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       São Paulo, 06/01/2009, 11:15          
 



   
Altar-mor da Igreja de Paris, de Francisco Rizi

ARTE SACRA E
    ICONOGRAFIA CRISTÃ


O ESPAÇO SAGRADO - DO MODERNISMO AOS NOSSOS DIAS

Por Ir. Laide Sonda, especial para o site "Franciscanos"

1- O Premissas

Pio X - Tra le Solecitudini - 22 de Novembro de 1903.
É nosso vivo desejo que o verdadeiro espírito cristão floresça e se mantenha vivo em todos os fiéis, por isso deve-se antes de qualquer coisa buscar a santidade e a dignidade do templo, onde os fiéis se reúnem para ouvir da fonte indispensável que é a participação ativa aos sacrossantos mistérios e a oração pública e solene da Igreja.

Já neste documento se fala de participação ativa, de comunhão. O desejo do Papa Pio X era libertar a liturgia dos excessos acumulados desde o século XVII, aproximando-a dos modelos da Igreja primitiva.
Entre os documentos existe a Constituição Apostólica Divini Cultus, promulgada por Pio XI em 30 de Dezembro de 1928 - 25 anos após o Motu Próprio de Pio X, que retoma o tema da participação ativa - o papa diz: "Os fiéis não assistem a ritos litúrgicos como estranhos e espectadores mas, tomados pela beleza da liturgia, dela participam ativamente."

Além destes documentos precisamos lembrar que o renascimento da Arquitetura Religiosa se deve à Conferência de Malines, na Bélgica, em 1909, quando o beneditino Lamberto Beauduin apresentou algumas propostas consideradas revolucionárias.
Ele afirmava que a única maneira de fazer a Igreja voltar às verdadeiras fontes da renovação espiritual estava em reafirmar as verdades meio esquecidas de que a liturgia, isto é, o culto, é, em si, a grande escola da vivência e da espiritualidade cristãs, e que viver no espírito da Liturgia é participar da própria vida do Cristo em seu corpo, a Igreja. Esta conferência deu início ao movimento litúrgico belga que depois se difundiria por outros países.

A abadia alemã de Maria Laach também inspirou muitos arquitetos e foi um celeiro de estudos litúrgicos. Organizou vários Congressos Internacionais - 1951 em Maria Laach; 1952 em Odilienburg; 1953 em Lugano; 1956 em Assis.

Na conclusão do Congresso de Assis, Pio XII declarou formalmente aos congressistas que participaram da sua audiência: "A retomada, ou renascimento da liturgia é um sinal providencial de Deus no nosso tempo. É como a passagem do Espírito Santo na sua Igreja, para atrair sempre mais as pessoas aos mistérios da fé, às riquezas da graça divina, que emanam abundantemente da participação ativa dos fiéis à vida litúrgica."
O critério inspirador do espaço litúrgico é a eclesiologia de comunhão.

A Encíclica Mystici Corporis promulgada Pio XII em 1943 coloca as premissas para o aprofundamento teológico da Encíclica Mediator Dei do dia 20 de Novembro de 1947, saudada como a Carta Magna do Movimento Litúrgico.

A liturgia, diz Pio XII, é o culto integral do corpo místico de Cristo, isto é, do corpo e de seus membros. Desta definição brotam as premissas para a idealização dos espaços de celebração. Se determina claramente a função do altar como centro do espaço Sagrado e gerador de toda a estrutura do templo. Ao redor deste centro focal se dispõe os outros elementos necessários à celebração, e se articulam as relações entre presbitério e nave. Na Itália aconteceu também o Congresso Nacional de Arquitetura Sacra em Bologna, de 23 a 25 de Setembro de 1955. Fez-se na ocasião uma resenha das produções dos últimos 10 anos e o Cardeal Lercaro falou sobre a "Igreja, casa do Senhor e da assembléia eucarística", convidou os artistas para se expressarem com a linguagem da atualidade.
Nasceu na Itália uma revista "Chiesa e Quartiere", na França já havia "Maison Dieu" desde 1944, fundada pelo Pe. Gy.

Logo em seguida, 25 de Janeiro de 1959, o Papa João XXIII anuncia o Concílio Ecumênico Vaticano II. No dia 26 de Julho de 1960, na promulgação das rúbricas, normas do Ofício Divino e da Celebração Eucarística, o Papa dizia: "A participação ativa está implícita na própria natureza da liturgia" e pedia para que a comissão preparatória do Concílio fixasse os princípios da reforma.
Na constituição Sacrossanctum Concilium, promulgada por Paulo VI no dia 4 de Dezembro de 1963 se retoma o que já havia dito Pio X em 1903: "A Mãe Igreja deseja que todos os fiéis sejam levados àquela plena cônscia e ativa participação das celebrações litúrgicas, que a própria natureza da liturgia exige e a qual, por força do batismo, o povo cristão, "geração escolhida, sacerdócio régio, gente santa, povo de conquista"(1Ped. 2,9; conf. 2, 4-5), tem direito e obrigação. Cumpre que essa participação plena e ativa de todo o povo seja diligentemente considerada na reforma e no incremento da Sagrada Liturgia. Pois é a primeira e necessária fonte, da qual os fiéis haurem o espírito verdadeiramente cristão." (SC 14)

