devemos distinguir, num círculo menor, a arte cristã,
e, dentro da arte cristã, num círculo menor ainda,
a arte sacra.
Toda verdadeira obra de arte fala de Deus; mesmo que acidentalmente,
devido à fraqueza humana, pudesse levar-nos ao pecado. Toda
verdadeira obra de arte fala de Deus. E não apenas pelo que
fala, mas sobretudo, tanto maior a emoção despertada,
pelo desejo que acende em nós de uma beleza mais alta. E
Poe e Baudelaire falam da nossa natureza "exilada no imperfeito,
que desejaria apoderar-se imediatamente, na terra mesmo, do paraíso
revelado". E Jean Cocteau diria o mesmo, usando o trocadilho:
"La beauté boite".
Mas, se toda obra de arte fala de Deus, mesmo sem querer, há
obras de arte que pretendem expressamente falar de Deus, e até
mesmo do Cristo: é o que chamaríamos arte religiosa
ou arte cristã. Mas ocorre aqui uma advertência muito
importante: não é o assunto nem mesmo a intenção
do autor que tornam uma obra religiosa ou cristã, mas sobretudo
o modo de tratá-lo e o resultado obtido. Um assunto religioso
pode ser tratado de modo indiferente ou até hostil (como
é o caso da primeira representação do Crucificado),
e o mais bem intencionado dos artistas pode ás vezes não
conseguir tratar religiosamente ou cristãmente o seu tema.
Que modo é este, é impossível defini-lo...
Mas há obras nas quais sentimos uma certa transparência
e um equilíbrio profundo, uma paz e serenidade, e um certo
esplendor e uma pobreza que nos fazem pensar em Deus, e mesmo no
Cristo. Diante de um quadro de Rouault, por exemplo, qualquer observador
que tenha um mínimo de convívio com a pintura e um
certo conhecimento do cristianismo, dificilmente deixará
de concordar que se trata, no caso, de arte cristã.
Concluiríamos então que tal quadro de Rouault, um
dos seus magníficos Cristos flagelados, possa ou deva ser
colocado em qualquer igreja paroquial? De modo nenhum. Porque precisamos
circunscrever agora, dentro da arte religiosa ou cristã,
o que possa ser arte sacra. A arte sacra será não
apenas uma obra de arte, nem apenas uma obra de arte cristã,
mas deve ser também uma obra de arte que sirva para o culto.
E aí veremos surgir vários outros requisitos que integram
o conceito de arte sacra, uns de modo absoluto, outros de modo relativo.
De modo absoluto podemos dizer que não deveria ser colocado
como retábulo de altar o belo quadro "Senhor dos Martírios"
do pintor beneditino Frei Ricardo do Pilar, que representa o Cristo
vivo, fora da cruz, mostrando as chagas, mas ainda coroado de espinhos,
coberto com seu manto de irrisão e uma corda ao pescoço:
essa obra de arte cristã, útil ao contemplativo na
sua cela, correria o risco de dar aos fiéis a idéia
de um Cristo ressuscitado fora da glória e do triunfo! Mas
já um Cristo de Rouault, sem o inconveniente do de Fr. Ricardo,
poderia não convir para algumas igrejas, onde os fiéis,
afeitos a representações de outro tipo (que para simplificar
chamaríamos acadêmico), se chocassem com a violência,
tão cheia de doçura no entanto, do grande pintor francês.
Por isso, como não basta uma obra de arte ser religiosa ou
cristã para ser considerada sacra, é que a Igreja,
como diz a Constituição de que nos ocupamos, sempre
"se considerou juiz em relação a elas, julgando
quais convinham á fé, á piedade, (...) ao uso
sagrado". Cabe pois ao Bispo, que preside ao culto de cada
diocese, julgar, como Doutor, a ortodoxia das obras de arte, e,
como Pastor, a sua oportunidade em relação á
cultura dos fiéis. Mas se de um lado é preciso evitar
que, a pretexto de que a Igreja sempre foi patrocinadora das artes,
se imponham aos fiéis não preparados obras que os
choquem (a Igreja não é um museu, mas lugar do culto
comunitário), de outro lado é preciso evitar, o que
mais facilmente ocorre, apresentarem-se obras tão batidas,
tão repetidas, tão em série, que não
chocam a ninguém, porque nem sequer são vistas: o
olhar distraído do fiel pousa sobre a mesma Santa Teresinha
que ele já viu quinhentas vezes em quinhentos lugares, e
que serve apenas de ponto de referência para a sua oração,
mas não contribuirá de modo algum, enquanto obra de
arte, para a elevação e afervoramento da mesma. Por
isso será necessário ao Ordinário, a quem compete
julgar se tal imagem serve para o culto, aconselhar-se freqüentemente
com os peritos (previstos pelo artigo 126 da Constituição)
sobre o caráter artístico da mesma. Pois é
uma violência propor como arte sacra o que nem arte seja.
Fica assim estabelecido que a arte sacra deve ser uma arte não
apenas de valor religioso, mas também funcional, isto é,
que sirva ao culto comunitário, e de uma determinada comunidade,
que vive em tal lugar e tal época.
UNIVERSALIDADE DA ARTE SACRA
Esta última observação - a arte sacra em junção
de uma comunidade concreta - já nos conduz a um princípio
que dela decorre necessariamente, mas que a Constituição
julgou por bem explicitar no seu artigo 123, tal a importância
do mesmo e os lamentáveis equívocos que têm
decorrido do seu imprudente esquecimento: "A Igreja jamais
considerou seu nenhum estilo de arte". Se ele houvesse sido
formulado há mais tempo com tanta clareza, não teríamos
visto levantar-se uma catedral gótica em S. Paulo, nem igrejas
"coloniais" em plena República...
Todos sabemos que o que existem são obras de arte concretas,
e que cada uma é a solução de um determinado
problema: atender às necessidades do homem com beleza e harmonia
(pois a beleza é também necessária) e com os
materiais e as técnicas disponíveis. O que chamamos
estilo não é mais que um certo parentesco que se descobre
entre as obras da mesma época e região. O arquiteto
medieval não dizia: "Vou fazer gótico",
mas trabalhava com a pedra, nos países frios, quando começavam
a florescer as devoções populares - e surgiam as ogivas,
os vitrais e a grande quantidade de capelas.
O arquiteto de hoje não dirá também (se for
um verdadeiro arquiteto...): "Vou fazer estilo moderno!",
mas procurará atender às finalidades da construção
que lhe pedem, usando com beleza os materiais, as técnicas,
a mão-de-obra de que dispõe. E a sua construção
será, em tal caso, uma construção autêntica,
inserida no tempo e no espaço, ainda que destituída
de certos acréscimos e receitas que "dão ar de
moderno". A arte cristã e sacra, mais que qualquer outra,
deve ser uma encarnação da mensagem cristã
"hic et nunc", e não a mera repetição
de fórmulas passadas e locais, como se a mensagem do Cristo
não tivesse sido dirigida a todas as nações
e até os confins dos séculos. Assim, não devemos
fazer como os antigos faziam, mas fazer, isto sim, o que os antigos
faziam: sermos do nosso tempo.
