O profeta e o seu Evangelho
Por N.G. Van Doornik
Francisco teve com o Evangelho uma intimidade difícil
de se compreender. Amava o Evangelho, mas ele não
teria sido Francisco, se seu amor não tivesse
desejado possuir o próprio livro.
A magnífica Bíblia da Idade Média,
com os maravilhosos textos desenhados em elegantes
letras, tinha para ele algo de sagrado. Já
foi, de per si, um rito religioso, quando ele, com
seus dois companheiros, entrou na pequena igreja de
São Nicolau e lá abriu o livro sobre
o altar. Manifesta-se aqui uma forma de respeito que,
em nosso tempo, impregnado de obras tipográficas,
se tomou impossível: o respeito pela palavra
manuscrita.
Com isso, adquirem um sentido mais profundo certas
ações aparentemente mágicas.
Nas cartas que ditava, não permitia Francisco
que se riscasse uma letra, mesmo que fosse um erro
de ortografia. Recolhia com o mesmo respeito qualquer
pedacinho de pergaminho que encontrava no chão.
Perguntaram-lhe, certa vez, por que tinha tanto cuidado
até mesmo com obras de autores pagãos.
A resposta tem um quê de surpreendente: "Porque
nelas se encontram as letras que compõem o
glorioso nome do Senhor". Por umas cinco vezes
insiste ele, em suas cartas, em que se devem guardar
respeitosamente as palavras do Evangelho, onde quer
que sejam encontradas.
Francisco sentia o alcance psicológico desse
simbolismo. "Devemos cuidar de tudo que encerra
Sua Palavra sagrada. Assim ficamos profundamente compenetrados
da sublimidade do nosso Criador e de nossa dependência
em relação a Ele", escreverá
mais tarde ao Capítulo de seus irmãos.
A verdadeira dificuldade de se compreender como Francisco
lia a Bíblia, não se encontra na cultura
medieval. O que é difícil compreender
é o fato raro de a Bíblia ser lida aqui
por um homem que era como ela o desejava. Ele não
tinha necessidade dum comentário que a suavizasse.
Com heróica abertura, Francisco aceitava o
texto ao pé da letra, pois este já de
há muito o havia empolgado. Talvez tenha ele,
alguma vez, explicado a Bíblia de uma maneira
por demais rigorosa - nunca, porém, branda
demais.
Devemos perguntar se a concepção de
Francisco a respeito da Bíblia ainda vale para
nós. Em cada mudança religiosa na história,
encontra-se o homem diante da pergunta: que é
propriamente autêntico na Bíblia e que
é que se conseguiu descobrir com o correr do
tempo?
E em cada período são sempre os grandes
cristãos que, da forma mais pura, reconhecem
a autenticidade. Não se requer uma visão
genial para se descobrir o que corrigir num texto
ou apontar alguns cantos carcomidos numa estrutura
eclesiástica antiquada.
Quando se trata, porém, de valores eternos,
é absolutamente necessária uma visão
de fé. Não é tão estranho
que um homem como Francisco, que se afastara, por
assim dizer, da própria cultura para viver
o Evangelho até às últimas consequências
- que este Francisco tenha descoberto algo que sobrepuja
qualquer cultura.
As grandes personalidades não estão
à frente de seu tempo, estão acima dele.
Extraído do livro "Francisco de Assis,
Profeta de Nosso Tempo", Editora Vozes.
|