Certamente, essas duas palavras do título sintetizam bem
a mãe do movimento de Assis. Quando falamos em Clara,
relacionamos a palavra com frágil, alva, feminina; quando
falamos em cavalheiro, logo pensamos no homem, projetado,
viril, poderoso.
Santa Clara integrou as qualidades masculinas sem perder
de vista o seu feminino resplandecente. Ela representa
a força da quietude da mulher que, de dentro do seu lar,
gera o cavaleiro, antes de tudo, aquele ser que
vai à luta, à caça, para prover e conquistar.
É do interior que ela prepara a saída de todos aqueles
que deixam a sua casa para enfrentar o mundo. A mulher
é responsável pela bem-aventurança daqueles que nos rodeiam.
Por isso existe o dito popular: atrás de um grande homem,
há sempre um feminino de ternura e vigor.
Assim é que no eremitério de Clara não há reclusão do
mundo, porque ela sabia trazer o mundo inteiro para dentro
de seu eremitério, explorando cada detalhe da natureza,
seus ciclos e viços, motivando as virtudes daqueles que
participavam de seu cotidiano.
Antes de qualquer coisa, ela era inteira, inteligente;
porém, sua inteligência passava pelo coração. Vivia e
experimentava a dimensão da mente e do coração, era uma
mulher transparente, porque as pessoas equilibradas são
muito claras e são claras porque vão na essência de tudo,
e não se apegam no pequeno eu do outro, nem no seu próprio.
Por isso tudo, podemos nomear a mulher como embaixatriz
de sua família, ainda que permaneça no interior de sua
casa. Muito além das fronteiras dela, nós podemos observar,
pelos frutos, a qualidade de mulher que se encontra lá
dentro.
Clara confia, e confiar é "fiar-com". Ela está presente
em tudo o que faz, e somente estando presente é possível
fiar com alguém, só presente você constrói e transforma.
Alguém é capaz de respirar no passado? Respirar no futuro?
- O sopro é o instante. E o instante é sempre inteiro.
Porém ficar inteira, desperta, é um longo aprendizado.
Quase nunca estamos presentes nas coisas que vamos fazendo
em nosso cotidiano, nem mesmo quando comemos. Estamos
mastigando ainda um alimento e já vamos preparando no
prato a próxima garfada. É preciso abrir a escuta para
o presente, a atenção, o estar ereto. Pode ser complexo,
mas não é nada difícil.
Era justamente com sua presença que Clara animava com
gentileza - isto é muito feminino. Animava o Cristo Bonito
(masculino e feminino do Cristo) e sua grande contribuição
foi trazer ao Deus masculino da época, suas qualidades
femininas.
E é bom lembrar aqui que nós nascemos com o feminino e
o masculino em nossa natureza humana, mas eles só podem
ser potencializados no encontro, nas pessoas que passam
pela nossa vida. É assim que o masculino nos faz mais
femininos, integrando o Espelho e o Vigor: "Feliz é
você que olha dentro desse espelho todos os dias, rainha,
livre na sua vida, e espelha nele, sem cessar, o seu rosto,
para enfeitar-se toda, interior e exteriormente, vestida
e cingida de variedade, ou seja, ornada de flores e perfume,
mas resplandecente em suas roupas de virtudes, esposa
caríssima do Sumo Rei. Pois nesse espelho é preciso olhar-se
inteira. Preste atenção, considere a humildade e a inefável
caridade, O próprio espelho adverte, só nele, inteira,
você vai poder contemplar com a graça de Deus!"
Assim Clara vê no espelho o Cristo Total (pai e mãe) e
se vê nesse mesmo espelho. Precisamos, também nós, olharmos
no nosso espelho interior, assumir o que somos, não podemos
fugir do nosso Eu Sou, porque infalivelmente, vamos
sempre terminar em frente ao espelho.
Clara sabia quem ela era, qual era o seu desejo, e ela
só pôde ser livre porque sabia quem era. Ela tinha o espelho
interiorizado nela, não era peça de adorno do seu toucador.
Porém, para descobrir-se é preciso questionar-se, pois
mesmo Deus não é uma resposta pronta para a nossa pergunta.
Deus é uma pergunta constante para as nossas respostas.
Por isso Ele é infinito.
Quando oramos demais, talvez não deixemos espaço para
essas perguntas, espaço para o vazio que é fecundo, para
o vazio onde Deus faz-se obra em nós. E isso Clara entendeu
bem. Ela abriu espaço para Deus em sua vida, tirou as
quinquilharias, envolveu-se com a história de seu povo
e envolver-se é estar dentro das situações, dos sentimentos
que envolvem essas situações, é fiar com as pessoas que
experimentam conosco essas situações. É não estarmos alienados,
confinados em nossas crenças, transbordados de palavras
repetitivas que nem entendemos direito!
Por isso é preciso dar um passo a mais... buscar nossos
piores defeitos e usar essa força para que nos conduza
aos nossos mais nobres dons, sem preconceitos como "o
homem não chora". Por que não chora? Se a lágrima lava,
limpa, alivia, porque é transparente, é clara, espelho
da nossa emoção. Se a lágrima está ali, por que represá-la?
Reprimi-la? É preciso fazer do preconceito uma pergunta:
Por que homem não chora? Se aquele que chora é maior que
o homem!
Para finalizar, vamos falar da anima e do ânimus de Jung.
O lado psicológico, na maioria das vezes, é entendido
como o lado da análise, mas a análise pode ser um método
de redução, que tenta explicar o todo por uma parte. A
análise trata muito do negativo, da sombra em nós, mas
nem sempre nos orienta claramente a transformar nossa
sombra em luz.
Por outro lado, a religião fala muito do divino, olha
muito para o divino, lá no alto de sua luz, mas nem sempre
nos orienta a assumir nossa sombra para poder integrá-la
e superá-la de vez. No entanto, desde Clara e Francisco,
seres ecológicos, femininos e masculinos, nós sentimos
que há uma criança sendo parida - é a convocação para
a plenitude - a criança plena, embora ainda criança, mas
plena.
Clara e Francisco nos chamam a que sejamos terapeutas,
porque essa é a tarefa de cada um de nós, facilitar o
parto dessa criança plena. Inspirados pelo ideal de que
1+1 nunca seja 2, porém 3. Eu - Você e o Amor. Francisco
- Clara e Você... no Espelho! Paz e Bem!
P.S.l - Houve uma dinâmica em que as pessoas se
olharam em um espelho que levava Francisco de um lado
e Clara de outro, deixando o meio livre para que o espelho
refletisse a imagem de quem se olhava.
P.S.2 - Síntese de uma reflexão elaborada por leigos
no 27° Encontro de Espiritualidade Franciscana,
realizado de 19 a 22 de junho de 2003, no Seminário de
Agudos, com grupo que há 13 anos caminha com Frei Vitorio
Mazzuco, buscando iluminação das práticas através da mística
de Clara e Francisco. Esta síntese foi elaborada
por Maria Letícia Martins.