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       São Paulo, 06/01/2009, 10:11          
 
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  Tanto para Clara como para Francisco, a Fraternidade é o lugar em que o Evangelho é vivido no quotidiano, o âmbito privilegiado em que se dá testemunho de um Deus que é comunhão na diversidade e diversidade na comunhão. Por isso, a Fraternidade será um elemento irrenunciável do projeto evangélico franciscano-clariano.

Chamados a seguir mais de perto o Evangelho e as pegadas de nosso Senhor Jesus Cristo, nós, Frades Menores e Irmãs Pobres, somos constituídos em Fraternidade e como Fraternidade. Se a vida consagrada é um "signum fraternitatis" (cf. VC c. 2), a vida em Fraternidade é nosso rosto, nossa vocação e missão, nosso modo de viver o Evangelho e de testemunhar a Cristo (cf. Jo 13,35).

Com a contemplação e com a pobreza-minoridade, a vida fraterna é, sem dúvida alguma, um dos eixos sobre os quais Francisco e Clara fizeram girar toda a sua forma de vida. Nesse sentido, o nome de trazemos, Frades Menores e Irmãs Pobres, é muito significativo e sintetiza nossa vocação e missão, assim como Francisco a entregou a Clara.

A Fraternidade, como exigência da vocação franciscana e clariana, parte de uma experiência de fé, graças à qual, primeiro Francisco e Clara depois, podem reconhecer que os outros são verdadeiros dons do Senhor: "Quando o Senhor me deu irmãos", reconhecerá Francisco cheio de espanto (Test 14) e o mesmo fará Clara: "... com algumas irmãs que Deus me dera logo após a minha conversão" (TestC 25). Deus deu irmãs a Clara, como havia dado irmãos a Francisco. Umas e outros são dom e presente do "Pai das misericórdias".

E aquilo que nasceu de uma experiência de fé, alimenta-se e nutre-se da contemplação do mistério trinitário, modelo e origem de toda a comunhão fraterna (cf. VC 8.9) e se manifesta em gestos cheios de afeto que transpiram uma caridade genuína e mostram uma relação transparente, sem duplicidade, baseada na simplicidade, na familiaridade e no reconhecimento dos dons do Senhor em cada um dos irmãos e das irmãs. Somente o olhar daquele que ama e tem um coração simples, como no caso de Francisco e Clara, é capaz de descobrir, com admiração e respeito, a obra do Espírito nos outros (cf. 2EP 85).

Não existe nada de estranho que tanto São Damião e como a Porciúncula, muito cedo, se transformem em lugar onde o ideal da primitiva comunidade cristã (cf. At 2,44-47) se torna vida quotidiana. Tal experiência faz-se visível em gestos muito concretos, mediante os quais uns nutrem os outros (cf. RB 6,7-8; RSC 8,15-16), todos obedecem incondicionalmente a Deus e caritativamente se obedecem entre si.

Contudo, se a Fraternidade é dom que se acolhe com fé e gratidão, é, ao mesmo tempo, uma tarefa e, como tal, deve ser construída e guardada. Por um lado, edificamo-la em base a relações humanas profundas, através do cultivo das qualidades requeridas em todas as relações humanas (cf. VFC 27). Por outro, por ser a Fraternidade um "tesouro que trazemos em vasos de barro" (2Cor 4,7), é necessário guardá-la atentamente. Nesse contexto, não devemos admirar-nos se Clara, fazendo suas as exortações de Francisco aos irmãos (cf. RB 10,7; Ad 25 e 26), exorta suas Irmãs guardar-se "de toda soberba, vanglória, inveja, avareza, cuidado e solicitude deste mundo, da detração e da murmuração, da dissensão e da divisão" (RSC 10,6). Ambos tinham consciência dos perigos que corre este tesouro e, portanto, da necessidade de uma cooperação ativa entre o dom de Deus e o esforço pessoal (VFC 23).

Todavia, para ser uma proposta de vida evangélica, a Fraternidade deve ser autêntica, concreta e íntima. Por esse motivo, ao mesmo tempo em que pede às suas Irmãs que "uma manifeste à outra com confiança, sua necessidade" (RSC 8,15; cf. RB 6,8), Clara exorta-as a manifestar, através das obras, o amor que se professam: "Amando-vos umas às outras com a caridade de Cristo, demonstrai-vos por fora, por meio das boas obras, o amor que tendes dentro, para que provocadas por esse exemplo, as Irmãs cresçam sempre no amor de Deus e na mútua caridade" (TestC 59-60). E se entre elas houve alguma desavença ou algum escândalo, as Irmãs não devem deixar-se levar pela ira ou pela perturbação, mas devem manter a paz do coração e apressar-se a perdoar para curar as feridas (cf. RSC 8,15; RB 6,8), conscientes sempre do fato que a "unidade do amor mútuo é o vínculo da perfeição" (RSC 10,7) e que a Fraternidade se constrói a preço da reconciliação e do perdão (cf. VFC 26).>>

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