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Francisco e o estudo acadêmico
Talvez a mais clara e firme intervenção
de Francisco sobre os estudos tenha acontecido por
ocasião de uma assembléia de cerca de
5 mil frades em Assis (11.6.1223). Entre os frades,
muitos deles notáveis por seu saber e grau
de instrução, encontrava-se também
o cardeal Hugolino, cardeal-referência ou protetor
da Ordem e, pouco depois, Papa Gregório IX.
Na ocasião, um grupo de frades, ao que tudo
indica composto pelos aludidos doutos e por ministros
provinciais, dirigiu-se ao cardeal Hugolino, rogando
que intercedesse junto a Francisco a fim de que este
concordasse em introduzir na Regra de vida elementos
das normas de vida de São Bento, de Santo Agostinho,
de São Bernardo.
Ouvida a peroração e tomando o cardeal
pela mão, Francisco dirigiu-se à multidão
de frades reafirmando-lhes redondamente que "o
Senhor convidou-me a seguir a vida da humildade e
mostrou-me o caminho da simplicidade"; que este
mesmo Senhor o queria qual "um novo louco no
mundo". É por meio desta sabedoria que
Ele nos quer conduzir, afirmava. Contraponto a supraproclamada
simplicidade a possíveis pretensões
de doutos, arremata: "Pela vossa ciência
e sabedoria, Ele vos confundirá". Não
é difícil imaginar a reação
dos ouvintes(..).
Se, por um lado, como acima foi aludido, assinalamos
a prevenção de Francisco em relação
aos estudos, por outro, é evidente que esta
prevenção não se refere ao estudo
propriamente dito, mas sim, à postura dos frades
em relação ao mesmo. Na verdade, era
o modo como os frades poderiam conceber o estudo que
estava diretamente ligado à limpidez, seja
da escola de Francisco, ou seja, em última
instância, da escola de Jesus Cristo. Por outro
lado, embora Francisco "não tivesse tido
nenhum estudo", tinha o bom senso do comerciante.
Foi este bom senso que o ajudou a buscar e a reter
o essencial. Com efeito, iluminado pela luz eterna
e através de assídua leitura, audição
e memorização de textos bíblicos,
"penetrava os segredos dos mistérios,
e, onde ficava fora a ciência dos mestres, entrava
seu afeto cheio de amor". Resumindo esta intuição
do essencial, dizia Francisco, pelo final da vida,
a um frade, que tinha aprendido tanta coisa na Bíblia
que já lhe bastava meditar e recordar: já
sei que o pobre Cristo foi crucificado. Desejava um
conhecimento profundo, vale dizer, "da medula
e não da casca, do conteúdo e não
do invólucro, não das muitas coisas,
mas daquele bem que é o grande, o maior, o
estável".
Se Francisco, por um lado, exigia dos literatos,
juristas, teólogos, pregadores e doutos em
geral que, ao ingressar na Ordem, renunciassem à
própria ciência para se apresentarem
inteiramente disponíveis ao Crucificado, manifestava,
por outro, o maior apreço aos mesmos doutos,
bem como a outros sábios. E de se notar que
em seus Escritos só apareça uma única
vez o termo "teólogo". Mas aparece
em sentido positivo: "a todos os teólogos
e aos que nos ministram as santíssimas palavras
divinas devemos honrar e venerar, como a quem nos
ministra espírito e vida".
Finalmente, um texto expressivo para indicar a atitude
de Francisco em relação aos estudos:
a brevíssima carta, quase bilhete, dirigida
a Santo Antônio: "Eu, Frei Francisco, saúdo
a Frei Antônio, meu bispo. Gostaria muito que
ensinasses aos irmãos a sagrada teologia, contanto
que nesse estudo não extingas o espírito
da santa oração e da devoção,
segundo está escrito na Regra".
