Conta-nos a Legenda de Santa Clara, no parágrafo 23: "Em
outra ocasião, Vital de Aversa, homem cobiçoso de glória
e intrépido nas batalhas, moveu contra Assis o exército
imperial, que comandava. Despiu a terra de suas árvores,
assolou todos os arredores e acabou pondo cerco à cidade.
Declarou ameaçadoramente que de nenhum modo se retiraria,
enquanto não a tivesse tomado. De fato, já havia chegado
o ponto em que se temia a queda iminente da cidade.
Quando Clara, a serva de Cristo, soube disso, suspirou
veementemente, chamou as Irmãs e disse: "Filhas queridas,
recebemos todos os dias muitos bens desta cidade. Seria
muita ingratidão se, na hora em que precisa, não a socorrêssemos
como podemos".
Mandou trazer cinza, disse às Irmãs que descobrissem a
cabeça. E, primeiro, espalhou muita cinza sobre a cabeça
nua. Colocou-a depois também sobre as cabeças delas. Então
disse: "Vão suplicar a nosso Senhor com todo o coração
a libertação da cidade".
Para que contar detalhes? Que direi das lágrimas das virgens,
de suas preces "violentas"? Na manhã seguinte, Deus misericordioso
deu a saída para o perigo: o exército debandou e o soberbo,
contra os planos, foi embora e nunca mais oprimiu aquelas
terras. Pouco depois o comandante guerreiro foi morto
a espada".
E, também, lemos no Processo de Canonização, nº 14: "A
testemunha também disse que, temendo as Irmãs a chegada
dos sarracenos, tártaros e outros infiéis, pediram à santa
madre que insistisse muito diante do Senhor para que o
mosteiro fosse defendido contra eles. E a madre santa
lhes respondeu: " Irmãs e filhas minhas, não fiquem com
medo, porque o Senhor as defenderá. E eu quero ser a sua
garantia. Se os inimigos chegarem até o mosteiro, coloquem-me
diante deles". Assim, pelas orações de tão santa madre,
o mosteiro, as Irmãs e os objetos não sofreram dano algum".
Estamos em Assis entre 1239 e 1241. Há tensão na cidade.
Cavaleiros, mercadores, voluntários, populares, soldados,
todos se posicionam para defender a cidade que tanto amam.
Às portas da cidade se acampam os guerreiros sarracenos
comandados por Frederico II, que se bate contra os "minori",
conseqüentemente contra o Papa. No dia 3 de junho de 1239
acontece um eclipse do sol, um fenômeno natural; mas o
povo interpreta de um modo apocalíptico aquela escuridão
que permite ver estrelas de dia. O medo sempre antecipa
o fim do mundo.
No mosteiro de São Damião, Clara e suas Irmãs rezam pela
cidade. A prece e penitência contra as armas da guerra.
Aquele lugar seguro de paz pode virar fortaleza de combate.
Na Ordem dos Frades Menores, Frei Elias quer mediar o
conflito entre o exército imperial e o exército pontifício,
escreve uma carta e encarrega o Geral da Ordem, Frei Alberto
de Pisa, para entregar ao Imperador. Um frade é usado
como mensageiro e desaparece no caminho juntamente com
o documento. O Papa não aceita que Frei Elias tenha dirigido-se
ao Imperador e excomunga-o. A Ordem sofre com isso e Clara
também.
O momento é grave, o conflito é grave e a saúde de Clara
é frágil. Sua vontade é que está forte, firme e resistente.
A hora da provação é a grande oportunidade de reanimar
a fé em São Damião e em todo o povo de Assis.
Vital de Aversa comanda com crueldade o exército de Frederico
II. Ali ajuntam-se mercenários, muçulmanos, guardas imperiais,
bandoleiros, tártaros, sarracenos. É um momento de pilhagens,
ruínas, prisões, incêndios, violência que arrasa igrejas,
mosteiros, castelos, casas e burgos. Clara monta guarda
com professas e noviças. Pela palavra e pelo exemplo é
a hora da mais fervorosa oração. Oração de mãe é segurança
e proteção.
Já haviam destruído os mosteiros de São Bento de Satriano,
Santo Angelo de Panzo e São Vitorino de Tescio. Será que
chegara a hora de São Damião? Será que era o momento do
martírio?
O ideal de Francisco e a paz que vem do Evangelho estão
postos à prova. Clara ama o mosteiro, suas Irmãs e Assis.
É hora de oferecer-se por todos. Clara chama as Irmãs,
abençoa cada uma com o sinal da cruz. As tropas que estão
nas portas do mosteiro jamais poderão vencer este escudo
de amor e oração.
Pede que se busque a caixa de marfim onde está o Santíssimo
Sacramento. Pede ao Senhor que guarde e proteja as Pobres
Damas e a cidade a elas confiada. Com a força do espírito,
o rosto resplandecendo da beleza da graça, Clara segura
firme a Hóstia e vai em direção aos invasores. Os soldados
surpreendem-se com a presença da frágil mulher mostrando
o sacramento da sua fé, afastam-se surpresos entre pavor
e misteriosa reverência. É um verdadeiro milagre! Toda
a cidade de Assis comenta no outono inteiro. O coração
pleno de amor e cuidado, a presença convicta de mãe Clara
afastara todo perigo.
Conta-nos Frei José Carlos Pedroso no seu livro Santa
Clara de Assis: "Por causa desse fato, até hoje as figuras
mais comuns de Santa Clara mostram-na como uma freira
segurando uma custódia. Custódia é aquela roda dourada,
cheia de raios, que se usa nas adorações e nas procissões
do Santíssimo Sacramento da Eucaristia. Mas as Irmãs que
assistiram ao fato disseram que a Eucaristia foi levada
em uma caixinha de marfim e prata, como era comum naquele
tempo. As custódias ainda não estavam em uso".
Não importa se era um ostensório, uma custódia, uma caixinha
de marfim, o que importa é que São Damião e Assis foram
salvos pela oração de libertação: prece, penitência, cinza
na cabeça e a certeza da presença do Cristo Eucarístico.
O certo é que até hoje a cidade de Assis, no dia 21 de
junho, faz a Festa del Voto, pois acredita que ali houve
o milagre e a certeza de que não é possível derrotar uma
mulher e um povo que crê!