Para Francisco e Clara, a contemplação
de Cristo pobre não se reduz a uma bela teoria mística
do desprendimento, mas toma carne numa pobreza real, concreta,
essencial. Sendo Ele o modelo de toda a perfeição, resta
apenas reproduzir sua imagem: "Veja como por você ele
se fez desprezível e siga-o, sendo desprezível por ele
neste mundo" (2In 19; cf. Ad 6). Em Francisco e Clara,
a pobreza radical, o "viver sem nada de próprio", é a
resposta à kénosis de Jesus, a intenção de reviver seu
abaixamento, seu mistério de expropriação e de total abandono
da própria vida e dignidade nas mãos do Pai.
Como seu Senhor Jesus Cristo, assim também Frei Francisco
e Irmã Clara entraram nus no caminho da conversão, "depois
de ter calcado os atrativos mortais desta vida" (2Cel
214/3) livres de todo o cuidado de si mesmos e do todo
impedimento para o combate espiritual (cf. 1In 29). E,
como fiéis imitadores de Cristo, chegada a hora de seu
trânsito da luz terrena para a luz eterna, adormeceram
no Senhor como haviam vivido: "sem nada de próprio". Frei
Francisco, transformado na vida em verdadeiro imitador
de Cristo pobre e crucificado, pouco antes de morrer quis
ser colocado nu sobre a terra nua e, assim, despojado
da túnica de saco, elevou, como de costume, o rosto ao
céu e disse aos Frades: "Eu cumpri o meu dever; que Cristo
vos ensine o vosso" (2Cel 214/9). Clara, por sua vez,
cuja vocação e vida se condensam em observar "para sempre
a santa pobreza e humildade de nosso Senhor Jesus Cristo"
(RSC 12,13), no fim de seus dias, poderá dizer: "E como
sempre fui cuidadosa e solícita em observar a santa pobreza...
e em fazer que fosse observada pelas outras, assim sejam
obrigadas até o fim aquelas que vão me suceder no ofício
a observar e fazer observar a santa pobreza" (TestC 40-41;
cf. Test 34-35).
O "privilégio da pobreza", o "viver sem nada de próprio",
"sem posses ou propriedades em comum" (cf. RSC 6,12) que
dêem segurança material e nos impeçam de fazer a experiência
concreta de Deus como "grande esmoler" e "Pai das misericórdias"
(cf 2In 3; TestC 2), é a tradução em chave clariana da
intuição de Francisco. Se quisermos, uma opção ainda mais
radical, pois a clausura vos torna, queridas Irmãs, mais
indefesas diante da vida do que a itinerância e a mendicidades
dos Frades, e vos coloca diante da determinação de fazer
experiência de vossa total dependência de Deus e dos irmãos.
Seguindo o exemplo de Francisco e de Clara, o "viver sem
nada de próprio", que abarca todas as dimensões do viver
quotidiano, para nós, franciscanos e clarissas, é a prova
de nossa fé, que consiste em experimentar até que ponto
somos amados e protegidos por um Pai estupendo e misericordioso
(cf. TestC 58), como o filho pequeno o é por sua própria
mãe (cf. PC 11,3). É um modo de amar Aquele que nos amou
por primeiro; uma forma de confiança radical em Deus,
em sua fidelidade, em seu amor; uma forma total de despojamento
que nos leva a não ter nada para sermos repletos inteiramente
pela riqueza do amor de Deus e a rezar com o bem-aventurado
Francisco: "Vós sois toda a nossa riqueza até a saciedade"
(LD 4).
Desse modo, a dimensão da pobreza material - dimensão
importante, que jamais se deve deixar de lado - inspira-se
e, por vezes, conduz à dimensão mais interior e mais radical
da expropriação em todas as suas formas, a que chega ao
próprio coração da pessoa: os Frades e as Irmãs não devem
apropriar-se de nada (cf. RnB 6,1; RSC 8,1; Ad 2,3; 7,4;
8,3). Dito de outra forma, para Clara e Francisco, não
existe pobreza sem humildade, não existe pobreza sem minoridade,
não existe pobreza sem assumir a humilhação que nos pode
vir dos outros (cf. PC 2,1; Ad 14,4).>>