Vamos retomar as palavras da Legenda de Santa Clara, n°
13:
"Com a pobreza de espírito, que é a verdadeira humildade,
harmonizava a pobreza de todas as coisas. Logo no começo
de sua conversão, desfez-se da herança paterna que recebera
e, sem guardar nada para si, deu tudo aos pobres. Depois,
deixando o mundo lá fora, com a alma enriquecida interiormente,
correu livre, sem bolsa, atrás de Cristo. Fez um pacto
tão forte com a santa pobreza, tanto amor lhe consagrou,
que nada queria possuir nem permitiu que suas filhas possuíssem,
senão o Cristo Senhor. Achava que a preciosíssima pérola
do desejo do céu, que comprara depois de vender tudo,
não podia ser partilhada com o cuidado devorador dos bens
temporais.
Em alocuções frequentes, inculcava nas Irmãs que a comunidade
seria agradável a Deus na medida em que fosse opulenta
de pobreza e que, munida com a torre da mais alta pobreza,
seria estável para sempre. No pequeno ninho da pobreza,
animava-as a conformar-se com o Cristo pobre, deitado
pela mãe pobrezinha em mísero presépio. Pois afivelava
o peito com essa singular lembrança, jóia de ouro, para
que o pó terreno não passasse para o interior".
E no n°14 da mesma Legenda temos o pedido do "Privilégio
da Pobreza" para salvar o verdadeiro fundamento
da ordem:
"Querendo destacar sua ordem com o título da pobreza,
solicitou de Inocêncio III, de feliz memória, o privilégio
da pobreza. Esse varão magnífico, congratulando-se por
tão grande fervor da virgem, disse que o pedido era raro,
pois jamais tal privilégio tinha sido pedido à Sé Apostólica.
E para corresponder ao insólito pedido com insólito favor,
o Pontífice redigiu de próprio punho com muito gosto,
o primeiro rascunho do pretendido privilégio.
O senhor papa Gregório, de feliz memória, digno de veneração
pelos méritos pessoais e mais ainda pelo cargo, amava
com especial afeto paterno a nossa santa. Quando tentou
convencê-la a aceitar algumas propriedades que oferecia
com liberalidade pelas circunstâncias e perigos dos tempos,
ela resistiu com ânimo fortíssimo e não concordou, absolutamente.
Respondeu o Papa: "Se temes pelo voto, nós te desligamos
do voto", mas ela disse: "Pai santo, por preço algum quero
ser dispensada de seguir Cristo para sempre".
Recebia muito alegremente as esmolas em fragmentos e os
pedacinhos de pão levados pelos esmoleres. Parecia ficar
triste ao ver pães inteiros e pulava de alegria diante
dos restos.
Para que falar tanto? Ela se esforçava por conformar-se
na mais perfeita pobreza com o pobre Crucificado, para
que nada de perecível afastasse a amante do amado ou a
impedisse de correr com o Senhor. Conto dois casos admiráveis
que a namorada da pobreza mereceu realizar".
E vamos deixar registrado aqui o texto de 1228, do Papa
Gregório IX que copia o "Privilegium" dado por Inocêncio
III em 1216: "Gregório, bispo, servo dos servos de
Deus, às diletas filhas em Cristo, Clara e demais servas
de Cristo, reunidas na igreja de São Damião, diocese de
Assis, saudação e bênção apostólica.
Como todos sabem, desejando dedicar-vos unicamente a Deus,
renunciastes a todo desejo das coisas temporais, por isso,
tendo vendido tudo e dado aos pobres, propondes não ter
propriedade alguma, aderindo em tudo aos passos daquele
que por nós se fez pobre e é o Caminho, a Verdade e a
Vida, e nem a falta das coisas vos afasta desse propósito,
pois a esquerda do Esposo celeste está sob a vossa cabeça
para sustentar o que é fraco em vosso corpo, que submetestes
à lei do espírito com ordenada caridade. Naturalmente,
aquele que alimenta os passarinhos do céu e veste os lírios
do campo não vos faltará para o alimento e a roupa, até
que Ele mesmo, passando, vos sirva na eternidade, quando
sua destra vos abraçará mais felizmente na plenitude da
visão.
Assim, confirmamos como pedistes, com o favor apostólico,
o vosso propósito da mais alta pobreza, concedendo-vos
em força deste documento que não possais ser por ninguém
obrigadas a receber propriedades. Por isso, a absolutamente
ninguém seja permitido infringir esta página de nossa
concessão ou agir contra ela com temerária ousadia. Se
alguém presumir fazê-lo, saiba que incorrerá na indignação
de Deus Onipotente e dos bem-aventurados Apóstolos Pedro
e Paulo. Dado em Perusa, aos 17 de setembro, no segundo
ano do nosso pontificado".
Clara de Assis abraçou a Pobreza como um programa de vida.
Podemos dizer que ela e Francisco são os únicos verdadeiramente
pobres do nosso movimento; nós somos apenas caricatura,
pois não conseguimos mais manter a coerência de uma escolha.
Para nós, a pobreza é apenas um belo discurso, pois corremos
atrás de outros privilégios, porém,Clara sentiu e viveu
a experiência do nada, completamente despojada, vazia
de tudo, sem dramaticidade, e com muita força entregou-se
à ação divina. Fez do seu Mosteiro o lugar da simplicidade
para estar sempre nascendo a cada instante. É na simplicidade
e na harmonia que se consegue realizar grandes coisas.
No tempo de Clara, a própria eclesiologia e a sociedade
achava que um grupo desprotegido de mulheres não sobreviveria
sem os cuidados protetores da nobreza, da hierarquia e
dos benfeitores. Mosteiro bom é aquele que armazena doações.
Clara ensinou a todos que temos que aprender a dar mais
do que dotes e bens materiais, temos que aprender a dar
o coração. Ela e suas Irmãs tornaram-se pobres e fortes
porque não tinham medo de amar.
O "sine-proprium" é o Amor que nos visita, e nesta visita
ele vai nos dizer como nos colocamos na posse do uso e
dos bens. Só quem ama é pobre. É preciso aprender com
Clara a fazer do coração um "sine-proprium" para encontrar
a felicidade. A felicidade não é conquistar, mas repartir.
Aquelas Damas Pobres de São Damião renunciaram os coloridos
e pomposos trajes da nobreza e vestiram o hábito penitente.
As vestes muitas vezes cobrem o corpo, mas não dão a beleza
do corpo, mas somente a beleza exuberante das vestes;
assim como as muitas palavras que dizemos de Deus não
nos dizem Deus, mas apenas do rumor das palavras. Clara
e suas Irmãs revestiram-se do Espírito e criaram uma espiritualidade
sensível porque tinha as marcas da renúncia. Toda escolha
radical implica renúncia. Quando o franciscanismo percebe-se
na pobreza do Amor, busca então o concreto do Amor na
riqueza de Clara!