Estabelecido o princípio de que a Igreja "jamais considerou
seu nenhum estilo", mas que deve ir enriquecendo o seu incomparável
patrimônio com todas as contribuições que lhe
vão sendo trazidas, a Constituição faz aos
Ordinários, no artigo 124, advertências de grande alcance.
A primeira delas é a distinção entre a "nobre
beleza" e a "mera suntuosidade".
O barroco, nascido dos grandes Descobrimentos e de um certo descobrimento
do Homem, fez-nos regredir um pouco ao paganismo e ao Antigo Testamento,
dando-nos a sugestão de um Deus pomposo e tonitruante, que
se manifestasse um pouco à moda dos homens... Assim é
que S. João da Cruz e Santa Teresa passaram por inimigos
da beleza, quando (como tão bem prova Michel Florisoone "Esthétique
et Mystique") combatiam sobretudo o excessivo, o derramado,
o exagero da época, tão pouco em consonância
com a sóbria beleza que ambos reivindicavam para os Carmelos.
Desta falsa concepção de que as coisas de Deus só
possam ser suntuosas e grandiloqüentes, que resultou? Quando
os cristãos não tiveram mais ouro, lançaram
mão da purpurina; quando não mais tiveram mármores,
pintaram a madeira de mármore; quando não tiveram
mais vidros de cor, coloriram os vidros... E na Igreja, que é
a casa da Verdade, tudo se tornava de mentira, e o homem apenas
se enganava a si próprio. Pois Deus, este via, debaixo do
disfarce, o verdadeiro material que ele criara, e via que esse material
era bom, que possuía a sua própria beleza. Assim os
Ordinários são convidados a visarem "antes a
nobre beleza que a mera suntuosidade". "O que se há
de entender também (acrescenta-se logo em seguida, e tão
oportunamente...) das vestes sacras e dos ornamentos".
Por que não tirarmos partido, como tanto se faz hoje na arquitetura
profana, da beleza rugosa da pedra, do colorido quente do tijolo,
dos belos veios da madeira apenas encerada, e da estopa, e do couro,
e da palha? As várias capelas construídas pelos Irmãozinhos
do Pe. Foucauld na Ásia e na África são quase
todas uma prova exuberante da nobre beleza que decorre dos materiais
pobres quando empregados lealmente, com a intenção
de valorizá-los em vez de escondê-los. Por que não
nos contentarmos com a sóbria alva dos romanos, em vez de
nos cobrirmos de rendas (e tão ordinárias!), como
se estivéssemos ainda em pleno século XVIII?
Teremos medo de parecermos pobres? E Jesus e os Apóstolos
não o foram? E não o somos hoje, realmente, na situação
atual da Igreja, difundida entre as nações como um
fermento, sem se identificar com nenhuma delas, sem se confundir
com reis e governos, mas afirmando cada vez mais a distinção
entre o espiritual e o temporal? Sem dúvida sabemos que para
Deus nada é demais; mas é preferível que um
pároco construa uma igreja pobre com o dinheiro dos pobres,
a ter de assumir compromissos com pessoas de dinheiro e prestigio,
que os queiram cobrar em seguida. No mundo de hoje, que toma consciência
da sua própria miséria, não será mais
convincente, mais atraente, mais maternal, uma igreja que se apresente
vestida de pobre? E a nobre beleza, de que fala a Constituição,
se encontra mais facilmente na pobreza que na mera suntuosidade.
A segunda advertência do artigo 124 é a afirmação
da funcionalidade: "cuide-se diligentemente que (as igrejas)
sejam funcionais, tanto para a celebração das ações
litúrgicas como para obter a participação ativa
dos fiéis". Essa preocupação com o funcional
já é meio caminho para se resolver mais facilmente
o problema da beleza. Eric Gill chega a dizer que "a beleza
se arranja por si mesma", tal modo ela não é
algo de acrescentado, de posto depois, mas a decorrência,
sobretudo em arquitetura, da adequação da obra de
arte ao seu fim. O arquiteto que tenha conseguido fazer do altar
o centro de atenção da igreja, que tenha conseguido
boa circulação para as várias procissões
supostas pela missa e os demais sacramentos, que tenha conseguido
boa acústica para a proclamação da palavra
de Deus e as aclamações e o canto dos fiéis,
e isso tudo com certo equilíbrio de espaços, volumes,
iluminação e cores, eis o arquiteto que acertou. Pois,
como diz Claudel, resumindo a doutrina de Pierre de Craon de "L'Annonce":
"l'artiste païen faisait tout du dehors, et nous faisons
tout de par dedans comme les abeilles. Et comme l'âme fait
pour le corps".
Mas não é só o edifício que deve ser
funcional. Como estamos no domínio da arte sacra, devem ser
também funcionais todas as obras de arte que o integrem.
Isto é, como já ficou dito mais acima, não
basta que um quadro ou estátua sejam belos, nem mesmo que
tenham um certo toque religioso, mas é preciso que não
estejam "sobrando" artística e liturgicamente onde
foram postos (oh! a quantidade e qualidade das imagens!), e possam
ter mesmo um pouco daquele sentido pedagógico que fazia da
catedral uma "Bíblia de pedra". Vejamos o próprio
texto da Constituição, chamando a atenção
para o "sejam cuidadosamente retiradas", o que mostra
que a advertência não vale apenas para o futuro, mas
possui também, felizmente, um valor retroativo. "Tomem
providência os Bispos para que as obras de arte que repugnem
á fé (...) e ofendam ao verdadeiro senso religioso,
quer pela deturpação das formas, quer pela insuficiência,
mediocridade e simulação de arte, sejam cuidadosamente
retiradas das casas de Deus e dos demais lugares sagrados.
Sublinhamos também os "demais lugares sagrados".
Expressão que inclui sem dúvida os cemitérios,
entre nós inteiramente abandonados ao exibicionismo das "saudades
imorredouras" e da vaidade dos vivos...
E, de certo modo, estão também entre os lugares sagrados,
os salões paroquiais, parlatórios de conventos e lugares
semelhantes - ora pretensiosos, ora tão fora da época
que assustam as visitas, ora abrigando tudo aquilo que os outros
não querem em casa, sem nenhuma preocupação
de ordem, discrição e asseio.
Além das obras de arte insuficientes "pela mediocridade
e simulação de arte", que é o caso tão
freqüente das imagens e alfaias fabricadas em série
para as casas "especializadas" que só têm
a preocupação comercial, vemos também condenadas
aquelas em que se note a "deturpação das formas".
