Estamos em pleno Ano Clariano e na oportuna comemoração
dos 750 anos da Morte de Santa Clara de Assis. Comemorar
a morte de uma santa é comemorar o modo como sua presença
permanece em plena vitalidade. A pessoa santa vive na
perenidade da obra que deixou. Clara de Assis está vivendo!
Mesmo que nós frades não estejamos atentos a esta verdade,
a presença de Clara é muito forte para a humanidade e
para a igreja.
O que sabemos da mãe do nosso movimento? Ela não é a sombra
de Francisco, mas brilha com ele na primavera da sociedade
e da igreja medieval até os tempos atuais. Cidadãos de
Assis e cidadãos do mundo, os dois são portadores de uma
personalidade forte e original. Há 800 anos o Movimento
de Assis sacode o mundo com valores profundamente humanos
e divinos, nele o Evangelho faz estrada. E desde então
temos esta Mulher Nova que nos legou um modo de amar e
um modo de abraçar a revolução que vem da altíssima pobreza.
O título acima é de uma obra coletiva italiana publicada
pela Cittadella Editrice e remete à escolha comum do Evangelho.
Clara não é fotocópia de Francisco mas é o lado feminino
do projeto sonhado por ele. Ela viveu o discipulado como
uma mestra autônoma e responsável do mesmo projeto de
vida evangélica. Por séculos Clara ficou desconhecida
por que culturalmente achamos que experiências, escritos,
mística, espiritualidade, carisma fundacional, capacidade
de conduzir grupo religioso é atribuição apenas de homem;
aliás, descobrir o potencial feminino é o que falta ainda
no processo de conversão da própria eclesialidade.
Quem de nós conhece as fontes clarianas? Os escritos de
Santa Clara e os textos ligados à sua vida são as fontes
para o conhecimento primário da experiência religiosa
e mística da mãe do Movimento de Assis. Clara é nossa
primeira mística e primeira escritora, contudo as suas
Cartas à Inês de Praga foram publicadas e divulgadas em
1953 por Fausta Casolini, por ocasião do VII Centenário
da Morte da Santa. A Legenda de Santa Clara, atribuída
à Tomas de Celano, foi traduzida para o italiano e daí
para outras línguas a partir de 1962. O Processo de Canonização
de Clara foi descoberto apenas em 1920. A partir do estudo
e conhecimento destas obras podemos saber muito sobre
Clara. E o que devemos saber?
Ela é fundamental para a nossa família religiosa. É fundadora
com Francisco e mestra da nossa rica espiritualidade.
Ela tem muito a dizer. Ela nos ensinou a pensar a realidade
sob a ótica da contemplação; com ela temos que aprender
a transformar o nosso tempo em tempo. Nós falamos de um
modo conceitual sobre a pobreza, Clara casou-se com ela.
Nós seguimos o Senhor, Clara se enamorou por Ele. Nós
estudamos a pobreza, Clara pediu ao Papa o "Privilegium
Paupertatis" , o privilégio de viver sem nenhum privilégio,
a renúncia a qualquer status, a coragem de ter tudo em
comum.
Clara é um ícone da vivência radical do Evangelho: vivê-lo
e nada mais! Transformou a essência do cristianismo num
modo cotidiano, simples e fraterno. Uma Dama Nobre que
escolheu viver a sobriedade longe do barulho escandaloso
das colunas sociais.
Clara é uma Mulher Nova a viver seus dons naturais aperfeiçoados
pelas virtudes do Evangelho: inteligente, bela, corajosa,
bondosa, segura, compreensível, acolhedora e contemplativa.
Viveu 40 anos reclusa em São Damião e fez do mosteiro
não uma prisão mas um útero onde cada dia gerou o Reino
de Deus. De São Damião ajudou a resolver as inquietudes
de seu tempo, salvou Assis da invasão e da guerra, como
mulher olhou muito no Espelho para ver o melhor de si
mesma: a beleza e a graça do Amado. De São Damião passou
para a história como uma mulher e santa universal.