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Antes de prosseguir nesta procura, temos que
esclarecer o termo "secular" de modo mais nítido.
Pois, neste contexto, essa palavra não é sinônima
nem de "ateu", nem de "secularizado" (cf. Lição
14), mas significa bem outra coisa. Trata-se
justamente do contrário! Pois, não é possível
encontrar a Deus a não ser no âmbito secular,
em "todas as coisas deste mundo", como Inácio
de Loyola definiu: quer dizer, nas pessoas humanas
com suas preocupações e necessidades, suas alegrias
e esperanças, nos animais, nas plantas e nas
pedras, nas situações concretas e nas circunstâncias
sociais, nos acontecimentos e nas experiências
da história. Portanto, a pessoa religiosa não
precisa ir ao deserto, subir ao cume de um monte
ou refugiar-se no mundo interior da alma (apesar
de poder fazer isto também!) para procurar a
Deus. Não precisa despedir-se do mundo para
encontrar a Deus. Este é o ensino da Bíblia,
com a qual estamos comprometidos.
Na história da Igreja é possível encontrar
ainda uma outra influência predominante: A realidade
como constutuída de duas partes desiguais, ou
seja, do "mundo", considerado como uma coisa
inferior ou mesmo ruim, e do "espírito", considerado
o melhor ou até mesmo a única coisa válida e
boa.
Nesta perspectiva, a única preocupação importante
consistiria em ocupar-se exclusivamente das
coisas espirituais, mortificando os sentidos,
estimulando o poder da alma, fugindo do mundo,
entregando-se a Deus. Essa mentalidade cria
um dualismo irreconciliável. Os ascetas do cristianismo
primitivo saíram das cidades e refugiaram-se
no deserto. Seus seguidores procuravam a vida
religiosa pela renúncia às suas posses (pobreza),
à vontade própria (obediência) e à sexualidade
(virgindade). Evidentemente, esses três pontos
de cristalização da vida cristã contêm muitos
conteúdos positivos e preciosos. Por este motivo,
continuam constituindo - para inúmeros cristãos
- motivos e perspectivas essenciais, válidas
até hoje.
Desde o início, porém, estavam penetradas
por um espírito dualista, marcado pelo desprezo
do mundo.
O dualismo tem ainda outras raízes que não
são nem cristãs. Por isso, não convém que seja
um motivo condutor (leitmotiv) para a vida franciscana.
O mundo real é a criação de Deus, o lugar onde
a glória de Deus se manifesta e que resplandecer.
Mesmo sendo verdade que Deus habita na alma
humana individual, normalmente costuma agir
através da história dos povos. Mostrou-se na
sarça ardente a Moisés, para usá-lo como instrumento
numa obra histórica e salvífica: devia conduzir
o povo de uma situação de opressão e dependência
à plena liberdade. Deus está presente nos processos
de libertação dos povos e no engajamento em
prol de mais justiça e paz. Ele se encarnou
(Jô 1) e quer continuar presente no mundo até
o fim dos tempos (Mt 28,20). Quem deseja seguir
a Deus, tem que seguí-lo mundo adentro.
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