Convém notar, porém, que tal expressão não
importa na entronização do "acadêmico"
ou do naturalismo e do "bem-feitinho", que deixariam de
lado El Greco ou Rouault e tantas obras estilizadas, onde a mensagem
e a presença do espírito se tornam mais profundas.
Seria talvez o momento de dizermos alguma coisa sobre a arte abstrata
ou não-figurativa, que de modo algum poderá ser considerada
como deturpação de formas, e que terá seu lugar
na igreja não apenas como decoração, mas obra
de arte em si mesma: "A gente decora um salão, uma agência
de correio, diz Jean Bazaine, mas não tem sentido decorar
uma igreja. Não se trata de tornar o lugar mais atraente,
mas fazer viver nas paredes um pouco do Espírito que ali
habita". Sem dúvida a arte não-figurativa jamais
poderia pretender uma exclusividade no terreno da arte sacra, uma
vez que o corpo humano, assumido por Deus e destinado à ressurreição,
é como que um dado central do cristianismo. Mas seria ir
de encontro à tendência espiritualista da arte contemporânea,
que prefere uma linguagem própria e interior, repelir sistematicamente
um Manessier, que pode não ter o valor pedagógico
e descritivo de reproduzir uma cena da Bíblia, mas ser capaz
de criar um clima de oração e júbilo. "Em
Audincourt, diante dos belos vitrais de Léger, observa Bazaine,
os fiéis gostaram, no começo, de distinguir uma Cruz,
os Instrumentos da Paixão, as mãos... Mas - prossegue
ele - penso que logo se esquecerão disso, para se deixar
levar, antes de tudo, por aquela grande maré de formas, pondo-se
em uníssono com o prodigioso cântico daquelas cores".
O PROBLEMA DAS IMAGENS
O artigo 125 da Constituição já não
trata das imagens sagradas em si mesmas, visto que estão
incluídas, como principais, entre as obras de arte de que
trata o número anterior. Mas, confirmando o principio de
que possam ser expostas à veneração dos fiéis,
declara que o sejam "com moderação quanto ao
número" e "com conveniência quanto á
ordem". De fato, inutilmente nos esforçaremos por repelir
as acusações de idolatria que alguns dos irmãos
separados lançam contra nós, enquanto as nossas igrejas
oferecerem o doloroso espetáculo de um amontoado de imagens
de má qualidade, como que disputando os lugares no retábulo
do mesmo altar, o que lembra a estátua do Marechal Floriano
no Rio de Janeiro, que dizem estar bradando, de espada desembainhada:
"Aqui ninguém mais sobe!", ao considerar, assustado,
o grande número de personagens de bronze que se agrupam pelo
pedestal. De outro lado, como incutirmos nos fiéis o verdadeiro
sentido e função do altar, se, por sua inútil
multiplicação, ele se apresentar constantemente como
um pedestal de imagens?
Pondo já em prática esta Constituição,
alguns Ordinários julgaram por bem fixar em quatro o número
de imagens permitidas, prontos sem dúvida a considerarem
o caso de certas igrejas antigas, concebidas em outra época,
e cujas imagens de alto valor artístico e histórico
não poderão ser retiradas de onde estão, o
que seria aliás entrar em conflito com a legislação
civil que procura proteger tais monumentos. Não mais de quatro,
embora não seja necessário, é claro, perfazer
tal número, onde poderão estar o Cristo, Nossa Senhora,
o padroeiro da igreja e o fundador da Congregação
que dela acaso se ocupe.
Numa das dioceses em que o Bispo determinou que se reduzissem a
quatro as imagens, um jornal entrevistou alguns párocos.
Muitos alegavam grande dificuldade em atender prontamente á
ordem, o que só vinha provar que ele não educara devidamente
os fiéis no verdadeiro sentido do culto dos santos. Um deles
declarou que se vira forçado a manter duas imagens de Nossa
Senhora, pois suas ovelhas não se conformariam em ficar sem,
suponhamos, a de Fátima e a de Lourdes... Mas deverá
um padre curvar-se ante a exigência de fiéis que se
recusam a compreender que Nossa Senhora é uma só nas
suas múltiplas manifestações? Não será
cultivar a superstição em vez do espírito religioso?
Se cada igreja não se restringe a um certo número
de imagens, acontece o que infelizmente aconteceu por toda parte,
pelo menos no Brasil: julgou-se necessário colocar o Sagrado
Coração e Santa Teresinha mesmo em igrejas anteriores
àquela devoção e a esta santa, retirando-se
sem maior cerimônia, para dar-lhes lugar, imagens dos santos
em cuja honra havia sido erguido o altar ou o templo. E deparamos
imagens de gesso, terrivelmente comerciais, ombreando com nobres
relíquias do tempo da Colônia... O que necessita, sem
dúvida, uma providência urgente.
Mas, além do número, moderado, deve haver também
uma ordem conveniente na exposição das imagens. Assim,
nunca se devia expor uma imagem do Cristo ou de Nossa Senhora em
pé de igualdade com a de outro santo. Mas isso também
não significa que devamos ter sempre, dominando toda a igreja,
um Crucificado monumental no altar-mor, solução de
que se abusou um pouco. O verdadeiro memorial do Calvário
está na própria missa, sinal escolhido pelo próprio
Cristo, e o crucifixo do altar poderá ser, com muita propriedade,
a própria cruz processional, ali colocada outrora, bem como
os candelabros, ao entrar o cortejo para o oficio litúrgico.
COMO JULGAR AS OBRAS DE ARTE
No artigo 126 determina-se muito acertadamente que "os Ordinários,
no julgamento das obras de arte, consultem a Comissão Diocesana
de Arte Sacra e, se for o caso, outros eminentes peritos".
Isto significa que tal comissão deve ser composta também
de peritos, não só de cultura teórica e livresca,
como ás vezes sucede, mas capazes de julgar praticamente
o valor artístico de uma obra. É claro que a última
palavra ficará sempre com o Bispo (como no caso do Cristo
de Madame Richier, que foi retirado da igreja de Assy) , pois ele
pode achar que a obra em questão, a despeito do seu valor,
poderá chocar seus diocesanos, ainda não preparados
para compreendê-la e aceitá-la. Mas o Bispo deve também
interessar-se para que suas ovelhas progridam no terreno artístico
como em todos os outros, vindo a aceitar mais tarde o que antes
haviam recusado. O que não é difícil, quando
ele próprio é sensível ao fenômeno artístico.
O artigo urge ainda um preceito antigo: "Diligentemente vigiem
os Ordinários que as sagradas alfaias ou obras preciosas
(...) não sejam alienadas nem destruídas". De
fato é ainda freqüente, se excetuarmos as cidades que
já tomaram (talvez um pouco tardiamente, helás!) consciência
dos antigos valores (como Ouro Preto, Congonhas, Sabará),
verem-se padres bem intencionados trocar imagens antigas por "novas"
e derrubar até igrejas e capelas de certa beleza e antigüidade,
perfeitamente adaptáveis ás vezes, para erguer no
local uma construção vulgar e pretensiosa.
