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ARTE
SACRA E
ICONOGRAFIA CRISTÃ
O ESPAÇO SAGRADO - DO MODERNISMO AOS NOSSOS DIAS
Por Ir. Laide Sonda, especial para o site "Franciscanos"
1- O Premissas
Pio X - Tra le Solecitudini - 22 de Novembro de 1903.
É nosso vivo desejo que o verdadeiro espírito cristão
floresça e se mantenha vivo em todos os fiéis, por
isso deve-se antes de qualquer coisa buscar a santidade e a dignidade
do templo, onde os fiéis se reúnem para ouvir da fonte
indispensável que é a participação ativa
aos sacrossantos mistérios e a oração pública
e solene da Igreja.
Já neste documento se fala de participação
ativa, de comunhão. O desejo do Papa Pio X era libertar a
liturgia dos excessos acumulados desde o século XVII, aproximando-a
dos modelos da Igreja primitiva.
Entre os documentos existe a Constituição Apostólica
Divini Cultus, promulgada por Pio XI em 30 de Dezembro de 1928 -
25 anos após o Motu Próprio de Pio X, que retoma o
tema da participação ativa - o papa diz: "Os
fiéis não assistem a ritos litúrgicos como
estranhos e espectadores mas, tomados pela beleza da liturgia, dela
participam ativamente."
Além destes documentos precisamos lembrar que o renascimento
da Arquitetura Religiosa se deve à Conferência de Malines,
na Bélgica, em 1909, quando o beneditino Lamberto Beauduin
apresentou algumas propostas consideradas revolucionárias.
Ele afirmava que a única maneira de fazer a Igreja voltar
às verdadeiras fontes da renovação espiritual
estava em reafirmar as verdades meio esquecidas de que a liturgia,
isto é, o culto, é, em si, a grande escola da vivência
e da espiritualidade cristãs, e que viver no espírito
da Liturgia é participar da própria vida do Cristo
em seu corpo, a Igreja. Esta conferência deu início
ao movimento litúrgico belga que depois se difundiria por
outros países.
A abadia alemã de Maria Laach também inspirou muitos
arquitetos e foi um celeiro de estudos litúrgicos. Organizou
vários Congressos Internacionais - 1951 em Maria Laach; 1952
em Odilienburg; 1953 em Lugano; 1956 em Assis.
Na conclusão do Congresso de Assis, Pio XII declarou formalmente
aos congressistas que participaram da sua audiência: "A
retomada, ou renascimento da liturgia é um sinal providencial
de Deus no nosso tempo. É como a passagem do Espírito
Santo na sua Igreja, para atrair sempre mais as pessoas aos mistérios
da fé, às riquezas da graça divina, que emanam
abundantemente da participação ativa dos fiéis
à vida litúrgica."
O critério inspirador do espaço litúrgico é
a eclesiologia de comunhão.
A Encíclica Mystici Corporis promulgada Pio XII em 1943 coloca
as premissas para o aprofundamento teológico da Encíclica
Mediator Dei do dia 20 de Novembro de 1947, saudada como a Carta
Magna do Movimento Litúrgico.
A liturgia, diz Pio XII, é o culto integral do corpo místico
de Cristo, isto é, do corpo e de seus membros. Desta definição
brotam as premissas para a idealização dos espaços
de celebração. Se determina claramente a função
do altar como centro do espaço Sagrado e gerador de toda
a estrutura do templo. Ao redor deste centro focal se dispõe
os outros elementos necessários à celebração,
e se articulam as relações entre presbitério
e nave. Na Itália aconteceu também o Congresso Nacional
de Arquitetura Sacra em Bologna, de 23 a 25 de Setembro de 1955.
Fez-se na ocasião uma resenha das produções
dos últimos 10 anos e o Cardeal Lercaro falou sobre a "Igreja,
casa do Senhor e da assembléia eucarística",
convidou os artistas para se expressarem com a linguagem da atualidade.
Nasceu na Itália uma revista "Chiesa e Quartiere",
na França já havia "Maison Dieu" desde 1944,
fundada pelo Pe. Gy.
Logo em seguida, 25 de Janeiro de 1959, o Papa João XXIII
anuncia o Concílio Ecumênico Vaticano II. No dia 26
de Julho de 1960, na promulgação das rúbricas,
normas do Ofício Divino e da Celebração Eucarística,
o Papa dizia: "A participação ativa está
implícita na própria natureza da liturgia" e
pedia para que a comissão preparatória do Concílio
fixasse os princípios da reforma.
Na constituição Sacrossanctum Concilium, promulgada
por Paulo VI no dia 4 de Dezembro de 1963 se retoma o que já
havia dito Pio X em 1903: "A Mãe Igreja deseja que todos
os fiéis sejam levados àquela plena cônscia
e ativa participação das celebrações
litúrgicas, que a própria natureza da liturgia exige
e a qual, por força do batismo, o povo cristão, "geração
escolhida, sacerdócio régio, gente santa, povo de
conquista"(1Ped. 2,9; conf. 2, 4-5), tem direito e obrigação.
