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       São Paulo, 20/11/2008, 10:13          
 



   
Imagem de Nossa Senhora nas Catacumbas de Roma

ARTE SACRA E
    ICONOGRAFIA CRISTÃ


Os Discursos do Papa sobre as Catacumbas

1- O Papa João Paulo II sobre o significado histórico e espiritual das Catacumbas

Em 7 de junho de 1996 o Santo Padre recebeu em audiência os membros e dependentes da Pontifícia Comissão de Arqueologia Sacra, com os Diretores de cinco catacumbas de Roma dirigindo-lhes o presente discurso, no qual realçou "o significado histórico e espiritual das Catacumbas, como lugar privilegiado de oração e de peregrinação e como meta irrenunciável para os Peregrinos do Ano Santo".

"Ilustres Senhores e Senhoras, caríssimos Irmãos e Irmãs!

1. Dirijo a minha cordial saudação a vós todos, responsáveis, membros e dependentes da Pontifícia Comissão de Arqueologia Sacra que, com os diretores das cinco catacumbas abertas em Roma, quisestes hoje visitar-me .
Agradeço ao Arcebispo, Dom Francesco Marchisano, Presidente da Pontifícia Comissão para os Bens Culturais da Igreja e também da Pontifícia Comissão de Arqueologia Sacra, pelas palavras que há pouco me dirigiu, também em vosso nome. Exprimo reconhecimento a todos vós pelo trabalho que realizais com dedicação, conscientes do alto significado histórico e espiritual que revestem os monumentos dos quais cuidais.
Congratulo-me convosco pelo trabalho que a Pontifícia Comissão, de que fazeis parte, desenvolve em vigiar, sistematizar e estudar as catacumbas cristãs da bacia do Mediterrâneo. O seu empenho mais conspícuo relaciona-se à Itália, e de modo especial a Roma e arredores. Baste pensar, para tomar consciência da vossa meritória atividade, às cinco catacumbas romanas de São Calisto, São Sebastião, Santa Domitila, Santa Priscila, Santa Inês, atualmente abertas ao público, e significativa meta de tantos peregrinos que chegam à Cidade eterna.

2. Visitando esses monumentos, entra-se em contato com sugestivas marcas do Cristianismo dos primeiros séculos e pode-se, por assim dizer, tocar com as mãos, a fé que animava aquelas antigas Comunidades cristãs. Percorrendo as galerias das catacumbas, descobrem-se não poucos sinais da iconografia da fé: o peixe, símbolo de Cristo; a âncora, imagem da esperança; a pomba, representação da alma crente e, junto aos nomes nas sepulturas, o freqüentíssimo augúrio "In Cristo". Constituem outros tantos testemunhos do fervor espiritual que animava as primeiras gerações cristãs. Aproximando-se daquele mundo, os cristãos de hoje possam tirar encorajamentos úteis para suas vidas e para um mais incisivo empenho na nova evangelização.
Como não comover-se diante de vestígios humildes, mas tão eloqüentes, dessas primeiras testemunhas da fé? Como não ficar edificados, por exemplo, diante da sepultura da jovem Inês na via Nomentana ou da do diácono Lourenço nas catacumbas do Verano?
Desde o início do Cristianismo, os meus predecessores amaram as catacumbas. O papa Zeferino, por primeiro, quis criar uma delas na via Appia para a Comunidade de Roma, confiando o seu cuidado ao diácono Calisto, que, eleito Papa, legou o seu nome àquele que se tornou o maior complexo catacumbal romano.
O papa São Dâmaso, durante o seu pontificado, procurou as sepulturas dos mártires para decorá-las, e compôs para elas esplêndidos epitáfios métricos que exaltavam as gestas daquelas audaciosas testemunhas do Evangelho. Mesmo quando depois das invasões bárbaras, as catacumbas conheceram uma espécie de abandono forçado, algumas delas permaneceram meta ininterrupta de peregrinações. As áreas, onde conservam-se as sepulturas dos mártires, tornaram-se, durante os séculos da alta idade média, lugares de devoção para os peregrinos vindos da Itália, da Europa, e da bacia do Mediterrâneo.