O CONTACTO COM OS ARTISTAS
Para que os Bispos possam consultar peritos sobre obras de arte
sacra e mesmo venham a dispor das ditas obras, faz-se mister que
procurem "interessar-se pelos artistas, por si ou por sacerdotes
idôneos, dotados de competência e amor à arte".
É o que determina o artigo 127. E tal atitude, mesmo antes
de ser uma condição para o futuro da arte sacra, já
é uma decorrência do múnus pastoral, que não
pode excluir da sua solicitude nenhuma categoria de pessoas, mesmo
que ainda não façam parte daquele rebanho ao qual
todos são chamados. Que tal contato se faça preferentemente
por meio de sacerdotes dotados de amor à arte, nada mais
natural, pois só assim se tornará fácil o mútuo
entendimento.
Felizmente, após um quase completo divórcio entre
os artistas e a Igreja , que viera quebrar uma antiga tradição,
vemos os belos casos de Matisse e Le Corbusier, nomes de primeira
linha, pondo o que tinham de melhor nas capelas de Vence e de Ronchamp.
"Eu vos apresento com toda a humildade, escreve Matisse ao
Bispo, a Capela do Rosário das Irmãs Dominicanas de
Vence. Esta obra exigiu-me cinco anos de trabalho exclusivo e constante,
e é o resultado de toda a minha vida ativa. Eu a considero
minha obra-prima". E a carta de Le Corbusier não fica
atrás em beleza, modéstia e altivez, terminando assim:
"Eu vos entrego, Excelência, esta capela de leal cimento,
feita de temeridade talvez e de coragem sem dúvida, na esperança
de que encontrará em vós, como em todos aqueles que
galgarem a colina, um eco ao que ali todos nós inscrevemos".
Pois Le Corbusier fala também em nome dos operários,
do mestre de obras, dos engenheiros, empreiteiros, etc., "todos
os que foram os realizadores desta obra difícil, minuciosa,
rude, forte nos meios que empregou, mas animada por uma matemática
total, criadora do indizível espaço". As cartas
desses dois arquitetos nos dão por um instante a sensação
de estarmos na Idade Média.
Destruídos certos preconceitos e equívocos, o encontro
dos artistas e dos padres será mais fácil do que se
imagina, e temos a certeza de que não se afastarão
uns dos outros pelo que têm em si de melhor, mas sim por seus
mútuos defeitos e deformação profissional...
A publicação "Ars Sacra 58", com textos
em francês, alemão e inglês, tanto de artistas
como de sacerdotes, bispos e papas, poderá ser consultada
com proveito. Além de várias reproduções
de arte sacra contemporânea, oferece-nos também uma
longa bibliografia, sem nada, infelizmente, em português ou
castelhano.
O equívoco fundamental a desfazer nesse terreno é
o preconceito de que só o artista católico, cristão,
ou pelo menos crente, será capaz de fazer arte sacra. O que
decorre, a nosso ver, de uma falsa noção do que chamamos,
ao comentar o artigo 122, arte religiosa, ou cristã, ou sagrada.
Dizíamos que uma obra de arte sacra é uma obra de
arte que serve para o culto, por satisfazer às exigências
do mesmo segundo o julgamento da autoridade eclesiástica:
esta dirá se a igreja é funcional e se tal pintura
não vai de encontro ao dogma. Mas dizíamos também
que a obra de arte sacra devia ser religiosa, cristã ou sagrada,
o que é mais difícil de precisar. E, ao tentarmos
fazê-lo, ficamos um pouco no vago, falando de um certo equilíbrio,
de uma certa transparência, uma certa serenidade. Porque se
há critérios objetivos para definir arte sacra, não
os há do mesmo modo para definir arte religiosa, sagrada
ou mesmo cristã.
De certo modo podemos dizer que toda arte em si mesma (deixando
de lado o assunto e a intenção) tende a algo de religioso,
o que fazia Vincent van Gogh escrever a seu irmão: "Eu
gostaria de pintar homens e mulheres com esse não sei que
de eterno, de que outrora a auréola era o símbolo,
e que nós procuramos pela fulguração, pela
vibração do colorido". E Rodin já escrevera:
"Os verdadeiros artistas são os mais religiosos dos
homens. Tomam-nos por crianças que se embriagam de cores
cambiantes e que brincam de boneca com as formas. Estão enganados.
As linhas e as nuances não são para nós senão
os sinais de realidades escondidas. Além das superfícies,
nossos olhares mergulham até o espírito; e quando,
em seguida, traçamos contornos, nós os enriquecemos
com o conteúdo espiritual que eles envolvem. Eu sempre confundi
a arte religiosa e a arte".
Se o verdadeiro artista é assim um homem à procura
desse resplendor da beleza que transfigura a matéria, como
negar que eles possam pôr tal pesquisa a serviço de
Deus e da Igreja, ainda mesmo que não creiam - quando orientados
quanto ao tema, no caso de uma imagem ou quadro, ou quanto à
função, no caso de um edifício. E assim, se
um artista realmente cristão terá mais motivos para
pôr o seu talento a serviço do culto e de Deus, pode
acontecer que um outro, desprovido de fé, seja mais bem sucedido
que ele, seja por ter mais talento, ou seja mesmo por acaso. Pois
o acaso intervém também na obra de arte, e é
aliás, segundo alguns, a contribuição de Deus...
Como de certo modo não há uma filosofia cristã,
diríamos que também não há arte cristã,
mas obras de arte de valor religioso (e às vezes sobre personagem
ou tema da Revelação) que podem ser incorporadas ao
culto, quando satisfazem às necessidades do mesmo. "A
arquitetura, diz Auguste Perret, é a arte de organizar o
espaço. A arquitetura se apodera do espaço, e limita,
enclausura, encerra o espaço. Tem o privilégio de
criar lugares mágicos, que são por inteiro obras do
espírito". Suponhamos que entrássemos um dia
num desses espaços que nos parecessem, como se expressou
certa vez Le Corbusier, "um vaso de silêncio e de doçura"
: que poderia obstar que o tomássemos para uma capela, ainda
mesmo que o autor não tivesse pensado nisso e nem mesmo fosse
cristão? Como diz muito bem Le Corbusier, "certas coisas
são sagradas, outras não, tivessem ou não intenção
religiosa". Aliás, Santa Teresa já resolvera
o problema há muito tempo, quando se decidiu a não
repelir as aparições do Cristo, que podiam ser produzidas
pelo demônio: não contemplaria ela um belo crucifixo
ainda que tivesse sido esculpido por um pecador?
