Diante do maravilhoso evento do Filho
de Deus que tanto se abaixou para a nossa salvação, Clara
não pode deixar de exclamar, cheia de espanto: "Admirável
humildade, estupenda pobreza! O Rei dos anjos, o Senhor
do céu e da terra (cf. Mt 11,25), repousa numa manjedoura!"
(4In 20-21). E nem pode deixar de convidar à contemplação
de semelhante mistério: "Preste atenção... considere...
contemple" (4In 19.22.28).
Todavia, se a pobreza e a humildade de Belém acendem o
espanto interior de Francisco e de Clara e os conquistam
para Deus, será o Calvário o lugar privilegiado do amor
esponsal da virgem Clara e do amor transformante de Francisco.
De fato, é na paixão e morte do Senhor que se revela plenamente,
até as últimas conseqüências, o amor de Deus pelo gênero
humano, sua "inefável caridade" (4In 23). Por isso, ante
o escândalo da cruz, o olhar de Francisco se transforma
em seguimento: "deixando-nos o exemplo para que sigamos
suas pegadas" (1Pd 2,21; 2Fi 13) e o de Clara torna-se
penetrante, apaixonado e cheio de compaixão: "Abrace o
Cristo pobre como uma virgem pobre. Veja como por você
ele se fez desprezível e siga-o, sendo desprezível por
ele neste mundo. Com o desejo de imitá-lo, olhe, considere,
contemple o seu esposo... feito por sua salvação o mais
vil de todos, desprezado, ferido e tão flagelado em todo
o corpo, morrendo no meio das angústias próprias da cruz"
(2In 18-20).
Tanto em Clara como em Francisco, a contemplação não se
reduz a uma mera consideração intelectual, mas é envolvente
e global e, em conseqüência, abraça toda a pessoa em todas
as suas dimensões: espiritual, intelectual, afetiva e
sensível. O amor do Senhor "apaixona" (4In 11), é totalizante.
Por isso, mente, alma e coração (cf. 3In 12-13) estão
constantemente voltados para o Senhor (cf. RnB 22,19;
4In 15), para levar a uma progressiva identificação esponsal
com o Amado, de tal modo que nem sequer "as paredes da
carne" devem constituir um obstáculo, mas devem deixar
transparecer a Cristo mais ainda: "Ponha a mente no espelho
da eternidade... e transforme-se inteiramente pela contemplação
na imagem da divindade" (3In 12.13).
Como Francisco, por amor, transformou-se em imagem viva
do Amado (cf. LM 13,5), assim Clara, acesa de amor pelo
Esposo, é a Amada transformada no Amado. E a mesma coisa
sucederá a todos os que fixarem seu olhar e seu coração
em Deus.
A contemplação franciscano-clariana, longe de ser um devoto
pietismo, é um caminho de identificação com o Senhor.
Quem assume uma atitude contemplativa em sua vida transforma-se
em "criatura nova" (Gl 6,15) e na verdade pode dizer:
"Para mim a vida é Cristo" (Fl 1,21). Tanto para Clara
como para Francisco, e também para as Irmãs e para os
Frades, contemplar é deixar-se habitar por Cristo, para
converter-se em sua morada permanente (cf. Jo 14,23);
é "olhar", "observar", "adornar-se" com as virtudes do
Senhor: a bem-aventurada pobreza, a santa humildade e
a inefável caridade" (4In 15.16.18); é olhar continuamente
para Cristo e abraçar-se a Ele, com o desejo de imitá-lo
(cf. 2In 18-20).
É a lógica do amor que, por sua própria natureza, leva
à transformação e à ação. Deste modo, a contemplação é
seguimento e o seguimento leva novamente à contemplação.
Em outras palavras, a contemplação é vida e a vida é contemplação.
Penso que, com razão, se possa afirmar que tanto para
Santa Clara como para São Francisco, seguimento e contemplação
coincidem, até o ponto em que a contemplação os leva a
identificar-se com Jesus pobre, casto e obediente por
amor. Do mesmo modo, a forma de vida evangélico-contemplativa,
abraçada por Clara e por suas Irmãs, seguindo o exemplo
de Francisco, é a resposta lógica à loucura do amor de
Deus, revelado na encarnação, paixão e morte de Jesus.
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