Se a Fraternidade qualifica e dá autenticidade
à nossa consagração e missão, então nossas comunidades
devem ser autênticas Fraternidades e se tornarem visíveis
como tais. Por isso, devemos construí-las e reconstruí-las
dia após dia, obedecendo todos à palavra do Evangelho
que ressoa no coração e inspira um terno afeto e a autenticidade
dos gestos quotidianos, através dos quais se concretiza
o amor pelos outros. Qualquer gesto fraterno, até o mais
elementar, o mais humilde e o mais simples, cheio de bondade,
discrição e delicadeza, pode converter-se em "pedra viva"
(2Cel 204/3) na construção da Fraternidade.
Tudo na vida das Irmãs Pobres e dos Frades Menores deve
conduzir à unidade, ao amor recíproco, à comunhão fraterna.
Assim, a contemplação do amor de Deus, manifestado nos
mistérios da encarnação e da paixão e morte de Jesus,
encontra na vida fraterna o terreno privilegiado. Nela
Deus-amor se mostra e se faz tocar. Do mesmo modo, a expropriação
da altíssima pobreza não só une a Cristo pobre, mas une
também os Frades e as Irmãs entre si, abrindo nos corações
um espaço à santa operação do Espírito que é caridade.
Desse modo, o outro é um dom que se oferece à nossa liberdade
de amar.
Na construção da Fraternidade franciscana, o serviço da
autoridade tem um papel fundamental. Tanto para Clara
como para Francisco, a autoridade, em primeiro lugar,
é seguimento de Cristo servo, o Filho do homem que veio
para servir e não para ser servido (cf. Mt 20,28; Ad 4).
Esse serviço se expressa sendo artífice de comunhão (cf.
RSC 4,11-12; Lm 1-12), na admoestação e correção dos irmãos
e das irmãs (RSC 10,1; 9,1; RnB 10,1), na fiel custódia
do carisma recebido do Senhor (cf. RSC 6,11), e dos irmãos
e das irmãs (RSC 4,9; RnB 4,6), promovendo a co-responsabilidade
e a colaboração (cf. RSC 2,1-2; 4,15-19.22-24).
Dado que a Fraternidade implica abertura e reconhecimento
dos outros, construir Fraternidade significa trabalhar
para que a colaboração com as outras Fraternidades seja
uma bela realidade. Isso exige que se renuncie à auto-suficiência,
quaisquer que sejam os meios de que uma Fraternidade dispõe.
O que significa também ter um grande sentido de realismo.
Pois como pode um irmão crer-se tão "rico" que chegue
a pensar que não tem necessidade dos outros? O orgulho
e a soberba, que podem provir do número de Frades e de
Irmãs ou, também, de uma boa preparação intelectual, são
fruto da carne, não do Espírito. A comunhão que abre as
portas à colaboração é o melhor antídoto contra o cansaço
e a falta de esperança que, por vezes, se faz sentir em
nossos corações.
A tentação, para os Frades Menores, pode ser o "provincialismo",
enquanto que para as Irmãs Pobres pode ser a "autonomia"
de que gozam os mosteiros, se esta é pensada e praticada
como um fechamento em si mesmas, como uma "defesa" diante
dos "perigos" externos que ameaçam certas falsas seguranças.
À luz do que se disse, cabe perguntar-se: Que imagem de
si mesmas oferecem as nossas Fraternidades? O que significa
para nós pertencer a uma Ordem? Que sentido de pertença
a ela temos? Que meios usamos para construir Fraternidade
e para superar os conflitos que nascem em nossas Fraternidades?
Como vivemos as qualidades exigidas em todo relacionamento
humano? Que exemplos de perdão e de reconciliação podemos
oferecer ao mundo de hoje, tão violento e dividido? Que
mudanças se pedem de nós para chegarmos a uma efetiva
colaboração entre Províncias e entre Mosteiros? >>