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ARTE
SACRA E
ICONOGRAFIA CRISTÃ
O Vaticano II e a Constituição de Liturgia
Dom Clemente Isnard OSB
Em 1960, quando foi anunciado que haveria um Concílio Ecumênico,
gerou-se uma grande surpresa e também uma expectativa. Depois
da interrupção do Vaticano I, muitos não esperavam
que houvesse outro Concílio Ecumênico. Só mesmo
o carisma de João XXIII poderia movimentar a complicada máquina
pontifícia para que se realizasse outro Concílio Ecumênico.
Os preparativos haviam começado em 1959, e eu nomeado Bispo,
em 1960, não tomei parte na fase preparatória. Sabia,
por ouvir dizer, que o Concílio, entre outras coisas, trataria
de Liturgia, o que me interessava muito. Mas toda a preparação
do Concílio se fazia num clima de segredo pontifício
que não deixava vazar nenhum conhecimento. Afinal, chegou
de Roma, para cada Bispo convocado, um fascículo contendo
um certo número de "esquemas" (assim se chamavam
os projetos). Nesse fascículo constava o esquema de Liturgia.
Procurei lê-lo, mas especialmente o de Liturgia, que me interessava.
Tive, então, a surpresa de ler que certas coisas de Liturgia,
de outros séculos, como concelebração, comunhão
sob duas espécies, seriam restauradas. O esquema de Liturgia
me encantou e despertou entusiasmo para participar do Concílio.
Eu não tinha idéia de quando esses assuntos seriam
tratados. O início do Concílio foi tempestuoso. O
Cardeal Liènart fez uma proposta que irritou parte da maioria
conservadora: interromper as reuniões do Concílio
por dos ou três dias para os bispos poderem conversar sobre
a eleição das Comissões. Na época, eu
não via a utilidade disso, porque não tinha idéia
da importância das Comissões que seriam eleitas.
Tínhamos recebido uma lista de nomes dos membros das Comissões
preparatórias, e a tendência dos bispos novos era de
votar naqueles nomes, o que seria um desastre.
Logo apareceram pequenas folhas mimeografadas com nomes para as
Comissões, e eu que já estava percebendo, ainda que
vagamente, as tendências dos vários episcopados, fiz
minha chapa escolhendo nomes do Norte da Europa e deixando fora,
quanto possível, Itália e Espanha. O que eu fiz, fizeram
também outros, e as Comissões eleitas trabalharam
numa linha progressista. Havia conservadores em todas as Comissões,
pois parte delas era nomeada pelo Papa, mas havia também
figuras novas com idéias novas. Era o Concílio que
estava dando os primeiros passos.
Surpresa maior foi quando soubemos que os trabalhos do Concílio
iriam começar pelo esquema de Liturgia. Os bispos que estavam
na direção do Concílio haviam achado que esse
esquema era o melhor, e que valia a pena começar o trabalho
por ele.
Um dos problemas que devia ser encarado pela Constituição
era o da definição da Liturgia, pois, não havia
unanimidade em torno disso. Era preciso que a Constituição
definisse claramente os dois aspectos fundamentais da Liturgia,
Culto e Santificação, e que ressalvasse a legitimidade
da devoção popular. Numa palavra, dizer que a Liturgia
não é tudo, mas é cume para onde converge toda
a ação da Igreja e a fonte de onde brota toda a sua
força. Movimento descendente e ascendente.
O primeiro capítulo de princípios gerais foi de grande
importância para o restante da Constituição.
A obra da salvação realizada por Cristo e continuada
pela Igreja. A Liturgia é obra de salvação.
E a Liturgia é instrumento de salvação. Esse
primeiro capítulo trata de pontos importantes e discutidos
na Liturgia: presença de Cristo na Liturgia terrena e celeste,
a Liturgia não é a única atividade da Igreja,
necessidade das disposições pessoais, Liturgia e exercícios
piedosos, a reforma da Liturgia.
O nº 36 da SC trata da língua litúrgica. É
sabido que o uso obrigatório do latim no rito romano sufocava
a espontaneidade do uso da língua vulgar. Pouco depois do
Concílio houve uma explosão de concessões de
uso de língua vulgar, não só para as grandes
línguas, mas também para línguas africanas
e asiáticas e outras. A nós do Brasil interessava
poder usar o português.
A concessão veio por etapas: primeiro as leituras e monições,
em algumas orações e cantos, e logo depois em tudo.
Foi uma evolução rápida. Eu me lembro que falando
sobre esse assunto em uma conferência eu disse que chegaríamos
a ter toda a Missa sem uma palavra de latim (ficaram apenas palavras
gregas e hebraicas).
Durante o Concílio, o Patriarca Maximos IV, que sabia perfeitamente
o latim, só falava em francês, como meio de pressão
para acelerar a aprovação da língua vulgar.
É desse Patriarca a célebre frase: "le latin
est mort, l'Église est vivante" - O latim está
morto mas a Igreja está viva. Evidentemente alguns Cardeais
conservadores levantaram a voz em defesa do latim: Ottaviani, Bacci,
Rufini, mas nada conseguiram; só retardar um pouco o uso
da língua vulgar.
A quetão da língua era uma reivindicação
anterior a reunião do Concílio. Mas não era
a única. Também se desejava uma certa liberdade, sem
impor uma rígida uniformidade nos pontos que não afetavam
a fé e ao bem da Igreja. Isso foi garantido no nº 37,
onde se diz que a Igreja respeita e promove o gênio e as qualidades
peculiares das diversas raças e povos. Estudo com simpatia,
e se pode, conserva integralmente o que encontra nos costumes dos
povos e que não esteja vinculados a superstições
e erros.
