Francisco já havia feito um caminho de seis anos após
a sua conversão quando transformou em realidade a vertente
feminina do franciscanismo: A Ordem das "Pobres Damas".
Clara chegou para confirmar a sua conversão. Uma mulher
sempre fecunda a idéia de um homem e faz tornar-se concreto
aquilo que num homem é apenas sonho. Clara fez do sonho
de Francisco caminho e comunidade, igualando-o na via
da perfeição.
Temos que resgatar as palavras de Omer Englebert, em sua
Vida de São Francisco de Assis: "Clara possuía grande
bom senso, um coração afetuoso e fiel, uma doce e prudente
obstinação, uma coragem que não recuava diante de nada.
Tinha o dom de fazer-se amar e era tão persuasiva que
Francisco, os cardeais e os papas acabavam cedendo ao
seu parecer (...). Clara é seguramente uma das figuras
femininas mais nobres e encantadoras de que a história
tem notícia."
Francisco deixou Clara conduzir sua experiência a seu
modo. Não foi muito a São Damião respeitando sempre a
originalidade e a sacralidade íntima daquele lugar. Continuemos
com Omer Englebert:
"Se, por vários anos, São Francisco deixou de percorrer
com a mesma assiduidade de antes o caminho que leva da
Porciúncula a São Damião, foi sobretudo para instrução
dos seus: "Não penseis, dizia aos que o censuravam, que
meu amor por irmã Clara e suas companheiras tenha diminuído,
mas é que devo servir-vos de exemplo. O ministério das
irmãs somente devem exercê-lo aqueles que tenham demonstrado,
através de longa experiência, possuir o espírito de Deus".
E para que entendessem seu pensamento, lhes contou a seguinte
parábola:
Um rei enviou dois embaixadores à rainha. Quando regressaram
e prestaram contas de sua missão, o príncipe lhes perguntou
que impressão tiveram da rainha.
- Senhor, respondeu o primeiro, tendes deveras uma mulher
formosíssima. Feliz daquele que possa ter uma semelhante!
- E tu, que pensas da rainha? Perguntou ao segundo.
- Impressionou-me, respondeu, a atenção com que escutava
as instruções que lhe transmiti de sua parte.
- E não a achaste bela?
- Senhor, é a vós que cabe julgar a respeito disso; a
mim não cabia outra coisa senão transmitir-lhe vossa mensagem.
O rei emitiu então esta sentença:
- Teus olhos são castos, disse ao que acabava de falar,
e quero recompensar-te: daqui para adiante permanecerás
comigo. Quanto a ti, disse ao indiscreto que havia pousado
seus olhares impúdicos sobre a rainha, sai daqui e não
voltes jamais a macular o meu palácio com a tua presença.
"Se já os reis da terra têm tais exigências, acrescentou
Francisco, que pureza de olhar não tem direito de exigir
Cristo daqueles que ele envia junto às suas esposas!"
Parece, ademais, que o Santo não mortificou suas filhas
além da justa medida. Os Fioretti relatam que um dia consentiu
em convidar Clara para um jantar em Santa Maria dos Anjos.
Tratava-se de um favor que a abadessa de São Damião há
tempo procurava em vão obter. Confiou sua causa aos amigos
mais caros de Francisco, que também eram seus, os quais
foram dizer ao Santo:
- É excessivo e contrário à caridade divina o rigor com
que recusas atender ao desejo de Clara, virgem tão piedosa
e cara ao Senhor. Não esqueças que, afinal, ela é tua
plantinha espiritual e que foram tuas exortações que a
tiraram das ilusões do século.
- Então, pensais que devo jantar com ela?
- Seguramente! E ainda que te pedisse muito mais, tu devias
lho conceder.
- Pois bem, se este é vosso parecer, concordo convosco.
E para que seja maior o contentamento de nossa irmã Clara,
tomaremos a refeição aqui na Porciúncula. Pois há muito
tempo que ela vive reclusa em São Damião e nada poderá
agradar-lhe mais do que rever o lugar de seus esponsais
com o Senhor.
No dia combinado, Clara chegou acompanhada de outra irmã.
Com humildade e devoção venerou primeiro a imagem de Nossa
Senhora dos Anjos que dominava o altar onde outrora ela
havia recebido o véu e cortado seus cabelos; em seguida,
enquanto chegava a hora da refeição, visitou o eremitério
até os últimos recônditos. Francisco, que, segundo seu
costume, fizera servir a mesa sobre o chão, sentou ao
lado dela; os demais tomaram seus respectivos lugares
e todos se dispuseram a comer. Mal, porém, haviam tomado
os primeiros bocados, Francisco se pôs a falar de Deus
e todos foram arrebatados em êxtase.
Logo, uma multidão acorreu ao convento. Eram habitantes
de Assis, de Bettona e arredores que, vendo chamas sobre
o bosque, acreditavam ter irrompido um grande incêndio
em Santa Maria dos Anjos, e vinham para apagá-lo. Mas
puderam constatar que não havia dano algum. Quando, ao
entrar na sala do banquete, encontraram Francisco e os
demais comensais com as mãos juntas e os olhos fixos no
céu, compreenderam que as chamas que pensaram ver eram
as do amor divino em que ardiam aqueles santos personagens;
e retiraram-se edificados e confortados.
Acrescentam os Fioretti que foi tal a abundância de consolações
espirituais, que São Francisco, Santa Clara e os demais
irmãos mal tocaram nos alimentos, e vários deles não provaram
sequer bocado".
Não são apenas as necessidades provenientes da fome do
alimento material que reúne pessoas à mesa. As pessoas
que se amam muito precisam celebrar o encontro onde o
único alimento é a sintonia, a vibração interior, o espírito
comum, a vivência do mesmo projeto de vida e a mesma busca
do Amado.
A Fraternidade alimenta-se da presença; no coração do
outro e da outra vive a sua transcendente experiência:
"Nunca existiu união mais íntima e harmoniosa do que entre
Santa Clara e São Francisco; nunca duas almas estiveram
tão de acordo na sua maneira de apreciar as coisas da
terra e do céu. Por vezes se pergunta qual dos dois copia
o outro; tanto se parecem os seus traços e seus reflexos
que tal semelhança parece resultar de uma espécie de consangüidade
espiritual. O ideal do Pobrezinho se conservou sempre
puro naquele coração filial que guardava inalterável o
depósito de suas mais belas inspirações e, qual límpido
espelho, refletia sua mais fiel imagem. Por isso, nas
horas de desalento e de trevas, veremos Francisco regressar
aos humildes muros de São Damião, berço de sua vocação,
para buscar junto à sua filha espiritual o consolo e a
confiança de que necessita".
Francisco e Clara ensinam para nós que o humano se define
em relações. Encontrar-se é dividir e transmitir o fervor
existencial que contagia o coração. O encontro puro e
límpido de Clara e Francisco está dentro de uma forte
vivência, por isso é um dom gracioso. O forte Amor pelo
mesmo Amado aprofunda o encontro e coloca os dois nos
acontecimentos do cotidiano com maior profundidade. Isso
é que ilumina o silêncio, a fala, a mesa, o fato. A chama
do Amor se debruça sobre a cena para comemorar a experiência
do encontro; não é só um encontro que ilumina, mas que
acende!