Por
motivos alheios à minha vontade, por razões
de saúde, não pude participar do seminário
sobre a solidariedade promovido pela Missionszentrale
dos Franciscanos alemães. Através desta
pequena reflexão quero, de alguma forma, estar
presente.
Considero o tema da solidariedade um dos mais urgentes
como resposta à barbárie dos tempos atuais,
no mundo e no Brasil. É porque somos cruéis
e sem piedade, é por não termos a solidariedade
mínima entre os co-iguais que a maioria dos humanos
atualmente sofre todo tipo de carências que lhes
encurtam a vida e os sobrecarrega de sofrimentos.
O Brasil, como é sabido por dados de organismos
internacionais, é um dos países que pior
distribui a riqueza e, por isso, configura-se como um
dos países socialmente mais injustos do mundo.
Tudo isso remete a uma falta histórica de solidariedade
que se mantém e se agrava dia a dia. No mundo,
de modo geral, não é muito diferente.
Os países opulentos destinam menos de 1% de sua
riqueza interna para debelar o flagelo da miséria
e da fome. Para enfrentar este descalabro humano, faz-se
urgente uma segunda abolição da escravatura,
motivada por uma revolução ética
mais que por uma revolução política.
Temos que despertar um sentimento profundo de irmandade
e de familiaridade que torne intolerável essa desumanização.
Precisamos, pois, de solidariedade urgente e efetiva,
para com todos estes caídos na estrada.
Como fundar hoje a solidariedade para além da visão
bíblica, cristã e franciscana que já
faz parte de nossa interpretação do mundo?
Vamos privilegiar uma reflexão que parte de um
olhar novo, derivado das assim chamadas ciências
da Terra e da vida. Aí aparece a solidariedade
como algo que está inscrito, objetivamente, na
natureza de todos os seres. Pois, todos somos interdependentes
uns dos outros. Nunca existimos sozinhos, mas sempre coexistimos
no mesmo cosmos e na mesma natureza com uma origem e um
destino comuns.
Cosmólogos e físicos quânticos nos
asseguram que a lei suprema do universo é a da
solidariedade e da cooperação de todos com
todos. Tudo tem a ver com tudo em todos os pontos e em
todos os momentos.
A própria lei da seleção natural
pela vitória do mais forte, segundo Darwin, deve
ser pensada no interior desta lei maior da solidariedade
de todos com todos. Se somente os mais fortes sobrevivessem,
os dinossauros estariam ainda aqui até os dias
de hoje. Não teriam desaparecido há 67 milhões
de anos atrás por não saberem se adaptar
às modificações sofridas pela Terra.
De mais a mais, os seres existem não apenas para
sobreviver a partir dos mais fortes, mas todos eles existem,
também os mais fracos, para realizar as virtualidades
presentes em seu ser e mostrá-las a todos os demais.
Os seres humanos nunca deixaram de condenar o assim chamado
darwinismo social, quer dizer, o triunfo do mais forte
e do mais dominador sobre os outros. Em seu lugar sempre
se propôs a compaixão, o cuidado e amor como
as atitudes mais adequadas entre os seres humanos. Assim
todos devem poder ser incluídos, também
os mais fracos e se evita que sejam eliminados ou excluídos.
Eles pertencem à família humana e devem
ser acolhidos como irmãos e irmãs. A solidariedade
se encontra na raiz do processo de hominização,
quer dizer, ela está na base do surgimento do ser
humano na arena da história.
Nossos ancestrais hominidas, há 4 ou 5 milhões
de anos atrás, ao saírem em busca do alimento,
não o consumiam individualisticamente, como o fazem
ainda hoje os primatas e símios superiores, tão
próximos a nós, como os gorilas e chimpanzés.
Eles recolhiam os frutos ou a caça e os traziam
ao grupo. E então repartiam tudo solidariamente
e comiam comunitariamente.
Foi, portanto, a solidariedade que permitiu o salto da
animalidade à humanidade e à criação
das relações sociais que permitiram o surgimento
da fala. Somos o único ser da criação
que fala e constrói sentidos a partir da fala.
Todos devemos nossa existência ao gesto solidário
de nossas mães que nos acolheram na vida e na família.
Esses dados objetivos devem ser assumidos subjetivamente
como projeto da liberdade de cada pessoa que decide incorporar
a solidariedade como atitude básica em sua vida.
A solidariedade deve ser pessoal, comunitária,
social, política e planetária, o conteúdo
das relações entre todos, como o enfatizou
João Paulo II em sua encíclica sobre a solidariedade
(Solicitude rei socialis).
Por isso, a solidariedade política, por exemplo,
ou será o eixo articulador entre todos os povos,
estados e da emergente sociedade mundial ou não
haverá, a longo prazo, futuro para ninguém.
Esta solidariedade deve ser construída a partir
de baixo, das vitimas dos processos sociais e a partir
dos sofredores deste mundo. O imperativo ético
soa: "solidariza-te com todos os seres, teus companheiros
de aventura planetária e cósmica, especialmente
os seres humanos mais prejudicados para que todos possam
ser incluídos em teu cuidado".
Ontem como hoje é a solidariedade que revela o
índice de humanidade e de cuidado que existe entre
os seres humanos. Sem a solidariedade permanecemos no
nível dos seres pré-humanos e não
irrompemos como plenamente humanos. Importa também
estender a solidariedade para com as gerações
futuras, pois elas também têm direito a uma
Terra habitável.
De São Francisco aprendemos que a solidariedade
deve ser vivida irrestritamente também com todos
os seres da criação. Não deixar que
sofram ou se sintam ameaçados. Por isso retirava
os bichinhos dos caminhos para não serem pisados,
libertava os pássaros aprisionados, tinha compaixão
de todos os que sofriam.
Concluindo, nossa missão é de cuidarmos
dos seres da criação, de sermos os médicos
e enfermeiros dos que sofrem, de sermos os guardiães
do patrimônio natural e cultura! comum, fazendo
com que a biosfera continue um bem de toda vida e não
apenas nosso e de nos solidarizarmos com todas as criaturas,
a partir dos últimas e das que mais sofrem. A Missionszentrale
é uma expressão desta solidariedade a nível
internacional no seguimento do Cristo e nas pegadas de
São Francisco. Por isso lhe seremos permanentemente
reconhecidos e gratos.