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       São Paulo, 06/01/2009, 21:44          
 
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  Para Francisco e Clara, a contemplação de Cristo pobre não se reduz a uma bela teoria mística do desprendimento, mas toma carne numa pobreza real, concreta, essencial. Sendo Ele o modelo de toda a perfeição, resta apenas reproduzir sua imagem: "Veja como por você ele se fez desprezível e siga-o, sendo desprezível por ele neste mundo" (2In 19; cf. Ad 6). Em Francisco e Clara, a pobreza radical, o "viver sem nada de próprio", é a resposta à kénosis de Jesus, a intenção de reviver seu abaixamento, seu mistério de expropriação e de total abandono da própria vida e dignidade nas mãos do Pai.

Como seu Senhor Jesus Cristo, assim também Frei Francisco e Irmã Clara entraram nus no caminho da conversão, "depois de ter calcado os atrativos mortais desta vida" (2Cel 214/3) livres de todo o cuidado de si mesmos e do todo impedimento para o combate espiritual (cf. 1In 29). E, como fiéis imitadores de Cristo, chegada a hora de seu trânsito da luz terrena para a luz eterna, adormeceram no Senhor como haviam vivido: "sem nada de próprio". Frei Francisco, transformado na vida em verdadeiro imitador de Cristo pobre e crucificado, pouco antes de morrer quis ser colocado nu sobre a terra nua e, assim, despojado da túnica de saco, elevou, como de costume, o rosto ao céu e disse aos Frades: "Eu cumpri o meu dever; que Cristo vos ensine o vosso" (2Cel 214/9). Clara, por sua vez, cuja vocação e vida se condensam em observar "para sempre a santa pobreza e humildade de nosso Senhor Jesus Cristo" (RSC 12,13), no fim de seus dias, poderá dizer: "E como sempre fui cuidadosa e solícita em observar a santa pobreza... e em fazer que fosse observada pelas outras, assim sejam obrigadas até o fim aquelas que vão me suceder no ofício a observar e fazer observar a santa pobreza" (TestC 40-41; cf. Test 34-35).

O "privilégio da pobreza", o "viver sem nada de próprio", "sem posses ou propriedades em comum" (cf. RSC 6,12) que dêem segurança material e nos impeçam de fazer a experiência concreta de Deus como "grande esmoler" e "Pai das misericórdias" (cf 2In 3; TestC 2), é a tradução em chave clariana da intuição de Francisco. Se quisermos, uma opção ainda mais radical, pois a clausura vos torna, queridas Irmãs, mais indefesas diante da vida do que a itinerância e a mendicidades dos Frades, e vos coloca diante da determinação de fazer experiência de vossa total dependência de Deus e dos irmãos.

Seguindo o exemplo de Francisco e de Clara, o "viver sem nada de próprio", que abarca todas as dimensões do viver quotidiano, para nós, franciscanos e clarissas, é a prova de nossa fé, que consiste em experimentar até que ponto somos amados e protegidos por um Pai estupendo e misericordioso (cf. TestC 58), como o filho pequeno o é por sua própria mãe (cf. PC 11,3). É um modo de amar Aquele que nos amou por primeiro; uma forma de confiança radical em Deus, em sua fidelidade, em seu amor; uma forma total de despojamento que nos leva a não ter nada para sermos repletos inteiramente pela riqueza do amor de Deus e a rezar com o bem-aventurado Francisco: "Vós sois toda a nossa riqueza até a saciedade" (LD 4).

Desse modo, a dimensão da pobreza material - dimensão importante, que jamais se deve deixar de lado - inspira-se e, por vezes, conduz à dimensão mais interior e mais radical da expropriação em todas as suas formas, a que chega ao próprio coração da pessoa: os Frades e as Irmãs não devem apropriar-se de nada (cf. RnB 6,1; RSC 8,1; Ad 2,3; 7,4; 8,3). Dito de outra forma, para Clara e Francisco, não existe pobreza sem humildade, não existe pobreza sem minoridade, não existe pobreza sem assumir a humilhação que nos pode vir dos outros (cf. PC 2,1; Ad 14,4).>>

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