Tanto para Clara como para Francisco,
a Fraternidade é o lugar em que o Evangelho é vivido no
quotidiano, o âmbito privilegiado em que se dá testemunho
de um Deus que é comunhão na diversidade e diversidade
na comunhão. Por isso, a Fraternidade será um elemento
irrenunciável do projeto evangélico franciscano-clariano.
Chamados a seguir mais de perto o Evangelho e as pegadas
de nosso Senhor Jesus Cristo, nós, Frades Menores e Irmãs
Pobres, somos constituídos em Fraternidade e como Fraternidade.
Se a vida consagrada é um "signum fraternitatis" (cf.
VC c. 2), a vida em Fraternidade é nosso rosto, nossa
vocação e missão, nosso modo de viver o Evangelho e de
testemunhar a Cristo (cf. Jo 13,35).
Com a contemplação e com a pobreza-minoridade, a vida
fraterna é, sem dúvida alguma, um dos eixos sobre os quais
Francisco e Clara fizeram girar toda a sua forma de vida.
Nesse sentido, o nome de trazemos, Frades Menores e Irmãs
Pobres, é muito significativo e sintetiza nossa vocação
e missão, assim como Francisco a entregou a Clara.
A Fraternidade, como exigência da vocação franciscana
e clariana, parte de uma experiência de fé, graças à qual,
primeiro Francisco e Clara depois, podem reconhecer que
os outros são verdadeiros dons do Senhor: "Quando o Senhor
me deu irmãos", reconhecerá Francisco cheio de espanto
(Test 14) e o mesmo fará Clara: "... com algumas irmãs
que Deus me dera logo após a minha conversão" (TestC 25).
Deus deu irmãs a Clara, como havia dado irmãos a Francisco.
Umas e outros são dom e presente do "Pai das misericórdias".
E aquilo que nasceu de uma experiência de fé, alimenta-se
e nutre-se da contemplação do mistério trinitário, modelo
e origem de toda a comunhão fraterna (cf. VC 8.9) e se
manifesta em gestos cheios de afeto que transpiram uma
caridade genuína e mostram uma relação transparente, sem
duplicidade, baseada na simplicidade, na familiaridade
e no reconhecimento dos dons do Senhor em cada um dos
irmãos e das irmãs. Somente o olhar daquele que ama e
tem um coração simples, como no caso de Francisco e Clara,
é capaz de descobrir, com admiração e respeito, a obra
do Espírito nos outros (cf. 2EP 85).
Não existe nada de estranho que tanto São Damião e como
a Porciúncula, muito cedo, se transformem em lugar onde
o ideal da primitiva comunidade cristã (cf. At 2,44-47)
se torna vida quotidiana. Tal experiência faz-se visível
em gestos muito concretos, mediante os quais uns nutrem
os outros (cf. RB 6,7-8; RSC 8,15-16), todos obedecem
incondicionalmente a Deus e caritativamente se obedecem
entre si.
Contudo, se a Fraternidade é dom que se acolhe com fé
e gratidão, é, ao mesmo tempo, uma tarefa e, como tal,
deve ser construída e guardada. Por um lado, edificamo-la
em base a relações humanas profundas, através do cultivo
das qualidades requeridas em todas as relações humanas
(cf. VFC 27). Por outro, por ser a Fraternidade um "tesouro
que trazemos em vasos de barro" (2Cor 4,7), é necessário
guardá-la atentamente. Nesse contexto, não devemos admirar-nos
se Clara, fazendo suas as exortações de Francisco aos
irmãos (cf. RB 10,7; Ad 25 e 26), exorta suas Irmãs guardar-se
"de toda soberba, vanglória, inveja, avareza, cuidado
e solicitude deste mundo, da detração e da murmuração,
da dissensão e da divisão" (RSC 10,6). Ambos tinham consciência
dos perigos que corre este tesouro e, portanto, da necessidade
de uma cooperação ativa entre o dom de Deus e o esforço
pessoal (VFC 23).
Todavia, para ser uma proposta de vida evangélica, a Fraternidade
deve ser autêntica, concreta e íntima. Por esse motivo,
ao mesmo tempo em que pede às suas Irmãs que "uma manifeste
à outra com confiança, sua necessidade" (RSC 8,15; cf.
RB 6,8), Clara exorta-as a manifestar, através das obras,
o amor que se professam: "Amando-vos umas às outras com
a caridade de Cristo, demonstrai-vos por fora, por meio
das boas obras, o amor que tendes dentro, para que provocadas
por esse exemplo, as Irmãs cresçam sempre no amor de Deus
e na mútua caridade" (TestC 59-60). E se entre elas houve
alguma desavença ou algum escândalo, as Irmãs não devem
deixar-se levar pela ira ou pela perturbação, mas devem
manter a paz do coração e apressar-se a perdoar para curar
as feridas (cf. RSC 8,15; RB 6,8), conscientes sempre
do fato que a "unidade do amor mútuo é o vínculo da perfeição"
(RSC 10,7) e que a Fraternidade se constrói a preço da
reconciliação e do perdão (cf. VFC 26).>>