3. A nova descoberta das catacumbas, como objeto de estudo e de reflexão espiritual, aconteceu porém a partir do final de 1500, quando um grupo de eruditos formou um ativo círculo cultural ao redor da grande personalidade de São Felipe Neri. O "Cristóvão Colombo das catacumbas romanas" - como é definido - foi o arqueólogo maltês Antonio Bosio, que individualizou bem trinta dos sessenta cemitérios cristãos da Urbe.
Desde então, o interesse pelas catacumbas jamais deixou de existir e tocou o seu vértice pela metade século passado, quando, pelo feliz encontro de duas grandes personalidades, o Pontífice Pio IX e o arqueólogo Giovanni Battista de Rossi, nasceram a Arqueologia Cristã, como disciplina histórica e científica, e a Comissão de Arqueologia Sacra, instituída em 6 de janeiro de 1852 para uma mais eficaz tutela e vigilância dos cemitérios e dos antigos edifícios cristãos de Roma e do subúrbio, e para uma sistemática escavação e exploração dos mesmos cemitérios.
Os resultados vieram confortar os generosos esforços. O Papa Pio IX, impressionado pelas importantes descobertas efetuadas pelo de Rossi naqueles anos no complexo de São Calisto - onde fora descoberto o cubículo que acolhia as sepulturas de muitos Pontífices do III século -, quis visitar pessoalmente as escavações e, detendo-se em oração diante daquelas santas sepulturas, comoveu-se até às lágrimas.
Foi o Papa Pio XI quem definiu com um "Motu Proprio" de 1925, as competências da Pontifícia Comissão de Arqueologia Sacra, cuja ação relativamente às catacumbas foi depois precisada com normas oportunamente concordadas com a autoridade italiana (cf. ASS, Inter Sanctam Sedem et Italian Conventiones 18 feb, 15 nov, 1984, Cidade do Vaticano, 1985, art. 12,2).

4. Os olhos dirigem-se agora para o histórico encontro do Grande Jubileu, durante o qual as catacumbas de Roma elevar-se-ão a lugares privilegiados de oração e peregrinação. Percorrendo as galerias desses lugares sagrados, os visitantes poderão perceber a atmosfera das primeiras conversões ao Evangelho; poderão deter-se em recolhimento diante das sepulturas das primeiras testemunhas de Cristo e da sua mensagem de salvação.
Para que isso se realize plenamente, já iniciastes a trabalhar em colaboração com outras instituições como a Prefeitura de Roma e a Superintendência Arqueológica, em perfeita sintonia com os projetos e atividades do Comitê Central para o Grande Jubileu de 2000.
Juntamente com as grandes basílicas romanas, as catacumbas deverão representar uma meta irrenunciável para os peregrinos do Ano Santo. Sou grato à Comissão de Arqueologia Sacra que está se empenhando ativamente. Em particular ela está fazendo o possível para tornar acessíveis novas catacumbas e outros monumentos.
Colho de boa vontade a ocasião para manifestar um vivo apreço aos responsáveis e aos membros da Pontifícia Comissão de Arqueologia Sacra, como também aos Diretores das catacumbas de Roma, com um pensamento especial aos dependentes, os "fossários", que com perícia e dedicação desenvolvem o seu delicado trabalho. A todos vai a expressão do meu vivo reconhecimento. Obrigado pelos vossos esforços e pela qualificada contribuição que, com a vossa atividade, ofereceis à evangelização.
Confio-vos e o vosso trabalho à materna proteção de Maria, Regina dos Mártires, enquanto concedo de coração a cada um de vós e às vossas famílias, uma especial Bênção Apostólica".

L'OSSERVATORE ROMANO, 7-8 de junho de 1996, p. 6.

2- O Papa recebe em audiência a Pontificia Comissão de Arquelogia Sacra
O PEREGRINO DO ANO 2000 PODE REENCONTRAR NAS CATACUMBAS A PRÓPRIA IDENTIDADE RELIGIOSA

Caríssimos Irmãos e Irmãs!

1-Tenho a alegria de me ericontrar convosco, por ocasião da reunião plenária da Pontifícia Comissão de Arqueologia Sacra.
Saúdò cordialmente cada um de vós e agradeço, em particular, a D. Francesco Marchisano as palavras com que se fez íntérprete dos vossos sentimentos e apresentou o importante objecto dos vossos trabalhos: as catacumbas crìstãs e o Ano Santo.
Desejo, antes de tudo, exprimir apreço e reconhecimento pelo importante serviço que estais a prestar e que, em vista do Jubileu, se tornou ainda mais intenso. Refiro-me tanto às descobertas arqueológicas como às restaurações, assim como às iniciativas que têm directamente por fim o Ano Santo. Como várias vezes foi sublinhado, as catacumbas revestem um grande relevo em relação ao Jubileu do Ano 2000.

