A
cidade de Assis, na região italiana da Úmbria,
é terra de São Francisco e um lugar símbolo
da sonhada fraternidade universal. Entre os anos 1181-82,
Mestre Rufino, Bispo de Assis, escreveu um tratado chamado
"De Bono Pacis". E um dos mais antigos textos
escritos sobre o tema da paz. Sintetizo aqui algumas idéias
de "O Bem da Paz" para refletirmos como este
texto medieval reveste-se de uma imensa atualidade.
O que é a Paz? É a quietude de uma coisa
natural, a serenidade existencial, a tranquilidade e concórdia
entre seres diferentes, um comportamento novo para o Amor.
A Paz é um grande encontro entre a vontade do Divino
e a obediência Humana; um acordo perfeito entre
espírito, sentidos, inteligência e vontade.
O que é o Bem? É acender a capacidade de
amar com boas obras. É acreditar que, para satisfazer
as necessidades fundamentais da vida, é necessário
a cooperação de todos; por isso a solidariedade
e o mútuo socorro geram segurança e diminuem
os conflitos. Se a vida é sempre dependência
formal e explícita de algo ou alguém, é
natural que se estabeleçam relacionamentos de convivência
e troca recíproca.
O tratado lembra que "é preciso trocar mármore
por madeira, metal com cereal, perfume com produtos da
terra. O soldado depende do agricultor, o agricultor lhe
dá o alimento, o superior protege o súdito
e o súdito lhe dá em troca o serviço".
Administrar bem uma troca de bens e de dons conserva a
Paz.
O Bem é a certeza de que a harmonia se restabelece
na prática do Amor, isto é, na caridade
e não no ódio e na inteligência. Paz
é dar e receber, é conviver bem com tudo
o que existe. Diz o tratado de Mestre Rufino: "Como
é belo o piso desta casa, ou seja, a superfície
da terra, revestida de flores brancas, purpúreas,
douradas, amarelas e de mil outras cores! Como é
belíssima a cobertura, isto é, a abóbada
celeste, resplendente dos coros de estrelas como um teto
adornado de pedras preciosas! Quantos depósitos
de alimentos e bebidas existem nas árvores e fontes
desta casa! Quantas perfumarias de odorosas essências
tiradas das mesmas flores e das ervas! Nesta casa, como
lâmpada para a noite, existe o esplendor da lua
e durante o dia temos o calor do sol em lugar do aparelho
para aquecer, isto é, a caldeira, que no inverno
costuma lançar vapor por meio de ofegantes chamas.
Nesta casa, em lugar de camas, estendem-se leitos de ervas
e, em vez da obediência das escravas, os elementos
oferecem um serviço espontâneo". Não
seria esta a Paz e o Bem que sonhamos e que o mundo hoje
tem sede?