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Viver sem nada
de próprio:
Como pobre abrace o Cristo pobre (cf. 2In 18)
A pobreza é uma das características do franciscanismo,
particularmente da forma de vida das Irmãs Pobres. Bem
se pode dizer que o viver "sem nada de próprio" (RB 1,1;
RSC 1,2) é a nota dominante e distintiva do nosso "fazer
penitência" (cf. RSC 6,1). Para Francisco e para Clara,
dois autênticos "anawin" ou "pobres de Javé", "viver sem
nada de próprio" é algo inegociável.
Referindo-se aos que desejam abraçar esta vida, Clara
e Francisco pedem que se anuncie a eles a palavra do Evangelho
(cf. Mt 19,21): "que vão e vendam todos os seus bens e
procurem distribuí-los aos pobres" (RSC 2,8; RB 2,6).
Esta palavra evangélica está na base da vida de Francisco
e de Clara; é a palavra carismática por excelência, o
quadro de referência de sua experiência evangélica, a
opção de fundo, que inspira a decisão de viver segundo
"perfeição do santo Evangelho" (FV 1; cf. RSC 6,3), orienta
o caminho e ilumina os passos sucessivos.
A "predileção" que Francisco e Clara mostram pela pobreza
radical, expressa pelo "viver sem nada de próprio", não
se inspira nas modas da época, mas no amor a Cristo, o
Pobre por excelência (cf. TestC 45). Dele aprenderam o
despojamento e o abaixamento mais radical e absoluto.
A contemplação de Cristo pobre e crucificado está no centro
da experiência espiritual de Francisco e de Clara, dá
sentido e motiva suas opções concretas de vida, sobretudo
as que se referem à pobreza. O caminho seguido por Francisco
e Clara é o caminho indicado por Cristo Jesus com seu
comportamento e seus sentimentos: "Ele, subsistindo na
condição de Deus, não se apegou à sua igualdade com Deus.
Mas esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo,
tornando-se solidário com os seres humanos. E, apresentando-se
como simples homem, humilhou-se, feito obediente até a
morte, até a morte numa cruz" (Fl 2,6-8).
A fé permitiu que Clara e Francisco descobrissem que,
para a salvação dos pecadores e a redenção dos escravos,
o Senhor não escolheu o caminho da riqueza e do poder,
mas o da pobreza, da humildade e do serviço; a partir
da fé, "o Pobre de Assis" e a "Dama Pobre" intuíram que
a salvação e a redenção podiam ser recebidas na medida
em que, pela pobreza, pela humildade e pelo serviço, entravam
no caminho de Cristo e seguiam suas pegadas (cf. 1Pd 2,21).
Tanto para Clara como para Francisco, a "santíssima pobreza"
não é simplesmente uma virtude, nem somente uma renúncia
às coisas, mas é, sobretudo, um nome e um rosto: o rosto
de Jesus Cristo Pobre e Crucificado (cf. 2In 19).
Nu nasceu entre nós, Ele que é a Palavra de Deus, e foi
envolto em faixas e na ternura do amor de sua Mãe, Ele
que é a luz e a vida de tudo o que existe. Despojado de
suas vestes, o Filho de Deus morreu por nós (cf. TestC
45). Esse foi o caminho que, movidos pela graça de Deus,
o bem-aventurado Francisco e a bem-aventurada Clara quiseram
percorrer.
Contemplando os mistérios da encarnação e da paixão, morte
e ressurreição, Frei Francisco e Irmã Clara gravaram no
mais íntimo de seu coração a memória da humilhação do
Senhor e compreenderam que eram dirigidas particularmente
a eles as palavras do Evangelho: Se alguém quiser vir
após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga
(Mt 16,24). A partir desta experiência revestiram-se "do
espírito de pobreza, do sentimento de humildade e do afeto
de profunda piedade" (LM 1,6/1), que os levaram à imitação
de Cristo, Filho de Deus bendito e glorioso, seguindo
suas pegadas no caminho da humildade e da pobreza (cf.
RB 9,1; 3In 4.25) e abraçando-o nos mais pobres, nos leprosos
(cf. LM 1,5-6).>>
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