Untitled Document
Província Fraternidades Carisma Franciscano Sefras SAV Missões Multimídia
       São Paulo, 06/01/2009, 10:24          
 



   
Santo Antônio da Igreja do Pari, São Paulo

ARTE SACRA E ICONOGRAFIA CRISTÃ

SANTO ANTÔNIO MILITAR NO BRASIL

Por Rafael Brondani dos Santos, especial para o Site "Franciscanos"

Ao longo da história muitas celebridades e instituições nacionais alteraram completamente seu significado nos diversos contextos a que foram submetidos. O mesmo ocorre com Santo Antônio, hoje celebrizado e lembrado quase que exclusivamente como "santinho casamenteiro", já ocupou diversos papéis no imaginário cristão de outrora, como nos aponta sua principal ladainha do século XVII, onde nosso santo figura como "Farol da Igreja", Defensor da fé", "Martelo dos Hereges", "Chave de Ouro", "Oficina de Milagres", "Padroeiro dos Impossíveis", "Doutor Evangélico", "Santo dos Casos e Coisas Perdidas".

Ao estudarmos a existência de uma religiosidade intimamente vinculada a um homem relacionado entre os de maior expressão de um credo religioso, procuramos relacionar e realçar as múltiplas e fascinantes facetas da vida de Antônio, nascido Fernando de Bulhões, ordenado sacerdote como Frei Antônio, e venerado por uns como Santo Antônio de Lisboa, por ter nascido na capital lusa, e por outros como Santo Antônio de Pádua, por ali ter vivido e morrido.

Assim são partes importantes dessa trajetória, as repercussões de sua existência terrena, sempre vinculada à união entre cruz e espada, como também a veneração dedicada a um homem humilde, que desenvolve em torno de sua imagem uma seqüência de rememorações, onde se juntam feitos heróicos, práticas pouco ortodoxas, atividades militares e invocações as mais diversas em que percebemos mesclar história, folclore, fé, crendice, literatura e arte. Desta forma nos interessa ressaltar uma destas facetas: Santo Antônio Militar.

A personificação da figura de Santo Antônio nos remete a presença de um santo pacífico que se envolve politicamente na tradição militar luso-brasileira. Abundam na hagiografia católica santos vinculados às artes marciais: o próprio Javé tinha entre seus títulos o de Deus dos Exércitos. São Miguel Arcanjo traz sempre a espada na mão e tornou-se o capitão das milícias celestes ao desbaratar a revolta de Lúcifer.

São Sebastião era soldado romano, são Martinho de Nantes valoroso militar, Santo Inácio de Loyola lutou na armada castelhana, e São Jorge, o militar por excelência da milícia celestial com sua espada desembainhada, enfim tantos vinculados diretamente à militarização, mas na América portuguesa e no Reino é a figura de Antônio que se destaca como militar na corte celeste.

Percebemos então, que a inspiração teológica e o substrato histórico da transformação de Antônio em santo guerreiro com numerosas patentes militares, e dentre elas a de capitão-do-mato, liga-se exatamente a faceta de sua biografia como típico jovem do tempo das cruzadas, e contemporâneo da instalação da Santa Inquisição tendo o mesmo ideal do apóstolo Paulo, quando estimulava os cristãos que combatessem as hostes do demônio, ouvidada no imaginário popular contemporâneo.

Ao se incorporar Santo Antônio no serviço militar, lacaio ora dos interesses da Coroa portuguesa em sua luta contra os estrangeiros hereges, ora dos colonos do Brasil na recuperação de seus escravos fugidos ou na destruição dos quilombos, os devotos estavam atualizando seu carisma original de "pavor dos infiéis" e "martelo das heresias". Sendo nesse processo que o Santo casamenteiro se tornaria em nossa terra o "divino sargentão", levando os exércitos ao saque e à matança, defendendo fortalezas e cidades:
"Santo Antônio de Lisboa,
não quere que o chamem de santo,
quere que lhe chamem soldado
general, mestre de campo."

Patrono e companheiro dos soldados que ostentavam em seus estandartes a cruz de Cristo, Antônio foi invocado no Reino e no Brasil como defensor do povo luso-brasileiro e foi na Bahia que iniciou sua prodigiosa guerra contra os infiéis no Brasil, com a construção da igreja e fortaleza de Santo Antônio da Barra, ponto bastante vulnerável que carecia da presença de um porteiro zelador: Santo Antônio.

Nosso santo faria então longa carreira militar no Brasil sendo elevado as mais variadas patentes militares, de Soldado raso à Coronel por todo o território tendo seu respectivo soldo pago pelo Tesouro Real do rei português às Igrejas de sua Invocação pelos prestimosos serviços que desempenhava em prol dos habitantes de todo o Brasil, sendo este revertido para o ornato da capela e para organização de suas festas.

Além do soldo veio a receber preciosas insígnias e objetos castrenses como, por exemplo, o bastão de comando do próprio príncipe regente D. João, entregue em 1814 ao Tenente-Coronel Santo Antônio do Convento Franciscano do Rio de Janeiro e a Grã-Cruz da Ordem de Cristo, ofertada como agradecimento à proteção do santo nas querelas régias.

Santo Antônio passa a ser assim um companheiro mais próximo e permanente dos militares, principalmente nas invasões estrangeiras, como nos casos de Bahia, Pernambuco e Rio de Janeiro, onde passa a ser recrutado e militarizado comandando a expulsão dos usurpadores estrangeiros como prestimoso militar. Seu soldo foi pago como forma de gratidão ao santo até o início do período republicano.

Estando assim onipresente em todos os estratos sociais, fazendo jus ao título de "Santo Universal", aparecendo desde o cotidiano devocional popular até nas questões régias, militarizando-se em prol dos interesses de seus compatriotas Santo Antônio aumentava ainda mais a sua auréola, transformando-se em um santo que mesmo num mundo atual de máquinas, teorias e avanços científicos, continua sendo invocado e celebrado por muitos, se não como santo, como importante ator social, seja no seu tempo, ou por suas influências que tiveram lugar de destaque na História, povoando o imaginário coletivo com representações e invocações, nas promessas e nos altares.

Rafael Brondani dos Santos é Historiador. Mestre em História Social na UFF, dissertou sobre Militarização e Politização de Santo Antônio no Brasil Colonial.

|
VOLTAR |

Provincia
[Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil] - Copyright © 2008 Franciscanos.org.br
Todos os direitos Reservados.