O Concílio se preocupa com a unidade substancial do rito
romano, mas admite variações e adaptações.
Essas adaptações serão propostas à Sé
Apostólica para serem introduzidas com seu consentimento.
Como estamos longe da fixidez das normas, que não admitiam
variação! E logo depois encontramos o nº 40 que
fala das célebres experiências litúrgicas, que
levantaram tanta celeuma, e que tiveram seu tempo de reconhecimento
com Monsenhor Bugnini, e depois foram proibidas.
O que vale é que o direito de promover adaptações
profundas é reconhecido no texto da Constituição.
É claro que é preciso usar de cautela, mas as experiências
que foram feitas com sabedoria deram bons resultados. Todo o trabalho
de reforma da Liturgia, inclusive, com experiências de adaptação
deve ser considerado como "passagem do Espírito Santo
pela sua Igreja" (nº 43).
É texto conciliar que não pode ser desmentido por
declarações de Cardeais ou do próprio Papa.
A reforma da Liturgia foi uma graça especial do Espírito
Santo. E os que se opõem a Reforma Litúrgica, como
elementos conservadores da Cúria Romana ou de numerosas Dioceses,
estão se opondo a ação do Espírito Santo.
Estávamos habituados às Missas em que o celebrante
dizia tudo e o povo "assistia". Isso praticamente não
existe mais.
O povo sempre pode responder e dialogar com o celebrante. O que
existe é que em alguns lugares o povo não assume ou
o padre não dá lugar ao povo. Mas parece que é
uma questão de tempo para que se estabeleça em toda
parte a participação ativa e consciente na Missa,
apesar da resistência passiva de alguns grupos.
Algumas Missas tinham antigamente sermões, para os quais
eram convidados pregadores de renome. O Concílio diz que
se recomenda encarecidamente a homilia como parte integrante da
própria Liturgia. Não se trata dos antigos sermões,
mas da exposição dos mistérios da fé
a partir dos textos litúrgicos. Toda Missa, com a participação
razoável de um grupo, deve ter a homilia. A homilia pode
ser uma conversa com o povo, inclusive com perguntas e respostas
deste.
Em Recife conheci um padre que fazia sucesso na sua paróquia
com sua homilia participada. E então não se fica pensando
no tempo que dura, pois o povo estando interessado não sente
passar o tempo. E o povo vai sendo formado na fé, de maneira
mais suave do que ouvindo dissertações teóricas.
A participação na Missa inclui a atenção,
as respostas, o canto, as posições, mas sobretudo
a comunhão. Essa é a participação mais
perfeita. Eu me lembro das Missas de 11h30 min, nos domingos, na
minha paróquia de São João Batista, no Rio
de Janeiro, em que ninguém comungava, fora o padre. A lei
do jejum eucarístico vigente na época dificultava
a comunhão em horas tardias. A Igreja cheia, repleta, e ninguém
comungava. E ninguém tomava consciência de que isso
era uma anomalia, pois a Missa é um banquete, uma repetição
da última Ceia, e não se admite estar presente em
um banquete sem comer nada.
É claro que não se pode comungar sem mais nem menos
e que se precisa de uma disposição, o que chamamos
de estado de graça (estar unido a Cristo pela virtude da
caridade). No primeiro milênio todos comungavam, ou então
não iam à Missa (os ex-comungados). Houve depois uma
queda da vida cristã e se estabeleceu uma mentalidade escrupulosa
que exigia para cada comunhão uma confissão prévia.
Esse efeito do Concílio ainda está longe de ser atingido,
embora em algumas Missas com participação muito numerosa
o número de comunhões seja elevado, como vi, recentemente,
em Duque de Caxias, na catedral. Quem não comunga está
em estado de pecado mortal ou não? Então por quê
não comunga? E como um cristão pode viver habitualmente
em estado de pecado mortal? Se morrer, de repente?
Muita coisa se faz, mas há ainda muita coisa que fazer. O
sacramento do Batismo, por exemplo. Por que não é
administrado por imersão aos adultos ou imersão parcial
às crianças? É o que se faz na catedral de
Duque de Caxias e na Paróquia de Santa Cruz da mesma Diocese.
É preciso aparecer um bispo inteligente e ousado como Dom
Mauro Morelli para introduzir isso na Diocese. É permitido.
Por que não se faz? Por que se prefere derramar parcimoniosamente
algumas gotas d'água na cabeça da criança?
E assim com os outros sacramentos e sacramentais.
O Concílio abriu inúmeras pistas que os conservadores
da Cúria Romana e de outras Dioceses querem fechar. Mas não
devemos permitir que isso aconteça, pois eles não
detêm a autoridade de um Concílio.
A obrigação de rezar o Ofício Divino, alimento
preciosíssimo da vida espiritual, é facilmente deixada
de lado. O que é mais importante, o Ofício Divino
ou o Terço? O Papa insiste tanto no Terço, mas não
faz o mesmo com o Ofício Divino. Ora, não há
comparação entre uma coisa e outra, o Ofício
é muito superior. Hoje se multiplicam devoções.
Os carismáticos inventam coroas e outras formas de oração
enquanto a oração oficial da Igreja é conhecida
por tão pouca gente!. Estamos perdendo um tempo precioso
com certas devoções e deixando de valorizar o Ofício
das Comunidades. Muita cousa teria ainda para dizer.
(Palestra proferida, no dia 13 de outubro de 2003, durante a
17a. Semana de Liturgia, realizada em São Paulo, no Centro
Pastoral Santa Fé)
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