LITURGIA - 15/06/2008 - 11º Domingo do Tempo Comum/Ano A
Deus precisa de gente
Deus quis precisar do ser humano.
Quis ter um povo para si, um povo
santo, um povo “sacerdotal”, para
santificar o mundo todo em seu
nome; um povo que fizesse sua
vontade, realizasse seu reino: “um
reino de sacerdotes e uma nação
consagrada” (Ex
19,6; 1ª leitura). Essa vocação do povo, na ocasião da proclamação da Lei no monte
Sinai, prefigura aquela vocação mais plena que, no monte da Galiléia, Jesus dirigiu a
doze humildes galileus. Eles são como que representantes das doze tribos de Israel, e ele os manda para a colheita messiânica, para ceifar com a palavra do evangelho, anunciando a vinda do Reino. Eles são o começo do verdadeiro Israel, o novo povo de Deus. Os sinais disso são os prodígios que os acompanham na sua missão: curam enfermos, limpam leprosos, ressuscitam mortos, expulsam demônios... (Mt 10,8, evangelho).
Mt inseriu esse episódio, significativamente, depois dos dois conjuntos iniciais da atividade de Jesus, sua pregação (Mt 5-7) e sua atividade milagrosa (Mt 8-9). A missão que os apóstolos recebem é, exatamente, a de pregar e de curar: fazer a mesma coisa que fez o Messias. Eles são seus colaboradores e continuadores na ceifa messiânica. Jesus quer pôr um fim à situação desoladora de um povo que é como ovelhas sem pastor (9,36). Conforme a linguagem de Ezequiel, nos últimos tempos, Deus mesmo, através de seu Messias, reunirá as ovelhas dispersas e se tornará o Bom Pastor (Ez 34). É nesta missão que os apóstolos vão participar, realizando, assim, a plenitude do povo eleito, dos cooperadores de Deus.
Acreditamos que a Igreja é a comunidade construída sobre o fundamento dos apóstolos, a “Apostólica”. Ela não está em função de si mesma, mas é povo-testemunha de Deus e do seu Enviado. Ela recebe a tarefa de pregar a Boa-Nova e confirmá-la por sinais que mostrem a “graça”, a amizade de Deus. A Boa-Nova, a mensagem do Reino, é inesgotável, porque é o próprio plano de Deus, a ‘justiça” de Deus, o bem que ele sonhou e que agora vai ser executado. Anunciar o Reino de Deus é, pois, colocar-se a serviço de sua justiça, como o servo de Deus, o Justo e Santo, o Filho que pertence plenamente ao Pai.
A Igreja, se ela quiser ser evangelizadora - não apenas organizadora ou doutrinadora -, terá que ser transformada, sempre de novo, pela graça de Deus, numa comunidade que lhe é dedicada, que lhe é “própria”: um povo santo. E esta santidade deverá mostrar-se em atos, que serão sinais de que Deus está com ela, como eram os sinais dos profetas e de Jesus mesmo, quando curava o povo. Que esses sinais escapem as conhecidas leis da física é secundário, nem todos os milagres são fisicamente inexplicáveis. O importante é que os gestos do projeta e da comunidade profética testemunhem uma presença ativa de Deus, falem de Deus, sejam sinais visíveis do Invisível. Reivindicar a justa distribuição dos bens econômicos pode ser um desses sinais.
O mesmo se pode dizer da ação em prol dos direitos humanos, da conservação do ambiente natural etc. Tais atividades estão no mesmo plano que curar os enfermos e ressuscitar os mortos, os prodígios que Jesus mandou os Doze fazerem em sinal da boa-nova do Reino de Deus. Mas o importante é, sobretudo, a proclamação desse Reino, que é transcendente e, a rigor, invisível, pois ele ultrapassa sempre aquilo que a gente vê, e é sempre mais exigente do que a gente pensa. É o reino do amor sem fim.
A 2ª leitura continua apresentando o texto de Rm 5,6-11, que vem oportunamente sublinhar um subentendido fundamental das duas outras leituras: a “compaixão”, a misericórdia, o amor gratuito de Deus. Ele nos amou enquanto éramos inimigos (onde já se viu?) e deu seu Filho por nós.
Importa explicitar, hoje, que a missão dos Doze não concerne só a eles: o número “doze” representa as 12 tribos do novo Israel, que é a Igreja do Cristo. Nós somos o povo de Deus, o povo de testemunhas e cooperadores de sua justiça e de seu reino (cf. prefácio dom. do T.C. I).
Do livro "Liturgia Dominical", de Johan Konings, SJ, Editora Vozes