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Quando Francisco se refere à sua nova
vida, usa o termo "penitência".
Por isso, o primeiro nome de sua fraternidade
era: "Penitentes de Assis". Também
Clara considerava-se, independentemente de Francisco,
uma penitente. Neste contexto, é preciso
recordar que a palavra "penitência"
(= poenitentia em latim) era um conceito muito
importante naquela época. Equivalia ao
propósito de levar "uma vida de
acordo com o Evangelho"; com outras palavras,
significava uma entrega total a Deus e a Jesus
Cristo.
Por que, naquele tempo, teriam recorrido justamente
a esse conceito de "penitência",
que - aos nossos ouvidos - soa bastante negativo?
O homem da Idade Média tinha uma compreensão
da vocação religiosa que difere
essencialmente da nossa. Costumava isolar-se
- ou sozinho, ou com companheiros - do convívio
geral da sociedade, para procurar viver com
Deus numa relação particular.
Entendeu-se como uma pessoa que constantemente
e chovava seus próprios pecados e os
pecados do mundo. Por meio de uma vida de oração,
de recolhimento e renúncia procurava
sua própria salvação, assim
como a salvação dos outros. O
conveito "penitência" caracterizava
essa consciência fervorosa durante os
séculos XII e XIII. Chegou até
a designar um modo de viver que, pouco a pouco,
corresponderia a uma estrutura jurídica,
claramente definida.
Desde o início do Cristianismo, o pecado
e sua absolvição não foram
considerados algo que dissesse respeito somente
à pessoa individual. A opinião
pública não podia passar de modo
indiferente ao lado do pecado e de sua reparação.
Por isso, a Igreja estabeleceu um estado especial
de penitência para pessoas que tinham
cometido crimes graves, como p.ex., assassinato,
adultério, blasfêmia e ainda outros
pecados que eram contrários a uma vida
de união com Deus. Estas pessoas, portanto,
tinham que fazer penitência pública,
renunciando, entre outras coisas, ao convívio
conjugal, distribuindo seu dinheiro aos pobres,
fundando igrejas ou conventos, rezando determinadas
orações, jejuando em certas épocas
etc.
Pecado, absolvição do pecado e
imposição da penitência
eram, portanto, eventos que aconteciam publicamente
na Igreja. Pouco a pouco, porém, através
dos tempos, esse modo de pensar, julgar e agir
foi esquecido, substituído pela confissão
auricular. Entretanto, isto não aconteceu
sem resistência da Igreja oficial. Então,
muitos homens e mulheres decidiram voluntariamente
abraçar o estado de penitentes. Por si
mesmos e em substituição a outros,
estavam prontos para assumir as consequências
que anteriormente eram próprias à
penitência pública.
Num livro, que trata do assunto, há a
seguinte observação: "Quem
não sabe rezar os salmos de cor, quem
não é capaz de velar durante uma
vigília noturna, quem não é
capaz de dobrar os joelhos ou de ficar de pé
com os braços em cruz ou prostrado no
chão, pode escolher uma outra pessoa
que assuma a respectiva penitência no
seu lugar; pois está escrito: "Carregai
os fardos uns dos outros" (Gl 6,2).
A prática da penitência levou a
certas prescrições, ou seja, à
proibição de exercer profissões
ou atividades que eram consideradas incompatíveis
com o Evangelho, p.ex., a profissão de
comerciante ou de soldado, para dar somente
dois exemplos. Havia a obrigação
de jejuar nas segundas, quartas e sextas-feiras;
era preciso guardar o grande jejum durante o
tempo da Quaresma, dar esmolas, penitenciar-se
com instrumentos de penitência (flagelação,
cilícios), fazer peregrinações,
recolher-se numa ermida etc.
Encontramos todas essas coisas também
na vida de Francisco e Clara. No ano 1221, prescrições
semelhantes a essas apareceram numa espécie
de Regra, antigamente atribuída a Francisco,
mas que, de fato, não é de sua
autoria. Trata-se do assim chamado "Memoriale".
Provavelmente tenha sido o Cardeal Hugolino
quem preparou este documento, procurando impor
suas idéias aos Frades Menores, assim
como também às Irmãs de
São Damião.
Na sua "carta aos fiéis", dirigida
aos penitentes que procuravam sua orientação,
Francisco se refere indiretamente a esse "Memoriale",
dando, porém, sua própria opinião
sobre a vida evangélica e influenciando,
deste modo, os seus seguidores. É deste
movimento de penitência, orientado por
Francisco, que surgiu mais tarde a Terceira
Ordem Franciscana, no início espontaneamente,
sem organização própria,
mas finalmente de modo oficial no ano 1289,
aprovado pelo Papa Nicolau IV.
No início do século XIII, portanto,
já antes de Francisco e Clara, havia
um grande entusiasmo pela Ordem de Penitentes.
Aquilo que Tomás de Celano conta a respeito
de Clara pode igualmente traduzir algo desse
dinamismo religioso: "Muitos que eram ligados
pela promessa matrimonial se comprometeram com
consentimento mútuo a manter a abstinência,
os homens entrando numa Ordem e as mulheres
nos mosteiros. A mãe animava a filha,
e a filha animava a mãe para seguir a
Cristo; as irmãs entusiasmavam suas próprias
irmãs, e as tias faziam o mesmo com suas
sobrinhas".(LegCl 10).
Esta citação, porém, elucida
mais outro fato: o movimento dos penitentes
tinham também uma grande influência
sobre a vida das mulheres. Em toda a Itália
Central, assim como também na Renânia
(cf. as Beguinas) surgiram espontaneamente movimentos
de mulheres. Sobretudo, foram pessoas que pertenciam
a famílias ricas ou nobres que se retiravam
do mundo - ou na solidão ou num mosteiro
- para levar uma vida dedicada exclusivamente
a Deus. Somente em nosso tempo chegamos a entender
a importância considerável alcançada
por esses movimentos.
Desta maneira, se entende como o motivo ascético
(= renúncia e mortificação)
caracterizou igualmente as três Ordens
franciscanas, apesar de não constituírem
o elemento central, como foi demonstrado na
Primeira Lição deste curso. O
mais importante foi sempre o princípio
positivo: o testemunho dado a um Deus que se
encarnou para tornar os homens mais humanos.
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