Tudo isso não quer dizer que devamos pôr de lado os
artistas que tenham a ventura de partilhar a nossa fé, nem
que descuremos de transmití-la aos outros na medida do possível,
como algo que irá enriquecê-los, mesmo como artistas,
na medida em que lhes abra novos horizontes e os torne moralmente
melhores. Mas o que queremos evitar é o equivoco que poderia
afastar da Igreja a preciosa contribuição de tantos
homens que talvez chegassem a Deus ao servi-lo assim sem querer,
como o Cireneu constrangido a carregar a cruz... E os artistas ficariam
felizes e se entenderiam melhor conosco, se vissem que pensamos
deles o mesmo que Henri Laurens: "Os artistas, mesmo os que
não são praticantes, têm um fundo religioso.
Por que não poderiam fazer obra de amor? Bem que a fizeram
na época do cubismo. Repare como nos grandes artistas do
nosso tempo existe um grande desinteresse em relação
á sua arte: trata-se do que se pode chamar, eu creio, o fundo
religioso".
O desinteresse dos artistas, quando são compreendidos...
Ocorre-me um caso que não sei se estaria autorizado a divulgar.
O escultor Emendabile oferecendo-se espontaneamente para fazer a
imagem de Nossa Senhora das Graças para o Mosteiro da mesma
invocação em Belo Horizonte: executou-a primeiro em
barro, depois em mármore, em tamanho natural, e fez questão
de leva-la ele próprio até lá, prontificando-se
a voltar no momento em que a forem colocar no lugar definitivo,
para estudar a melhor altura, o melhor ângulo. Creio que se
tratava, no caso de um artista cristão. Aliás o que
o movia não era tanto, julgamos, um motivo religioso, mas
o saber que a sua Virgem, tão simples, tão despojada,
esmagando uma serpente que era quase um verme a seus pés,
seria compreendida e amada por aquelas monjas cujo espírito
conhecera.
Voltando ao problema da possibilidade de artistas "sem fé"
trabalharem para a Igreja, Pio XII, como nota o Pe. Regamey, parece
ter deixado uma porta aberta na sua encíclica sobre a Liturgia,
quando fala de artistas que "sejam capazes de exprimir uma
fé e uma piedade sinceras". Pois pensamos que essa fé
e essa piedade podem não ser a deles próprios, mas
as da Igreja, na medida em que sejam capazes de se fazerem instrumentos
dela. Por que haveríamos de ser mais rigorosos para com o
sinal artístico, mais humano por assim dizer, do que para
com o sinal sacramental, uma vez que qualquer pessoa, mesmo não-cristã,
mesmo sem fé, pode dar a graça do Batismo, quando
pretende "fazer o que a Igreja faz"? Se bem que no terreno
da arte, como não se trata de um sinal eficaz, não
basta que o artista tenha pretendido fazer-se ministro, por assim
dizer, mas o tenha realmente conseguido - do que o Ordinário
será sempre o juiz, ainda que recorrendo á opinião
de outros, que aliem á fé a sensibilidade artística.
A presente Constituição, falando dos "artistas
todos que, levados pelo seu gênio, querem servir na Santa
Igreja á glória de Deus", parece insinuar o apelo
mesmo aos não-cristãos. Do contrário, por que
teria usado o adjetivo "todos"? E por que teria usado
a expressão "levados por seu gênio" em vez
de "Por sua fé" ou "sua piedade"? Parece
apenas exigir que queiram "servir" enquanto artistas (finis
operis), sem cogitar do finis operantis. Se, como foi tratado no
artigo 37, a Igreja "cultiva e desenvolve as conquistas e os
dotes de espírito das várias nações
e povos", podendo até admitir na própria Liturgia
o que "não esteja indissoluvelmente ligado a superstições
e erros", se o Vaticano II reafirma assim o "anima naturaliter
christiana", como não sermos mais abertos em relação
aos artistas, cabendo sempre, é claro, a última palavra,
diante de cada obra, à autoridade eclesiástica.
Muito oportunamente o artigo 127 prevê que, "onde parecer
conveniente, instituam-se Escolas ou Academias de Arte Sacra para
a formação dos artistas". Como se vê, e
de acordo com o que vimos dizendo, não se trata de tornar
artista quem não o seja, mas de proporcionar àqueles
que o são, não receitas e truques de arte religiosa
ou cristã, que não existem, mas informações
objetivas sobre a natureza do culto, sobre o que a Igreja espera
deles, sobre o que já se fez no passado, etc., tudo isso
a que poderemos chamar com propriedade arte sacra. O que será
ensinado em tais escolas ou academias, e que são coisas realmente
ensináveis, será matéria do artigo 128.
NOVAS EXIGÊNCIAS DA ARTE SACRA
O artigo 128 mostra-nos que não só os artistas, mas
o próprio clero terá de estudar arte sacra. Pois se
a arte, como tal, tem leis eternas e imutáveis, a arte sacra
terá de variar quando varia o culto, a cujo serviço
se põe. E o culto, se é também imutável
em seus elementos fundamentais (matéria e forma dos sacramentos,
por exemplo), pode e deve mudar em seus elementos acidentais, conforme
o tempo e o lugar. E a presente Constituição consagrou
inúmeras mudanças, há muito tempo desejadas,
profundamente estudadas, mas que parecem decorrer todas do artigo
26, que afirma o caráter comunitário da liturgia e
a necessidade da participação ativa de todo o povo.
Trata-se, portanto, de assunto que não está ainda
inteiramente regulamentado: "Revejam-se quanto antes, juntamente
com os livros sacros, de acordo com a norma do artigo 25, os cânones
e estatutos eclesiásticos que dizem respeito ás coisas
externas pertencentes à preparação do culto
sagrado, principalmente quanto à digna e funcional construção
das igrejas, à forma e edificação dos altares,
à nobreza, disposição e segurança do
tabernáculo eucarístico, à conveniência
e honra do batistério, bem como à determinação
razoável das sagradas imagens, da decoração
e ornamentação". Trata-se realmente de uma revisão
geral e profunda, orientada por critérios seguros, que não
admitem compromissos: "O que parecer convir menos à
liturgia reformada, seja emendado ou abolido; o que, porém,
a favorecer, seja mantido ou introduzido".
Assim veremos provavelmente, em tais reformas, como decorrência
do caráter pastoral das mesmas: a acentuação
da Missa ou Eucaristia como centro da comunidade, o altar em forma
de mesa (recordação da última ceia e sugestão
da mesa da família), a celebração de frente
para o povo, sem falar do espaço necessário para a
formação das verdadeiras procissões de entrada,
ofertório e comunhão, que tão belamente testemunham
e incentivam a unidade dos fiéis e a sua união com
o altar. Veremos também, como decorrência da volta
à Sagrada Escritura, um novo destaque dado à liturgia
da Palavra, que praticamente quase desaparecera do nosso culto.