Aqui, Francisco manifesta sua satisfação,
através da expressão: meu bispo dirigida
a Santo Antônio e da outra: placet - me apraz,
gosto, me alegro, aprovo. O motivo da satisfação
de Francisco estaria no seguinte: em Santo Antônio,
teria acontecido a admirável confluência
do sábio e do teólogo, do santo e do
homem de ciência, do ideal e de sua concatenação
às exigências práticas da vida
ao estudo, portanto. A cláusula condicionante
contanto que está em perfeita sintonia com
a ambigüidade ou tentação que Francisco
percebia poder esconder-se no estudo ou no saber.
Portanto, do ponto de vista da sabedoria ou do "espírito
do Senhor" ou da inspiração de
Francisco não se trata de uma cláusula
restritiva. Ela coloca, sim, o estudo que se deseja
em relação à atitude do estudioso,
em relação de servo da sabedoria, em
outras palavras, em relação à
promoção da vida. A mesma ressalva consta
na Regra onde, com respeito ao trabalho (embora não
especificado, se braçal ou intelectual), se
estabelece a mesma ressalva.
Em suma, em relação à ciência
e aos estudos, na função acima lembrada,
podemos constatar o seguinte: Francisco os apoiou,
seja acolhendo pessoas eruditas na fraternidade, seja
acolhendo os serviços que estavam em condições
de prestar (elaboração da Regra, funções
administrativas da Ordem), seja reverenciando as pessoas
doutas, seja alegrando-se pela teologia que Santo
Antônio se dispôs ministrar em Bologna.
Não se portou, porém, como um incentivador
ingênuo. Expressou prevenção e
cautela, compreensíveis a partir da percepção
que ele tinha da ambigüidade do uso da ciência
e dos estudos. Ambigüidade, não pela ciência
ou pelo estudo em si mesmos, mas por aqueles que neles
estariam envolvidos.
Como lembramos, o próprio Francisco estudou,
no sentido de se ter dedicado, de se ter consagrado
durante toda vida a uma busca e a uma fruição
do Amor. A própria Sagrada Escritura lhe forneceu
os meios para conhecer, admirar e amar a ciência
sagrada. Pressentia, porém, o risco que o estudo,
que a busca do saber - também bíblico
ou teológico-pastoral - poderia acobertar:
ser utilizado como um umento de domínio, de
orgulho, de poder, de distinção de classes,
de discriminação social - poder que
se torna cego em relação ao ideal de
simplicidade, de pobreza, de fraternidade e que, enfim,
o menospreza. Isto significa que Francisco, embora
tivesse apreço pelo saber e por seus caminhos,
relativizava tanto a um a outro em função
da sabedoria do viver.
O fato de relativizar a importância de conhecimentos
acadêmicos como instrumento essencial para a
evangelização significa questionar a
fundo algumas tendências eclesiais do tempo
que consideravam a ciência como chave e arma
para governar a Igreja, iluminar as inteligêcias
e lutar contra os hereges. A postura de Francisco
é questionadora e iluminadora ao mesmo tempo,
tanto no âmbito secular como religioso, tanto
para ontem para hoje.
Talvez hoje em dia se tenha até melhores condições
para avaliar tanto os motivos de regozijo como de
precaução de Francisco devido à
magnitude de situações sociais e ecológicas
de risco, frutos, não de um uso sábio
do saber, mas do abuso do mesmo. Francisco navegava
com liberdade nas águas das mediações:
"ia direta, espontânea e vitalmente à
realidade".
Portanto, estas alusões parecem demonstrar
ou sugerir que Francisco foi um criador de cultura,
foi à fonte e trouxe o eternamente novo e antigo.
Por isso, descortina horizontes. A Escola Franciscana
nele se inspira. Pensa e traduz na cultura de cada
tempo e em sistema filosófico-teológico
sua inspiração. A ele deve a existência.
Texto do livro "Herança Franciscana";
capítulo "Os franciscanos e a ciência",
de Frei Elói Dionísio Piva, ofm
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