A SC tem o Capítulo VII, dedicado à arte sacra e às alfaias. Um capítulo que, de certa forma, movimentou a Igreja também no Brasil. Em 1968, no Rio de Janeiro, os monges beneditinos, Monsenhor Shubert e vários arquitetos se reuniram para refletir e organizar a Comissão Nacional de Arte Sacra.
Este breve panorama nos traz o pano de fundo de toda a atividade arquitetônica que se desenvolveu a partir de 1920.

O projeto de igrejas deveria ser estudado e visto de uma forma nova, não mais a partir de estilos, mas do seu lado prático: ser o abrigo da comunidade, da assembléia dos fiéis. A planta da Igreja depende das ações que nela se desenvolvem, dos equipamentos que compõem o espaço. O aspecto simbólico não está na abundância da decoração, mas deve transparecer por si próprio.

A preocupação com o simbolismo cristão tradicional é superada, dando lugar a funcionalidade.
Durante a 1ª guerra mundial quase não se construiram igrejas. Em 1923 temos a construção da Igreja de Notre-Dame du Raincy, projetada por August Perret. É a primeira Igreja construída em concreto armado. É um exemplo de construção despida de ornamentos superficiais e detalhes inúteis. Segue em planta o modelo basilical, mas o altar está mais próximo da assembléia. As colunas, muito esbeltas, sustentam um teto meio abobadado e, nas paredes, os painéis de concreto formam um desenho alegre. A racionalidade começa a emergir.

O programa é claro e o sistema estrutural lógico. Assim acontece com a Igreja de Santo Antonio na Basiléia, projeto do arquiteto Karl Moser. O vidro, o aço e o concreto entram em cheio mesmo mantendo a forma basilical tradicional.

A renovação da arquitetura religiosa concentrou-se principalmente na Alemanha, onde, em 1922, se formou um grupo para estudar os princípios básicos do moderno planejamento de igrejas. Seus membros estavam em estreito contato com os teólogos beneditinos em Maria Laach, e tinham interesse principalmente na função essencial de "igreja domiciliar", como a compreendiam os cristãos primitivos, e em saber como incorporá-la a arquitetura de sua própria época. Seu líder mais importante foi Rudolf Schwarz, cuja atitude em relação à construção de igrejas foi sintetizada em dois princípios expressos em toda a sua obra:

partir de uma realidade baseada na fé, e não de uma realidade fundada na arte, sendo essa verdade ou realidade tal que crie uma comunidade e uma realização artística.

Ser honesto na linguagem artística, não dizendo nada mais do que podemos dizer em nossa época, e nada que não possa ser compreendido pelos nossos contemporâneos. Se o que temos a dizer não é muito, comparado com a Idade Média e com a Antigüidade, ainda assim será melhor permanecer dentro da nossa esfera e renunciar a toda sorte de teorias místicas que não serão visualizadas ou sentidas por ninguém.

Em 1930, a Igreja de Corpus Christi, em Aquisgrana, projetada por Schwarz, foi consagrada e jamais se projetara um templo tão simples: apenas um salão retangular, sem colunas que o obstruíssem, com espaço para a comunidade dos fiéis e o altar. Não há decoração nem coisa alguma que distraia o olhar.
Além de Schwarz, outros arquitetos alemães, como Dominikus Böhm, Emil Steffan, Gottfried Böhm experimentaram novas tipologias, novos materiais e métodos construtivos. Nestas igrejas a novidade em relação ao passado está na disposição da assembléia. Os fiéis estão mais próximos do altar e em alguns casos o circundam, de forma que todos se sintam mais participantes.

"O coro e suas barreiras, mesas de comunhão, tendem a desaparecer; o altar foi colocado no centro da igreja ou numa posição avançada, enquanto que as formas pomposas e triunfalistas dos altares pré-conciliares e dos seus adornos deram lugar a um novo espírito de simplicidade que procura ir ao encontro das raízes mais autênticas da fé. A popularidade da "colegialidade" entre clérigos e leigos para a compreensão e a celebração da fé exprime-se em edifícios de planta aberta.

A cidadela do passado deu lugar à cidade de Deus e dos homens: a "urbe nova e admirável" em que todos devem encontrar o seu lugar." (José Antônio Falcão in: Seminarium aprili, septembri/ 1999, pág. 370)
Sem dúvida o que mais se nota na construção de Igrejas no pós-guerra, tanto na Europa como na América - e nos outros continentes - é a extraordinária diversidade de plantas. Às vezes tem-se a impressão de que o arquiteto se esqueceu que o princípio básico de toda planta de igreja é que esta deve ser moldada pelo culto, e não o culto pela arquitetura.

