|
Havia, no povo, um grupo especial de pessoas,
destinadas quase profissionalmente a "ouvirem
a voz de Deus". Eram os sacerdotes. A sua
tarefa primeira era: anunciar a torah. Infelizmente,
o judaísmo ulterior confundiu, com freqüência,
torah e Lei escrita. Assim surgiu a impressão
errônea de que tudo o que Deus quis manifestar
já estava contido integramente na Lei.
No início, não era assim: a palavra
torah será sinônimo de Vontade
de Deus.
Uma segunda tarefa, menos importante, dos sacerdotes
era o culto religioso. Porém, quando
o culto começou crescer em importância,
assumindo o primeiro lugar, o anúncio
da torah teve que sofrer. O sentido da liturgia
é: ajudar o povo a celebrar o seu relacionamento
com Deus e o relacionamento entre si. Por desgraça,
quando a torah já não era mais
conhecida, também não se tinha
mais clareza sobre esse relacionamento. Sem
a torah, sem a procura atenta da vontade de
Deus, o ritual litúrgico começou
a esvaziar-se, não passando de um invólucro
vazio e de uma série de fórmulas
sem sentido. Aí o povo chegou a imaginar
que seria possível manter Deus favorável
por meio de manipulações. Nesta
hora, o culto religioso deixou de ser a expressão
de um relacionamento vivo e real.
A perda da vocação sacerdotal
conduziu a uma crise de identidade do povo hebraico:
"Pois, na realidade, o meu processo é
contra ti, ó sacerdote. Tropeçarás
de dia, e de noite tropeçará contigo
também o profeta... Meu povo será
destruído por falta de conhecimento.
Por teres rejeitado o conhecimento, eu te rejeitarei
do meu sacerdócio; por teres esquecido
o ensinamento de teu Deus (= torah), eu também
me esquecerei de teu filhos" (Os 4,4-6).
"Conhecer" (= yada) não se
refere a um conhecimento teórico, mas
ao conhecimento de uma pessoa, que pode chegar
até o ponto de fundir duas vidas em uma
só. No seu significado mais profundo,
esta palavra é usada para celebrar a
unidade total entre homem e mulher: "O
homem, Adão, conheceu Eva, a mulher"
(Gn 4,1). O problema, visto por Oséias,
não era o conhecimento insuficiente do
"catecismo", por parte do povo, mas
o fato de o povo ter deixado de amar a Deus.
"Suas obras não lhe permitem voltar
para o seu Deus, pois um espírito de
prostituição está dentro
deles, e eles não conhecem o Senhor"
(Os 5,4).
Esta mesma significação impregna
as palavras de São Paulo, quando escreveu,
anos depois de sua conversão: "Anseio
pelo conhecimento de Cristo" (Fl 3,10).
Não se queixa de não ter bastante
tempo para prosseguir nos seus estudos cristológicos,
mas anseia por uma intimidade mais profunda
com o Senhor.
|