Veremos assim o estabelecimento de lugares próprios de onde
ela possa ser lida e proclamada, provavelmente à direita
e à esquerda do altar, como nas missas solenes. Veremos o
desaparecimento do famoso "coro" das nossas igrejas, espécie
de tribuna em que cantores e músicos davam pequenos concertos
durante os atos litúrgicos, pois á palavra de Deus,
ouvida agora na própria língua, responderá
todo o povo com cânticos e aclamações tradicionais.
Nem serão esquecidos, numa reforma tão ampla, os objetos
sagrados e a indumentária dos ministros, tão mais
importantes por estarem mais perto dos sagrados mistérios.
No espírito de toda a nova reforma poderemos supor que tais
objetos sejam diminuídos no seu número, para não
desviarem a atenção do essencial, bem como acentuados
na sua forma e função: teremos talvez hóstias
mais grossas e menos pálidas que as atuais, que mais sugerem
papel do que pão, bem como cálices que pareçam
copos e patenas que pareçam pratos, sugerindo logo o banquete,
sagrado sem dúvida, que é a missa. Quanto aos ornamentos
sagrados, veremos que se tornam de novo vestes: não mais
a rígida couraça em cuja superfície se podiam
bordar todas as cenas da Bíblia, completada por uma túnica
de rendas, tantas vezes ordinária, mas o nobre manto dos
romanos sobre a alva antiga, cujas belas dobras, que ainda contemplamos
na estatuária medieval, tão bem acentuam (e disciplinam)
os gestos daquele ator que vai fazer o papel do Cristo. A Constituição
sugere aqui maior liberdade, de acordo com as Conferências
episcopais, para uma adaptação "ás necessidades
e costumes dos lugares". Poderemos ver assim aproveitados os
belos materiais de cada região, em vez daqueles terríveis
tecidos padronizados sempre das mesmas cores e com os mesmos JHS,
duros, brilhantes e ordinários, e de cálices e castiçais
sempre idênticos e pretensiosos.
Aliás, seria importantíssimo prevenir clero e fiéis
contra as casas de artigos religiosos, de modo a forçarem-nas
a pedir o concurso de verdadeiros artistas em sintonia com as autoridades
eclesiásticas, para não mais encherem as suas vitrines
(e depois as igrejas e nossas casas) com um tipo de objetos que
só a eloqüência de um Léon Bloy saberia,
como soube, descrever...
A FORMAÇÃO DO CLERO
O artigo 129 fala da formação artística dos
que se preparam para o sacerdócio, "de modo a serem
instruídos na história da Arte Sacra e sua evolução,
bem como acerca dos sãos princípios que devem reger
as obras de arte". Considerando a arte sacra como a vimos considerando,
trata-se aqui de um estudo de como a arte serviu ou não ao
culto litúrgico, e o que dela se deve exigir para que possa
servi-lo. O risco desses estudos, se feitos apenas como mera "história",
é prender-nos demais ao passado, perigo contra o qual. nos
adverte o Cardeal Lercaro, que passamos a citar: "Pode-se facilmente
cair no perigo de tomar as formas pelas quais as idéias e
o gosto de uma época exprimiram sinceramente a prece da alma
católica como se fossem exigências objetivas do espírito
religioso e da liturgia. Seria esquecer que a tradição
mais autêntica e profunda manifesta a imortal vitalidade da
liturgia, que lhe permite exprimir seus desejos na linguagem peculiar
aos homens de cada século, com aquela maravilhosa plasticidade
que é sinal evidente de perpétua mocidade. Essa estranha
opinião, que imobiliza e parece cristalizar a expressão
da alma litúrgica, criou fenômenos paradoxais de insinceridade,
pela substituição evidente do julgamento individual
à objetividade da tradição. Pretendeu-se determinar
a expressão da'alma litúrgica pelas linhas de um ou
outro estilo, renegando-se assim claramente, e na maior boa-fé,
o verdadeiro e único principio da tradição:
"Cada instante da história celebra, na linguagem dos
vivos, o louvor do Deus vivo".
lnstruídos e formados nessa linha indicada pelo Cardeal Lercaro,
os futuros padres estarão à altura de não apenas
"apreciar e conservar os veneráveis monumentos da Igreja",
tantas vezes candidamente dilapidados, mas saberão enriquecê-los
mais e mais de obras de arte autênticas, bem como) "proporcionar
exatos conselhos aos artistas na produção das suas
obras". Mas este trabalho junto aos artistas tem de ser complementado
por um outro, sem o qual seria inútil. "É preciso,
sem dúvida, prossegue o Cardeal Lercaro; encaminhar os artistas
ao espírito da liturgia e às suas exigências
concretas, mas é preciso também dar á comunidade
católica o verdadeiro sentido da tradição.
(...) A alma da liturgia não se opõe a nenhuma forma
de arte, nem pretende determinar-lhe a linguagem: pede apenas que
ela traduza autêntica e verdadeiramente o seu espirito e não
recuse ouvir-lhe as exigências. (...) Ninguém tem,
como o artista, a capacidade de sentir profundamente, e de às
vezes pressentir, e de captar quase inconscientemente, mas com rara
sensibilidade, as orientações, direções,
atitudes e aspirações de um meio e de um momento,
para fazer-se o intérprete das mesmas".
A SERIEDADE DA LITURGIA
O artigo 130 declara que "convém que o uso dos Pontificais
seja reservado àqueles eclesiásticos que gozam de
caráter episcopal ou de alguma jurisdição especial".
Vemos nessa recomendação mais uma decorrência
do espírito que anima toda a Constituição,
de considerar a Liturgia e tudo aquilo que a compõe conto
algo de funcional e vivo, valorizando gestos, vestes e palavras,
que são sinais para valer na comunidade do povo de Deus,
e não honrarias em tomo de uma pessoa.
UM ARTIGO QUE PARECE FALTAR
Gostaríamos de ver mais um artigo nessa Constituição,
e que poderia ser o último deste capitulo VII, embora pudesse
fazer também parte de outros. Aliás, quase poderios
dizer que ele existe na Constituição, embora apenas
insinuado aqui e ali, como quando se recomenda no artigo 30 que
se levem em consideração, em relação
aos fiéis, "os gestos e porte do corpo". Ora, se
os movimentos e atitudes dos fiéis são dignos de atenção,
que não se dirá dos movimentos e atitudes do Celebrante,
que preside à assembléia e que dá, por assim
dizer, o tom da mesma? Não basta cuidar-se apenas do canto
e da palavra e nem apenas de unia exatidão "rubricistica",
se assim podemos dizer, mas é preciso mais. É preciso
que os clérigos aprendam, como dizia o Abade de "O milagre
de Dom Malachias" (mal traduzido para o português, a
começar pelo nome), "que não se entra no santuário
do mesmo modo que num grande estádio para uma partida de
futebol". Não que se trate de fazê-los adotar
uma atitude de "piedosa" humildade e até de alheamento
aos fiéis, como se a liturgia fosse apenas um ato de devoção
do sacerdote. Mas é preciso, já que a liturgia tem
tanto de um teatro e o celebrante de um ator, que os ministros aprendam
a entrar, a sair, a mover-se com dignidade, simplicidade e beleza,
na medida do possível. Pelo simples modo de um Celebrante
portar-se no altar, podemos avaliar logo se ele compreendeu realmente
o que é a sagrada liturgia.
