|
ELE SE TRANSFORMOU NUM OUTRO CRUCIFICADO PELO
AMOR E PELA COMPAIXÃO
Leonardo Boff
14 de setembro de 1224, festa da exaltação
da cruz. Quarenta dias de jejum e orações.
No monte Alverne. Nas pedras. No silêncio. Na
madrugada. Francisco, voltado para o Oriente, em lágrimas,
orava: "Senhor meu, Jesus Cristo, duas graças
te peço antes que eu morra: a primeira é
que em vida eu sinta na alma e no corpo, quanto for
possível, aquelas dores que tu, doce Jesus,
suportaste na hora da tua acerbíssima paixão.
A segunda é que eu sinta no meu coração,
quanto for possível, aquele excessivo amor
do qual tu, Filho de Deus, estavas inflamado para
voluntariamente suportar uma tal paixão por
nós pecadores".
Francisco pede dor e amor. Na medida em que ia mergulhando
na Paixão de Cristo, diz-nos o relato antigo,
"todo ele se transformava em Jesus pelo amor
e pela com-paixão".
Nisso, desce do céu o próprio Cristo
em forma de Serafim, na imagem de um homem crucificado.
Inefável encontro! Francisco quase morre de
alegria pela visão do Amado e de dor pelas
chagas do Crucificado. lntuiu que devia se identificar
totalmente com Cristo. A dor iria rimar com o amor.
O Gólgota e o Calvário se encarnariam
em seu corpo.
A montanha inteira se acendeu, se inflamou e iluminou
os montes e vales vizinhos, como se houvesse sol sobre
a terra.
O calor da ardentíssima Paixão de Jesus
se transforma em fogo de amor nos membros de Francisco.
Mãos com mãos, pés com pés,
lado aberto com lado a se abrir. Irrompem sangrando
no corpo do beato Francisco os estigmas do santíssimo
Salvador. O alter Christus está pronto. Deu-se
uma identificação entre redimido e Redentor
como jamais na história. Francisco se transformou
na estampa de Cristo: "Despi Francisco e vereis
Cristo; vesti Cristo e vereis Francisco"!
Nasceu da cruz e das chagas o homem novo. Agora ele
pode cantar o hino da confraternização
universal, porque não há mais inimigos,
todos se fizeram irmãos e irmãs. Amém.
Aleluia!
Do livro "Francisco de Assis, o homem do Paraíso",
1999, Leonardo Boff, Vozes.
|