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ARTE
SACRA E ICONOGRAFIA CRISTÃ
SANTO ANTÔNIO MILITAR NO BRASIL
Por Rafael Brondani dos Santos, especial para o Site "Franciscanos"
Ao longo da história muitas celebridades e instituições
nacionais alteraram completamente seu significado nos diversos contextos
a que foram submetidos. O mesmo ocorre com Santo Antônio,
hoje celebrizado e lembrado quase que exclusivamente como "santinho
casamenteiro", já ocupou diversos papéis no imaginário
cristão de outrora, como nos aponta sua principal ladainha
do século XVII, onde nosso santo figura como "Farol
da Igreja", Defensor da fé", "Martelo dos
Hereges", "Chave de Ouro", "Oficina de Milagres",
"Padroeiro dos Impossíveis", "Doutor Evangélico",
"Santo dos Casos e Coisas Perdidas".
Ao estudarmos a existência de uma religiosidade intimamente
vinculada a um homem relacionado entre os de maior expressão
de um credo religioso, procuramos relacionar e realçar as
múltiplas e fascinantes facetas da vida de Antônio,
nascido Fernando de Bulhões, ordenado sacerdote como Frei
Antônio, e venerado por uns como Santo Antônio de Lisboa,
por ter nascido na capital lusa, e por outros como Santo Antônio
de Pádua, por ali ter vivido e morrido.
Assim são partes importantes dessa trajetória, as
repercussões de sua existência terrena, sempre vinculada
à união entre cruz e espada, como também a
veneração dedicada a um homem humilde, que desenvolve
em torno de sua imagem uma seqüência de rememorações,
onde se juntam feitos heróicos, práticas pouco ortodoxas,
atividades militares e invocações as mais diversas
em que percebemos mesclar história, folclore, fé,
crendice, literatura e arte. Desta forma nos interessa ressaltar
uma destas facetas: Santo Antônio Militar.
A personificação da figura de Santo Antônio
nos remete a presença de um santo pacífico que se
envolve politicamente na tradição militar luso-brasileira.
Abundam na hagiografia católica santos vinculados às
artes marciais: o próprio Javé tinha entre seus títulos
o de Deus dos Exércitos. São Miguel Arcanjo traz sempre
a espada na mão e tornou-se o capitão das milícias
celestes ao desbaratar a revolta de Lúcifer.
São Sebastião era soldado romano, são Martinho
de Nantes valoroso militar, Santo Inácio de Loyola lutou
na armada castelhana, e São Jorge, o militar por excelência
da milícia celestial com sua espada desembainhada, enfim
tantos vinculados diretamente à militarização,
mas na América portuguesa e no Reino é a figura de
Antônio que se destaca como militar na corte celeste.
Percebemos então, que a inspiração teológica
e o substrato histórico da transformação de
Antônio em santo guerreiro com numerosas patentes militares,
e dentre elas a de capitão-do-mato, liga-se exatamente a
faceta de sua biografia como típico jovem do tempo das cruzadas,
e contemporâneo da instalação da Santa Inquisição
tendo o mesmo ideal do apóstolo Paulo, quando estimulava
os cristãos que combatessem as hostes do demônio, ouvidada
no imaginário popular contemporâneo.
Ao se incorporar Santo Antônio no serviço militar,
lacaio ora dos interesses da Coroa portuguesa em sua luta contra
os estrangeiros hereges, ora dos colonos do Brasil na recuperação
de seus escravos fugidos ou na destruição dos quilombos,
os devotos estavam atualizando seu carisma original de "pavor
dos infiéis" e "martelo das heresias". Sendo
nesse processo que o Santo casamenteiro se tornaria em nossa terra
o "divino sargentão", levando os exércitos
ao saque e à matança, defendendo fortalezas e cidades:
"Santo Antônio de Lisboa,
não quere que o chamem de santo,
quere que lhe chamem soldado
general, mestre de campo."
Patrono e companheiro dos soldados que ostentavam em seus estandartes
a cruz de Cristo, Antônio foi invocado no Reino e no Brasil
como defensor do povo luso-brasileiro e foi na Bahia que iniciou
sua prodigiosa guerra contra os infiéis no Brasil, com a
construção da igreja e fortaleza de Santo Antônio
da Barra, ponto bastante vulnerável que carecia da presença
de um porteiro zelador: Santo Antônio.
Nosso santo faria então longa carreira militar no Brasil
sendo elevado as mais variadas patentes militares, de Soldado raso
à Coronel por todo o território tendo seu respectivo
soldo pago pelo Tesouro Real do rei português às Igrejas
de sua Invocação pelos prestimosos serviços
que desempenhava em prol dos habitantes de todo o Brasil, sendo
este revertido para o ornato da capela e para organização
de suas festas.
Além do soldo veio a receber preciosas insígnias e
objetos castrenses como, por exemplo, o bastão de comando
do próprio príncipe regente D. João, entregue
em 1814 ao Tenente-Coronel Santo Antônio do Convento Franciscano
do Rio de Janeiro e a Grã-Cruz da Ordem de Cristo, ofertada
como agradecimento à proteção do santo nas
querelas régias.
Santo Antônio passa a ser assim um companheiro mais próximo
e permanente dos militares, principalmente nas invasões estrangeiras,
como nos casos de Bahia, Pernambuco e Rio de Janeiro, onde passa
a ser recrutado e militarizado comandando a expulsão dos
usurpadores estrangeiros como prestimoso militar. Seu soldo foi
pago como forma de gratidão ao santo até o início
do período republicano.
Estando assim onipresente em todos os estratos sociais, fazendo
jus ao título de "Santo Universal", aparecendo
desde o cotidiano devocional popular até nas questões
régias, militarizando-se em prol dos interesses de seus compatriotas
Santo Antônio aumentava ainda mais a sua auréola, transformando-se
em um santo que mesmo num mundo atual de máquinas, teorias
e avanços científicos, continua sendo invocado e celebrado
por muitos, se não como santo, como importante ator social,
seja no seu tempo, ou por suas influências que tiveram lugar
de destaque na História, povoando o imaginário coletivo
com representações e invocações, nas
promessas e nos altares.
Rafael Brondani dos Santos é Historiador. Mestre
em História Social na UFF, dissertou sobre Militarização
e Politização de Santo Antônio no Brasil Colonial.
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