CONCLUSÃO
Terminando nossas considerações, permitimo-nos
lembrar que este capitulo consagrado á arte sacra não
é uma espécie de "parente pobre" na presente
Constituição, tolerado ao lado do que trata do canto,
que sempre mereceu mais carinho. Não: este capitulo é
dos mais importantes, se levarmos em conta o espírito da
mesma.
E com razão. A arte é importante, a beleza é
uma necessidade. Tão necessária como aquele gesto,
aparentemente supérfluo de Maria, que o Cristo defendeu contra
Judas.
A beleza é importante. Sobretudo do ponto de vista pastorai
e missionário. Ninguém, num breve orlar, toma conhecimento
dos nossos dogmas. Dificilmente, num contacto banal, descobriremos
a caridade cristã. Mas basta um relance de olhos para que
o visitante seja atraído pela beleza da casa de Deus e leve
mais longe a sua pesquisa. Como basta um relance de olhos para que
ele se retire, indiferente ou decepcionado, sem saber que lhe foram
mostradas apenas as rugas da que devia ser sem ruga e sem mancha.
Quantos rapazes não chegaram sequer a propor-se o problema
da vocação sacerdotal porque, de um modo quase inconsciente,
julgaram impossível verem-se vestidos com rendas e fitinhas!
Se lhe fosse permitido terminar com uma confidência, o autor
dessas linhas diria que só foi capaz de deixar de repelir
o chamado de Deus, quando a Ordem de S. Bento lhe velou que a beleza,
apesar de tudo, não fora de todo banida da casa do Senhor.
UM POST-SCRIPTUM
Quando este trabalho já se achava no prelo, tivemos a
felicidade de poder juntar-lhe mais um capítulo, uma espécie
de "post-scriptum" da autoria do próprio Santo
Padre. Pois Paulo VI, celebrando a "Missa dos Artistas"
no dia 7 de maio, festa da Ascensão, dirigiu-lhes, de improviso,
uma esplêndida saudação, cujo texto nos foi
dado pelo "L'Osservatore Romano" do domingo seguinte,
10 de maio. Segue-se aqui a tradução das palavras
do grande Pontífice, de que omitimos apenas o trecho final,
que se reporta á Santa Missa e já não tanto
ao problema da arte, que nos interessa no momento. Frisamos Que
o Santo Padre, na parte que não transcrevemos, ao distinguir
entre os artistas que "participam" da missa e os que "a
cercam como uma coroa", parece dirigir-se até a não
praticantes e não-católicos, o que se pode concluir
também do seu modo geral de exprimir-se na parte que passamos
a transcrever:
Caros senhores e filhos ainda mais caros!
Esforçai-vos, antes de começarmos esta conversa, por
afugentar de vossa alma qualquer apreensão ou perturbação,
que podem facilmente surpreender quem se encontre, em ocasião
semelhante, na Capela Sistina. Não há lugar talvez
que mais nos leve a pensar e a estremecer, nem que incuta mais timidez,
e ao mesmo tempo mais excite os sentimentos da arma. Mas justamente
vós, artistas, é que deveis ser os primeiros a repetir
do coração o instintivo receio que assalta a Quem
entra neste cenáculo de história, de arte, de religião,
e de destinos humanos, e recordações, e presságios.
E. por quê? Porque è justamente, mais que qualquer
outro, um cenáculo de artistas para artistas. Deveis, pois,
deixar neste momento que a grande onda de emoção,
recordações e exaltações, que um templo
como este costuma despertar nas almas, vos invada livremente o espírito.
Mas pode haver para vós uma outra perturbação,
uma outra timidez que quase vos paralise. É a que pode causar-vos,
não tanto a nossa humilde pessoa, mas a nossa presença
oficial, o nosso ministério pontifício: aqui está
o Papa!, murmurais de certo. Será que os artistas já
vieram algum dia ao encontro do Papa? E' talvez a primeira vez que
isto acontece. Vieram sem dúvida nos séculos passados,
sempre estiveram em relações com o chefe da Igreja
Católica, embora em contactos diferentes. Mas dir-se-ia que
se acabara perdendo o fio de tal relação e colóquio.
E agora estais aqui, todos juntos, num momento religioso, todo para
vós, não como espectadores diante da cena, mas como
quem sobe realmente á ribalta para um diálogo espiritual,
uma celebração sagrada. E é natural, quando
se é sensível e compreensivo, experimentar se uma
certa veneração, um certo respeito, um certo desejo
de compreender e de calar. Pois bem: se esta sensação
viesse acaso tolher o livre curso de vossas emoções,
nós desejamos ardentemente dissipa-la porque, se o Papa deve
acolher todo mundo - porque é Pai de -todos, e tem para com
todos um dever e para todos uma palavra - tem contudo uma palavra
especialmente guardada para vós, e sente-se ansioso e feliz
por exprimi-la hoje, pois o Papa é vosso amigo.
E é vosso amigo não só porque uma tradição
de suntuosidade, mecenatismo, fausto e grandeza circunde o seu ministério,
a sua autoridade, o seu contacto com os homens, e nem só
porque necessite deste quadro decorativo e simbólico, que
revele, a quem não o saiba, quem é ele, e como o Cristo
o desejou entre os homens. Mas é vosso amigo por razões
mais intrínsecas, pelas quais justamente vos encontrais hoje
aqui, e que tão a peito tomamos: as razões do nosso
ministério é que nos fazem vir ao vosso encontro!
Será preciso fazermos a grande afirmação, que
aliás já conheceis? Nós precisamos de vós!
O nosso ministério tem necessidade da vossa colaboração.
Porque, como sabeis, nosso ministério é pregar, e
tornar acessível e compreensível, comovente mesmo.
o mundo do espirito, do invisível, do inefável, de
Deus em suma. E nesta operação, que faz o mundo invisível
transbordar em fórmulas acessíveis, inteligíveis,
vós sois os mestres. Pois é o vosso mister, a vossa
missão; e vossa arte consiste justamente em roubar ao céu
do espírito os seus tesouros, para revesti-los de palavras,
cores, formas, e acessibilidade enfim. E não só daquela
acessibilidade do professor de lógica ou matemática,
que torna realmente compreensíveis os tesouros do mundo inacessível
ás faculdades cognoscitivas dos sentidos e á nossa
imediata percepção das coisas. Mas tendes ainda a
prerrogativa de, no ato mesmo em que tornais acessível e
compreensível o mundo do espírito, conservar-lhe,
no entanto, a sua inefabilidade, o sentido da sua transcendência,
a sua auréola de mistério, essa necessidade de capta-lo,
ao mesmo tempo, na facilidade e no esforço.
