Santa Clara, como antes fizera São Francisco,
percorreu este caminho até o fim. Observou e contemplou
a Cristo com todo o amor de que é capaz uma mulher iluminada
pelo Espírito do Senhor e, unificando mente, coração e
vontade, percorreu com passo decidido e rápido os mesmos
passos do Filho de Deus que pobre foi posto no presépio,
viveu pobre no mundo e ficou nu no patíbulo" (TestC 45).
Contemplando continuamente o rosto de Cristo, Clara reflete-o
como num "espelho" e comunica a força que lhe vem de nutrir
e custodiar, no coração e na vida, uma forte paixão por
Cristo, seu Esposo, e uma terna compaixão pelo homem e
pela mulher de todos os tempos. Desse modo, Clara, "amante
apaixonada de Cristo crucificado e pobre" (João Paulo
II), e Francisco, "verdadeiro amante e imitador" de Jesus
Cristo pobre e crucificado (TestC 5), transformam-se em
testemunhas do amor de Deus pela humanidade.
Como é próprio de uma pessoa profundamente enamorada,
Clara e Francisco identificam-se com Jesus, refletem-se
nele, revestem-se dele e transformam-se nele. Seus corações
foram seduzidos pelo Esposo, conquistados pelo Senhor.
Ambos deixaram-se envolver pela luz que irradia do "espelho"
do Pai. Esta é a experiência fundamental. A admiração,
o silêncio habitado e a clausura, sobretudo a do coração,
serão as conseqüências imediatas tanto para o Poverello
como para Irmã Clara.
À luz do exemplo de Clara e de Francisco, podemos perguntar-nos:
Que lugar ocupa Deus em nossas vidas? Como vivemos a dimensão
contemplativa que caracteriza o carisma franciscano-clariano?
Quais são os obstáculos que encontramos em nossa vida
de contemplação e como podemos removê-los? Em nosso caso
específico, seguimento e contemplação coincidem? Como
se vive em nossas Fraternidades a "clausura do coração"?
Queridas Irmãs e Irmãos, o mundo de hoje está a nos pedir
em alta voz que lhe mostremos Jesus. Isso exige uma vida
de contemplação, uma vida na qual, fixando nossa mente
e nosso coração no "espelho" que é Cristo, "removido todo
impedimento e todo cuidado e postergada toda preocupação",
da melhor forma possamos servir, amar, honrar e adorar
o Senhor Deus "com coração limpo e mente pura" (RnB 22,26).
Nossos irmãos, os homens e as mulheres de nosso tempo
estão a nos pedir que amemos de tal forma Aquele que totalmente
se entregou por nós que, como Francisco e Clara, nos transformemos
assim em ícone do Amado, na imagem viva de Jesus Cristo
(cf. Rm 8,29), a ponto de fazer transparecer em nossa
vida sua própria vida (cf. 2Cor 4,10).
A contemplação fez de Francisco um "homem novo" e de Clara
"uma fonte de luz". Neste início de século XXI, Clara
e Francisco nos convidam a experimentar "a doçura escondida
que o próprio Deus reservou desde o início para os que
o amam" (3In 14). Com seus olhares e seus corações voltados
para o Senhor, Clara e Francisco convidam-nos a não nos
deixarmos tomar pela pressa, pelo ativismo, pelo ruído
e pela superficialidade. Irmãs e Irmãos, teremos a coragem
de acolher este convite? Também nós somos chamados a "bendizer
e louvar o Senhor" (TestC 22), a pôr em Jesus Cristo nossa
mente, alma e coração para transformar-nos nele (3In 12-13).
Disso dependerão, sem dúvida, o sentido e a profundidade
de nossa vida, o significado e o futuro de nossas Fraternidades.
Este é o grande desafio que temos pela frente, de tal
modo que, se nossas Fraternidades não se transformarem
em "escolas" de busca de Deus, em "mesas" onde diariamente
se partilha o pão da Palavra, em "lugares protegidos"
de espiritualidade, de oração, de adoração e de contemplação,
se não formos homens e mulheres para os quais o primado
de Deus e a dimensão contemplativa se transformam em mediações
adequadas e concretas (cf. NMI 3), não seremos um ponto
de referência para o mundo.>>