2. Já estais há alguns anos empenhados em restaurar e preparar numerosas catacumbas cristãs espalhadas no território italiano. Os trabalhos foram realizados de maneira especial nas catacumbas de Roma abertas ao público, isto é, as de São Calisto, São Sebastião, Domitila, Priscila e Santa Inês, onde foram feitas ou estão a ser efectuadas in-tervenções que facilitarão o fluxo dos peregrinos. Além disso, para aumentar o potencial dos cemitérios visitáveis, estão a ser levadas a cabo as medidas para abrir uma sexta catacumba, a dos Santos Pedro e Marcelino na Via Casilina.
A vossa atenção dirige-se oportunamente à valorização pastoral destes insignes monumentos da antiguidade cristã. Para isto estão a ser preparadas, de maneira adequada, os guias dos peregrinos. Com efeito, as visitas acompanhadas de explicações apropriadas, pontuais e actualizadas no plano didáctico, científico e espiritual, tornam-se também um eficacíssimo momento de catequese, capaz de suscitar profunda reflexão sobre a mensagem evangélica. Este retorno às origens, por meio dos mais antigos cemitérios idealizados pelos primeiros cristãos, enquadra-se perfeitamente no projecto da "nova evangelização", que vê empenhada a Igreja inteira no caminho rumo ao terceiro milénio.

3. As catacumbas, enquanto apresentam o rosto eloquente da vida cristã dos primeiros séculos, constituem uma perene escola de fé, de esperança e de caridade.
Percorrendo as galerias respira-se uma atmosfera sugestiva e comovente. O olhar detém-se na série inumerável de sepulturas e na simplicidade que as acomunam. Nos túmulos lê-se o nome de baptismo dos defuntos. Percorrendo esses nomes, parece ouvir outras tantas vozes que respondem a um apelo escatológico, e voltam à mente as palavras de Latâncio: "Entre nós não há servos, nem senhores, não existe outro motivo para nos chamarmos irmãos, senão porque nos consideramos todos iguais" (Divinae Instit., 5, 15).As catacumbas falam da solidariedade que unia os irmãos na fé: as ofertas de cada um permitiam a sepultura de todos os defuntos, mesmo daqueles mais indigentes, que não podiam fazer despesas para a aquisição e instalação do túmulo. Esta caridade colectiva representou um dos pontos de força das comunidades cristãs dos primeiros séculos e uma defesa contra a tentação de retornar às antigas formas religiosas.

4. Portanto, as catacumbas sugerem ao peregrino este sentimento de solidariedade conexo, de modo indissolúvel, com a fé e a esperança. A própria definição de coemeteria, "dormitórios", diz que as catacumbas eram consideradas verdadeiros e próprios lugares de repouso comunitários, onde todos os irmãos cristãos, independentemente do seu grau e da sua profissão, repousavam num abraço largo e solidário, esperando a ressurreição final. Por este motivo não eram lugares tristes, mas decorados com afrescos, mosaicos e esculturas, como que a alegrar os meandros escuros e antecipar, com as imagens de flores, pássaros e árvores, a visão do paraíso esperado no fim dos tempos. A significativa fórmula "in pace", que se repete nos sepulcros dos cristãos, bem sintetiza a sua esperança. Os símbolos nas lápides de cobertura dos túmulos são tão simples, quanto repletas de significado. A âncora, a nave e o peixe exprimem a firmeza da fé em Cristo. A vida do cristão é vista como uma navegação através de um mar agitado até ao porto suspirado da eternidade. O peixe ídentifica-se com Cristo e alude ao sacramento do Baptismo, segundo quanto recorda Tertuliano, que compara os fiéis aos peixinhos, que adquirem a salvação nascendo e permanecendo na água (De baptismo, 1, 3).

5. As catacumbas conservam, entre outras coisas, os túmulos dos primeiros mártires, testemunhas de uma fé límpida e muito sólida, que os levou, como "atletas de Deus", a vencer a prova suprema. Muitos sepulcros dos mártires ainda são conservados no interior das catacumbas e gerações de fiéis detiveram-se em oração diante deles. Também os peregrinos do Jubileu do Ano 2000 irão aos túmulos dos mártires e, elevando as orações aos antigos defensores da fé, hão-de voltar o seu pensamento para os "novos mártires", para os cristãos que, no passado não muito distante e também nos nossos dias, são submetidos a violências, injustiças, incompreensões porque querem permanecer fiéis a Cristo e ao seu Evangelho. No silêncio das catacumbas, o peregrino do Ano 2000 pode reencontrar ou reavivar a própria identidade religiosa numa espécie de itinerário espiritual que, iniciando com os primeiros testemunhos da fé, o leva até às razões e às exigências da nova evangelização.
Caríssimos, a consciência destes valores há pouco acenados, mas que bem conheceis, vos sustente no vosso característico serviço eclesial e cultural. Para isto, enquanto invoco sobre vós a solícita assistência de Maria Santíssima, a todos concedo de coração uma especial Bênção Apostólica, que faço extensiva também às pessoas que vos são queridas.
(L'Osservatore Romano).

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