Isto - e os entendidos chamam "Einfühlung", sensibilidade,
á capacidade de manifestar, por meio do sentimento, o que
não se consegue captar e exprimir por meio do pensamento
- vós, artistas, o fazeis! Ora, neste vosso modo, nesta vossa
capacidade de exprimir no âmbito do nosso conhecimento - e
na verdade daquela forma fácil e feliz, ou seja sensível,
que só a visão intuitiva penetra e apreende - vós
sois, repetimos, mestres. E se nos faltasse o vosso auxilio, nosso
ministério se tornaria balbuciante e incerto, e teria necessidade
de fazer tini esforço para tornar-se, diríamos, ele
próprio artístico, ou melhor, profético. Para
atingir a força de expressão lírica da beleza
intuitiva, seria necessário fazer com que o sacerdócio
coincidisse com a arte.
Ora, se assim é, nossa conversa deveria tornar-se grave e
solene.Talvez o lugar e até o momento o sugiram, mas não
o tempo que nos foi concedido, nem'o programa que havíamos
traçado para este primeiro encontro amigável. Quem
sabe não virá o momento em que possamos ir mais adiante?
Mas o tema é este: a necessidade de se restabelecer a amizade
entre a Igreja e os artistas. Não que esta amizade se tenha
jamais rompido, como prova esta mesma reunião, que é
já tinia prova de amizade. Sem falar em tantas outras manifestações
que podem atestar uma continuidade, uma fidelidade de relações,
evidenciando que nunca se rompeu de todo a amizade entre a Igreja
e os artistas. Mesmo porque, como dizíamos, a Igreja precisa
dela. E depois, podemos dizer alguma coisa mais, lendo-vos o coração.
Vós mesmos andastes buscando esse mundo do inefável,
e descobristes que a sua pátria, que o seu endereço,
que o seu melhor local de abastecimento é ainda a Fé,
é ainda a oração, a religião, enfim.
Na verdade, temos sido sempre amigos. Mas, como acontece entre parentes,
como acontece entre amigos, também nos agastamos um pouco.
Não rompemos de todo, mas deixamos que a nossa amizade se
perturbasse. Poderei falar com franqueza? Vós nos abandonastes
um pouco, andastes longe, a beber de outras fontes, na ânsia
embora legitima de expressar outras coisas, mas não mais
as nossas.
Teríamos ainda outra observação a fazer, mas
não queremos em manhã como esta perturbar-vos e ser
descortês. Bem sabeis que trazemos uma certa ferida no coração
quando vos vemos entregues a certas expressões que nos ofendem,
a nós que somos o guardião de uma humanidade integral,
de uma definição completa do homem, e da saúde,
da estabilidade do homem. Vós separastes a arte da vida,
e agora...
Mas ainda há mais. Algumas vezes esqueceis a lei fundamental
da vossa consagração á expressão: não
se sabe o que dizeis, não o sabeis vós mesmos tantas
vezes, e o resultado é a linguagem de Babel, a confusão.
E então, onde fica a arte? A arte deveria ser intuição,
deveria ser facilidade, deveria ser felicidade. Vós nem sempre
nos dais esta facilidade, esta felicidade, e então ficamos
perplexos, intimidados, distantes...
Mas, para ser sincero e ousado - e apenas começamos, como
vedes - reconhecemos que nós também vos afligimos
um pouco. Nós vos afligimos, porque vos impusemos como primeira
norma à imitação, a vós que sois criadores,
sempre inquietos, transbordantes de mil idéias e mil novidades.
Nós - era o que vos dizíamos - temos este estilo,
e é preciso salvaguarda-lo; nós temos esta tradição,
e é preciso ser fiel á mesma; nós temos estes
mestres, e é preciso segu140s; nós temos estas íeis,
e não é possível afastar-se delas. Algumas
vezes vos jogamos em cima, por assim dizer, uma capa de chumbo;
perdoai-nos! E, além disso, nós também vos
abandonamos. Não vos explicamos as nossas coisas. Não
vos introduzimos na cela secreta, onde os mistérios de Deus
fazem palpitar de alegria, de esperança, de júbilo,
de embriaguez, o coração do homem! Não fizemos
de vós discípulos, amigos, confidentes; e, por isso,
não nos conhecestes.
E então vossa linguagem tornou-se dócil sem dúvida,
para o nosso mundo, mas como que amarrada, convencional, incapaz
de encontrar a sua livre voz. E nós sentimos então
a insatisfação dessa expressão artística.
E - faremos o Confiteor completo esta manhã, ao menos aqui
vos tratamos pior ainda, recorrendo aos sucedâneos, ás
reproduções, ás obras de arte de má
qualidade c pouco preço, momo porque, para nossa desculpa,
não dispúnhamos de meios para comprar coisas grandes,
coisas belas, coisas novas, coisas dignas de serem admiradas; e
andamos também nós por becos escusos, onde a arte
e a beleza, e o que é pior para nós - o culto de Deus,
não foram bem servidos.
Vamos fazer de novo as pazes? Hoje mesmo? Aqui? Vamos de novo ser
amigos? O Papa será de novo chamado "o amigo dos artistas"?
Quereis sugestões, meios práticas? Mas estes não
entram agora nos meus planos. Fiquemos por ora apenas nos sentimentos.
Devemos tornar-nos novamente aliados. Devemos reclamar de vós
todos us talentos que o Senhor vos deu, mas deixando-vos entoar,
dentro do âmbito da funcionalidade e da finalidade que irmanam
a arte ao culto, o canto livre e poderoso de que sois capazes. E
vós deveis ser bastante corajosos para interpretar aquilo
que devereis exprimir, para virdes buscar conosco o motivo, o tema,
c, algumas vezes, mais que o tema: aquele fluido secreto que se
chama inspiração, que se chama graça, que se
chama o carisma da arte. E, se Deus quiser, nós vo-lo daremos.
Mas dizíamos que este momento não é próprio
para longas conversas e para as proclamações definitivas.
Porém nós já firmamos, da nossa parte, nós
Papa, nós igreja, t<m grande tratado de nova aliança
com o artista. A Constituição da Sagrada Liturgia,
que o Concílio Vaticano II publicou e promulgou em primeiro
lugar, contém uma página - espero que a conheçais
- que è justamente o pacto de reconciliação
e de renascimento da arte religiosa no seio da Igreja Católica.
Repito: o nosso pacto foi firmado. Espera de vós a confirmação.
Fonte:
"A Sagrada Liturgia renovada pelo Concílio"
Frei Guilherme Baraúna - OFM
Ed. Vozes - 1964, Petrópolis - RJ
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