Como aconteceu no gótico, se pensa no efeito do edifício em si mais que na comunidade e nas suas necessidades. Existem experiências com plantas circulares, elípticas em formato de peixe, quadradas, trapezoidais, octagonais, hexagonais, etc. O fator técnico propiciou esta proliferação de formas, pois não existe mais o problema de cobertura, dos pilares de sustentação da mesma, a planta se tornou mais livre.
A grande sensação de liberdade em relação a forma é evidente em duas igrejas, São Francisco da Pampulha, obra de Oscar Niemeyer (1943-46) e Notre Dame, em Ronchamp (1950-55), de Le Corbusier.

São concepções novas que, além de técnica, incorporam uma espiritualidade que transparece na própria forma, na luz, nos detalhes.
Outra obras igualmente interessantes foram confiadas aos grandes arquitetos do Movimento Moderno:
" Capela do Instituto Tecnológico de Illinois - do arquiteto Mies Van der Rohe (1952). Este projeto foi comentado pela revista L'architecture d'aujourd'hui - 79 com estes termos: "uma construção de uma certa dureza... mas de uma pureza... de uma simplicidade que gera um sentimento de grandeza insuperável."

" Capela Nossa Senhora do Rosário de Vence - do artista Henri Matisse. Ao terminar a obra ele mesmo sentencia: "quando me recolho nesta capela, sinto-me bem... tenho impressão que Deus perdoa meus pecados"; e ainda: "se eu fosse arquiteto faria uma arte simples, verdadeira e pura."

As várias Igrejas de Frank Lloyd Wright, de Louis Kahn, de Philip Johnson, de Alvar Aalto, Fritz Wotruba, Pier Luigi Nervi, Kenzo Tange, Giovanni Michelucci, Mario Botta, Tadao Ando, Legoretta, Lina Bo Bardi, Paulo Mendes da Rocha, Franz Heep, Hans Bros, Éolo Maia, Segnini, Afonso Risi, etc. têm uma coerência arquitetônica e uma lógica que invade o espaço interno e a composição como um todo.

Estes exemplos podem não ser os melhores do ponto de vista litúrgico, mas o espaço é belo, harmônico, transmite ordem e paz.

Existe porém, aqui no Brasil, um outro fenômeno: o afastamento da Igreja dos profissionais, dos artistas, e vice-versa. As Comissões diocesanas de Arte Sacra nem se quer foram implementadas na maioria das dioceses. A Igreja enfrenta uma realidade social gritante e busca atender as necessidades imediatas das comunidades que surgem nas periferias das grandes cidades. A população urbana aumenta significativamente nos anos 70 e a demanda de espaços é muito grande.

Em geral o povo se organiza e constrói salas multi-uso. As "igrejas" deixam de ser espaços exclusivos para a celebração e tornam-se locais de reunião. Na "igreja" acontece de tudo: reunião das associações de bairro, festas, shows, comícios, cultos, etc. De certa forma, se oficializa um espaço que deveria ser de transição, entre a formação da comunidade Igreja e o seu estabelecimento. A falta de profissionais idôneos também contribui para que o salão não assuma nenhuma característica sacra.

O espaço da comunidade sofre também com relação ao sítio. Qualquer terreno, o que sobrou no loteamento e que oferece as piores condições para a edificação.
Esta realidade nos serviu. É fruto das circunstâncias e da história. Hoje amadurecemos na consciência de que o espaço também contribui na experiência que o Cristão faz do mistério. A luz, a cor, os materiais, o templo, são um sinal que remete ao divino. É necessário harmonizar funcionalidade e simbolismo, funcionalidade e beleza.

Por isso liturgistas e artistas devem trabalhar juntos. Mais do que nunca também na Igreja devemos acolher a multidisciplinaridade. O presbítero não é arquiteto, não é engenheiro, deve ser um bom teólogo e bom liturgo.
Faz-se necessária uma fusão da escultura, e da pintura, com a arquitetura, para criar uma unidade plástico-construtiva, sempre guiadas pelos princípios da teologia e da liturgia.

É urgente investir na qualificação dos profissionais, dos artistas, dos arquitetos, dos engenheiros, dos seminaristas e presbíteros.

Nas reformas, construções e adaptações precisamos lembrar que o templo não é um edifício qualquer. Le Corbusier escrevia: "A Igreja é o espaço pelo qual uma realidade espiritual encontra a sua medida nos laços orgânicos entre as necessidades materiais da arte e os lugares de dilatação da alma e do corpo no divino".

O templo deve falar do divino, e as formas artísticas devem colaborar para que isso transpareça. A evocação estética deve transformar-se em atitude religiosa. O espaço sagrado é aquele no qual o Deus escondido se manifesta na matéria transfigurada pelo culto.

Texto cedido para publicação pela Irmã Laíde Sonda, da Dimensão Litúrgica da CNBB

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