Cumpre que essa participação plena e ativa de todo
o povo seja diligentemente considerada na reforma e no incremento
da Sagrada Liturgia. Pois é a primeira e necessária
fonte, da qual os fiéis haurem o espírito verdadeiramente
cristão." (SC 14)
A SC tem o Capítulo VII, dedicado à arte sacra e às
alfaias. Um capítulo que, de certa forma, movimentou a Igreja
também no Brasil. Em 1968, no Rio de Janeiro, os monges beneditinos,
Monsenhor Shubert e vários arquitetos se reuniram para refletir
e organizar a Comissão Nacional de Arte Sacra.
Este breve panorama nos traz o pano de fundo de toda a atividade
arquitetônica que se desenvolveu a partir de 1920.
O projeto de igrejas deveria ser estudado e visto de uma forma nova,
não mais a partir de estilos, mas do seu lado prático:
ser o abrigo da comunidade, da assembléia dos fiéis.
A planta da Igreja depende das ações que nela se desenvolvem,
dos equipamentos que compõem o espaço. O aspecto simbólico
não está na abundância da decoração,
mas deve transparecer por si próprio.
A preocupação com o simbolismo cristão tradicional
é superada, dando lugar a funcionalidade.
Durante a 1ª guerra mundial quase não se construiram
igrejas. Em 1923 temos a construção da Igreja de Notre-Dame
du Raincy, projetada por August Perret. É a primeira Igreja
construída em concreto armado. É um exemplo de construção
despida de ornamentos superficiais e detalhes inúteis. Segue
em planta o modelo basilical, mas o altar está mais próximo
da assembléia. As colunas, muito esbeltas, sustentam um teto
meio abobadado e, nas paredes, os painéis de concreto formam
um desenho alegre. A racionalidade começa a emergir.
O programa é claro e o sistema estrutural lógico.
Assim acontece com a Igreja de Santo Antonio na Basiléia,
projeto do arquiteto Karl Moser. O vidro, o aço e o concreto
entram em cheio mesmo mantendo a forma basilical tradicional.
A renovação da arquitetura religiosa concentrou-se
principalmente na Alemanha, onde, em 1922, se formou um grupo para
estudar os princípios básicos do moderno planejamento
de igrejas. Seus membros estavam em estreito contato com os teólogos
beneditinos em Maria Laach, e tinham interesse principalmente na
função essencial de "igreja domiciliar",
como a compreendiam os cristãos primitivos, e em saber como
incorporá-la a arquitetura de sua própria época.
Seu líder mais importante foi Rudolf Schwarz, cuja atitude
em relação à construção de igrejas
foi sintetizada em dois princípios expressos em toda a sua
obra:
1º partir de uma realidade baseada na fé, e não
de uma realidade fundada na arte, sendo essa verdade ou realidade
tal que crie uma comunidade e uma realização artística.
2º Ser honesto na linguagem artística, não
dizendo nada mais do que podemos dizer em nossa época, e
nada que não possa ser compreendido pelos nossos contemporâneos.
Se o que temos a dizer não é muito, comparado com
a Idade Média e com a Antigüidade, ainda assim será
melhor permanecer dentro da nossa esfera e renunciar a toda sorte
de teorias místicas que não serão visualizadas
ou sentidas por ninguém.
Em 1930, a Igreja de Corpus Christi, em Aquisgrana, projetada por
Schwarz, foi consagrada e jamais se projetara um templo tão
simples: apenas um salão retangular, sem colunas que o obstruíssem,
com espaço para a comunidade dos fiéis e o altar.
Não há decoração nem coisa alguma que
distraia o olhar.
Além de Schwarz, outros arquitetos alemães, como Dominikus
Böhm, Emil Steffan, Gottfried Böhm experimentaram novas
tipologias, novos materiais e métodos construtivos. Nestas
igrejas a novidade em relação ao passado está
na disposição da assembléia. Os fiéis
estão mais próximos do altar e em alguns casos o circundam,
de forma que todos se sintam mais participantes.
"O coro e suas barreiras, mesas de comunhão, tendem
a desaparecer; o altar foi colocado no centro da igreja ou numa
posição avançada, enquanto que as formas pomposas
e triunfalistas dos altares pré-conciliares e dos seus adornos
deram lugar a um novo espírito de simplicidade que procura
ir ao encontro das raízes mais autênticas da fé.
A popularidade da "colegialidade" entre clérigos
e leigos para a compreensão e a celebração
da fé exprime-se em edifícios de planta aberta.
A cidadela do passado deu lugar à cidade de Deus e dos homens:
a "urbe nova e admirável" em que todos devem encontrar
o seu lugar." (José Antônio Falcão in:
Seminarium aprili, septembri/ 1999, pág. 370)
Sem dúvida o que mais se nota na construção
de Igrejas no pós-guerra, tanto na Europa como na América
- e nos outros continentes - é a extraordinária diversidade
de plantas. Às vezes tem-se a impressão de que o arquiteto
se esqueceu que o princípio básico de toda planta
de igreja é que esta deve ser moldada pelo culto, e não
o culto pela arquitetura.
