|
Começou, então a repetir-se a mesma evolução
que já havida se dado no Antigo Testamento:
a institucionalização e a profecia condicionavam-se
uma à outra. Os chefes da Igreja mantinham uma
máquina bem lubrificada, em vez de fomentar
as comunidades na koinonía. Fazia-se necessário
que alguém viesse relembrar à Igreja a sua finalidade.
Surgiu então a vida religiosa.
Pessoas isoladas começaram a se dar conta da
diferença entre a vida da Igreja que conheciam
e a das comunidades primitivas. Procuravam,
então, espontaneamente, imitar o ideal descrito
nos Atos dos Apóstolos:
"E todos que tinham fé viviam unidos, tendo
todos os bens em comum. Vendiam as propriedades
e dos bens e dividiam com todos, segundo a necessidade
de cada um. Todos os dias se reuniam unânimes
no Templo. Partiam o pão nas casas e comiam
com alegria e simplicidade de coração, louvando
a Deus entre a simpatia de todo o povo. Cada
dia o Senhor lhes ajuntava outros a caminho
da salvação" (At 2,44-47).
Portanto, as primeiras formas de vida religiosa
pautaram-se pelas primeiras comunidades, como
notou João Cassiano, no século IV. Escreveu
que os primeiros religiosos se separavam do
povo "para praticarem aquilo que os Apóstolos
haviam ordenado a toda a Igreja" (Conf. 18,
cap.5). Em outras palavras: estes grupos se
segregavam da comunidade maior para viverem
o carisma profético.
"São esses dois aspectos, aparentemente
contraditórios, que caracterizam o profeta:
é membro da comunidade, sentindo-se , ao mesmo
tempo, distanciado dela. A imagem clássica do
profeta, que se afasta para viver no deserto,
exprime isto. De um certo modo, está livre das
estruturas, obrigatórias em qualquer comunidade
normal... Os profetas são chamados para fora
da comunidade para falar à comunidade"
(R. Haughton).
Entre todas as tarefas da vida religiosa, a
primeira é a obrigação de reconvocar a Igreja
à fidelidade ao Evangelho. Sem esse aspecto
privilegiado, a Vida Religiosa degenera ao nível
de mero trabalho social ou uma ocupação assalariada
barata, perdendo assim sua razão de ser original
e essencial.
Por causa do seu papel profético na Igreja,
as Ordens religiosas se mantêm numa relação
de certo modo tensa face à instituição. Isto
acontece cada vez que as estruturas desta última
se enrijecem ou quando se concentram exclusivamente
no esforço de manter sua posição privilegiada
de liderança. Portanto, o perigo de que a instituição
possa procurar assimilar a vida religiosa é
sempre atual e presente.
O profeta é uma pessoa incômoda. É hostilizado
porque questiona as estruturas vigentes de poder
que dificultam a evolução da vida e deixar de
servir à humanidade. Isto pode acontecer tanto
no âmbito político como no âmbito eclesial.
Desde sempre os profetas incomodaram os outros
a ponto de serem desprezados, perseguidos e
até mortos.
Foi esta a sorte de muitos profetas do Antigo
Testamento; e essa foi também, de modo especial,
a experiência de Jesus: "Os seus não o receberam"
(Jo 1,11). À medida que assumirmos verdadeiramente
a nossa tarefa profética dentro da Igreja e
da sociedade, será a nossa vez de fazer essa
experiência. Mas também o contrário acontece:
se, por acaso, gozarmos de benevolência e simpatia
dos poderosos e influentes na Igreja e na sociedade,
teremos de perguntar-nos a nós mesmos se estamos
a ponto de descuidar e de trair a nossa missão
profética.
|