Em 11 de agosto de 1253, Santa Clara entra na glória eterna;
já no dia seguinte seu corpo é levado para a Igreja de
São Jorge onde também repousa Francisco. No dia 3 de outubro
de 1260, o corpo é exumado e colocado na Basílica de Santa
Clara; ali permanece perto do altar com uma simples inscrição:
"Aqui jaz o corpo da Virgem Santa Clara", protegido pelo
brilho de uma lâmpada e as preces silenciosas de suas
filhas que guardaram este fato no segredo de seus corações.
Em 1849 a República Italiana escolhe Assis como sede do
governo e não tem boa relação com as instituições religiosas.
No meio de conflitos e inventários, perseguições e desordem
civil e espiritual, a Abadessa Clara Columba Angeli, resolve
procurar o corpo da venerável Mãe Clara, para que a grande
dama de Assis seja um verdadeiro sinal de paz e unidade
para um momento sofrido da história italiana. Neste mesmo
ano, o cardeal Marini, prefeito da Congregação dos Ritos,
visita Assis para a festa dos Estigmas, e, num encontro
com as Clarissas, conversam sobre o encontro dos restos
de São Francisco em 1813. A Abadessa aproveita a ocasião
e diz: " Eminência, já que o Sol deixou-se encontrar,
não é necessário que a Lua tenha também o seu lugar?"
No dia 6 de agosto de 1850 recebem autorização do governo
civil para a exumação. No dia 23 do mesmo mês, em silêncio
e sempre à noite, os trabalhos começam acompanhados pelo
vigário episcopal Luigi Alexandri, do Delegado para os
Religiosos Pe. Giuseppe Morichelli, e o especialista em
escavações Marco Rondini. Oito dias depois encontravam
o túmulo onde o corpo da santa fora depositado há 6 séculos.
No dia 23 de setembro, com a presença do Bispo de Perugia,
Giocecchino Pecci (futuro Papa Leão XIII), o químico Purgotti,
o arqueólogo Antonini e o diretor do arquivo municipal
de Assis Paolo Cesini abriram o sarcófago. Não havia nenhuma
inscrição junto com os restos mortais. O corpo de Clara
tinha o fino semblante intacto, a pele estava sombria
e bem colada aos ossos. Uma coroa de honra feita no século
XIII estava perfeita. Os ramos de tomilho que enfeitavam
o corpo permaneciam conservados. O corpo todo estava em
estado de esqueleto na disposição normal dos ossos. A
cabeça inclinada sobre o ombro esquerdo, o braço esquerdo
sobre o peito e o direito estendido ao longo do corpo.
Um fio de pó branco recobria o esqueleto. O corpo foi
erguido e colocado num relicário. Uma grande relíquia
foi mandada a Roma.
"Um Tríduo foi celebrado em ação de graças nos dias 26,
27 e 28 de setembro, depois que a urna foi aberta uma
outra vez para recobrir os ossos da Santa e lhes dar a
aparência de um corpo. Tinham sido envoltos anteriormente
por uma camada de algodão. A túnica parda, a cobertura
da cabeça branca e o véu preto foram confeccionados por
algumas senhoras desconhecidas de Assis. Colocou-se sobre
a cabeça uma coroa de flores. A urna foi então fechada
e ornamentada para a procissão solene que teve lugar na
tarde de 29 de setembro. Numa recordação comovente das
horas históricas, o corpo de Santa Clara foi conduzido
por quatro sacerdotes sob os aplausos da população, em
primeiro lugar a São Rufino e, em seguida, para uma visita
ao túmulo de São Francisco. Ao crepúsculo, as Irmãs acolheram
sua Mãe no claustro e colocaram a urna aos pés do crucifixo
que ela tanto amara em São Damião. Bem ao lado, se encontrava
ainda uma outra preciosa relíquia: a grade atrás da qual
Clara tinha recebido a Santa Comunhão. A bênção do Santíssimo
Sacramento encerrou este dia memorável."
O corpo de Clara que está hoje na basílica foi mais uma
vez restaurado. De 17 de novembro de 1986 até 12 de abril
de 1987 um paciente trabalho foi feito para tirar do corpo
da Santa um estado de viscosa humidade, devido ao clima
e aos longos anos que criaram a decomposição das partes
extremas, em particular as falanges e os dedos dos pés.
Quando examinaram o corpo, ele mantinha a mesma posição
deixada em 1850. Todo ele foi recomposto e restaurado
com tela, gesso, esmalte e silicone. A equipe que trabalhou
foi esta: Gianfranco Nolli (egiptólogo), Maria Venturi
(ortopedista), Gabrielle Nazareno (químico), Massimo Benedettucci
(escultor) acompanhados da Abadessa Madre Clara Lucia
Canova e Frei Giovanni Boccalli, Provincial de Assis.
Recompuseram o corpo e o rosto segundo os documentos da
época, mantendo a personalidade de mulher fascinante,
ardente, terna, sensível, segura e muito equilibrada.
Ao chegarmos a Assis e rezarmos diante de Clara devemos
lembrar que uma vida como a dela é sempre fecunda, nunca
se decompõe. Num coração aberto para o Absoluto, Deus
sempre deposita a sua Beleza. Diante de seu corpo temos
que ter o desejo de rezar. É preciso sempre desejar o
espírito! Rezar é abrir os olhos, abrir nossas faculdades
humanas e todo o nosso ser e deixar que Deus se estabeleça
aí. Rezar é ver e auscultar, perceber que o espírito sempre
trabalha na imagem.
Diante do corpo de Clara, é preciso redescobrir a espiritualidade
da ternura, da pequenez, da pobreza. Clara, mulher e santa,
não é um aprendizado intelectual, mas um conhecimento
afetivo. Por que Clara é bela? Porque o Espírito imprime
sempre no corpo a sua forma. O Amor pelo Esposo tomou
forma em seu corpo! Após 750 anos, cuidou-se muito dos
restos mortais de Clara para não se deixar de lembrar
a sua forma de Vida, modo como ela eternizou-se no tempo.