Como aconteceu no gótico, se pensa no efeito do edifício
em si mais que na comunidade e nas suas necessidades. Existem experiências
com plantas circulares, elípticas em formato de peixe, quadradas,
trapezoidais, octagonais, hexagonais, etc. O fator técnico
propiciou esta proliferação de formas, pois não
existe mais o problema de cobertura, dos pilares de sustentação
da mesma, a planta se tornou mais livre.
A grande sensação de liberdade em relação
a forma é evidente em duas igrejas, São Francisco
da Pampulha, obra de Oscar Niemeyer (1943-46) e Notre Dame, em Ronchamp
(1950-55), de Le Corbusier.
São concepções novas que, além de técnica,
incorporam uma espiritualidade que transparece na própria
forma, na luz, nos detalhes.
Outra obras igualmente interessantes foram confiadas aos grandes
arquitetos do Movimento Moderno:
" Capela do Instituto Tecnológico de Illinois - do arquiteto
Mies Van der Rohe (1952). Este projeto foi comentado pela revista
L'architecture d'aujourd'hui - 79 com estes termos: "uma construção
de uma certa dureza... mas de uma pureza... de uma simplicidade
que gera um sentimento de grandeza insuperável."
" Capela Nossa Senhora do Rosário de Vence - do artista
Henri Matisse. Ao terminar a obra ele mesmo sentencia: "quando
me recolho nesta capela, sinto-me bem... tenho impressão
que Deus perdoa meus pecados"; e ainda: "se eu fosse arquiteto
faria uma arte simples, verdadeira e pura."
As várias Igrejas de Frank Lloyd Wright, de Louis Kahn, de
Philip Johnson, de Alvar Aalto, Fritz Wotruba, Pier Luigi Nervi,
Kenzo Tange, Giovanni Michelucci, Mario Botta, Tadao Ando, Legoretta,
Lina Bo Bardi, Paulo Mendes da Rocha, Franz Heep, Hans Bros, Éolo
Maia, Segnini, Afonso Risi, etc. têm uma coerência arquitetônica
e uma lógica que invade o espaço interno e a composição
como um todo.
Estes exemplos podem não ser os melhores do ponto de vista
litúrgico, mas o espaço é belo, harmônico,
transmite ordem e paz.
Existe porém, aqui no Brasil, um outro fenômeno: o
afastamento da Igreja dos profissionais, dos artistas, e vice-versa.
As Comissões diocesanas de Arte Sacra nem se quer foram implementadas
na maioria das dioceses. A Igreja enfrenta uma realidade social
gritante e busca atender as necessidades imediatas das comunidades
que surgem nas periferias das grandes cidades. A população
urbana aumenta significativamente nos anos 70 e a demanda de espaços
é muito grande.
Em geral o povo se organiza e constrói salas multi-uso. As
"igrejas" deixam de ser espaços exclusivos para
a celebração e tornam-se locais de reunião.
Na "igreja" acontece de tudo: reunião das associações
de bairro, festas, shows, comícios, cultos, etc. De certa
forma, se oficializa um espaço que deveria ser de transição,
entre a formação da comunidade Igreja e o seu estabelecimento.
A falta de profissionais idôneos também contribui para
que o salão não assuma nenhuma característica
sacra.
O espaço da comunidade sofre também com relação
ao sítio. Qualquer terreno, o que sobrou no loteamento e
que oferece as piores condições para a edificação.
Esta realidade nos serviu. É fruto das circunstâncias
e da história. Hoje amadurecemos na consciência de
que o espaço também contribui na experiência
que o Cristão faz do mistério. A luz, a cor, os materiais,
o templo, são um sinal que remete ao divino. É necessário
harmonizar funcionalidade e simbolismo, funcionalidade e beleza.
Por isso liturgistas e artistas devem trabalhar juntos. Mais do
que nunca também na Igreja devemos acolher a multidisciplinaridade.
O presbítero não é arquiteto, não é
engenheiro, deve ser um bom teólogo e bom liturgo.
Faz-se necessária uma fusão da escultura, e da pintura,
com a arquitetura, para criar uma unidade plástico-construtiva,
sempre guiadas pelos princípios da teologia e da liturgia.
É urgente investir na qualificação dos profissionais,
dos artistas, dos arquitetos, dos engenheiros, dos seminaristas
e presbíteros.
Nas reformas, construções e adaptações
precisamos lembrar que o templo não é um edifício
qualquer. Le Corbusier escrevia: "A Igreja é o espaço
pelo qual uma realidade espiritual encontra a sua medida nos laços
orgânicos entre as necessidades materiais da arte e os lugares
de dilatação da alma e do corpo no divino".
O templo deve falar do divino, e as formas artísticas devem
colaborar para que isso transpareça. A evocação
estética deve transformar-se em atitude religiosa. O espaço
sagrado é aquele no qual o Deus escondido se manifesta na
matéria transfigurada pelo culto.
Texto cedido para publicação pela Irmã Laíde
Sonda, da Dimensão Litúrgica da CNBB
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