A
utopia da Páscoa
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quaestionis: Lembra-te, ó Homem, de que é
normal ter medo de viver, assim como é normal,
mesmo tendo vivido santa e virtuosamente, ter medo de
morrer. Ter medo é uma tônica inescapável
da existência e um componente intrínseco
da vida humana.
Gente jovem, em geral, tem vários medos: medo
de não acertar na escolha profissional e de não
ser um vencedor (a winner) aos olhos do mundo; medo
de não ser suficientemente charmoso para atrair
os olhares de uma desejada conquista; medo de levantar
a voz numa assembléia sob o risco de fazer feio
e ser desconsiderado; medo de, em início de carreira,
não ter dinheiro para saldar simples dívidas
mensais; medo de amar a pessoa errada e de não
ser correspondido pela pessoa certa e sonhada, e assim
por diante. Medos! Esses medos existenciais são
ponderáveis, mas não necessariamente definitivos
e absolutos. São medos pontuais, sazonais, próprios
de um período da vida.
Os grandes medos, os definitivos e absolutos, chegam,
normalmente, mais tarde, no ocaso, no outono da vida,
"quando setembro chegar", como diz a canção.
Quando os cabelos começam a ficar brancos, os
passos mais lentos e as rugas mais visíveis,
aí, então, começam os grandes medos:
medo, não de pessoas e coisas, mas do destino
da vida. E, na medida em que este medo toma corpo, a
pessoa experimenta um outro tipo de medo: o medo do
deserto e da solidão, onde só ela pode
dar uma resposta concreta e condizente à aporia
de viver. Tal medo não deixa brechas e alternativas.
É redondo e assustador, premente e implacável,
deixando secas a boca e a alma. Já chegaste ao
outono da vida?
Enquanto os jovens se perguntam sobre o dia de hoje,
os idosos procuram esquecer-se ou conformar-se com a
proximidade do dia de amanhã. Assim é
a vida. Os jovens se esforçam por aprender a
como bem viver. Os velhos tentam aprender, com medo,
a indesejada arte de morrer.
A utopia da Páscoa: Quando os grandes medos
se avolumam, entra em cena a utopia da páscoa.
É a utopia da esperança que não
engana (Rm 5,5) e da fé que tem certezas. Diante
das dificuldades da vida e do espantalho da morte, a
utopia da páscoa é uma força de
vida e de confiança no que vai, inevitavelmente,
acontecer: o destino de nossa vida e o desenlace final.
Não é de hoje. O homem sempre se perguntou
sobre a morte e sobre o além. Há algo
depois da morte? Se há, como será esse
algo? O que acontece quando a pessoa fecha definitivamente
os olhos? Será o cemitério a última
morada humana, ou existe um céu e/ou um inferno?
Por outro lado, todos, ou quase todos, vivem angustiados
pela desconfiança de não estarem devidamente
preparados para a grande viagem e para o encontro cara
a cara com Deus. Essas questões não suscitam
medos meramente banais. São perguntas cruéis
que somente pessoas pernosticamente alienadas não
chegam a se colocar.
Para que não te angusties em demasia, lê,
ó Homem, o que escreveu o escritor canadense,
Joseph Folliet: "Quando chegares ao fim da noite,
não encontrarás mais a noite e, sim, a
aurora. Quando chegares ao fim do inverno, não
encontrarás mais o inverno e, sim, a primavera.
Quando chegares ao fim do desespero, não encontrarás
mais o desespero e, sim, a esperança. Na morte,
não encontrarás a morte e, sim, a vida.
Quando chegares ao fim de tua humanidade, não
encontrarás mais o homem e, sim, o Homem-Deus
ressuscitado".
Da outra vida, ninguém, senão Jesus,
voltou ressuscitado, com um corpo glorificado. (Lázaro
foi apenas revivificado!). Jesus, não. Segundo
as Escrituras, a mão todo poderosa de Deus ressuscitou
seu Filho (At 2,24; 3,15; 5,30), que apareceu aos discípulos
e a um grande número de pessoas que fizeram a
experiência do Ressuscitado. Seus corações,
então, se acaloraram (Lc 24,32), perderam o medo
e começaram a testemunhar, impavidamente, que
Jesus estava verdadeiramente vivo.
"A paixão do Salvador", ensina um
Autor Anônimo, em data que se perdeu nas brumas
do passado, "é a salvação
da vida humana. Ele quis morrer por nós, a fim
de que, crendo nele, vivamos para sempre. Quis, por
algum tempo, tornar-se o que somos, para que, aceitando
sua promessa, vivamos com ele eternamente. É
esta a imensa graça dos mistérios celestes.
É este o dom da Páscoa, esta esperada
festa do ano, o início do florescimento de tudo".
Para quem deposita sua fé no Cristo da páscoa,
a esperança ilumina a vida e a morte. Vista de
cá, a morte é uma porta escura. Uma vez
ultrapassada, no entanto, diz a fé, é
um mergulho na luz e nos braços de Deus. Deus
não quer a morte do pecador, mas que se converta
e viva. Vida e morte podem até acabar num fracasso,
mas, à luz da esperança, é certo
que Deus não entregará à corrupção
aqueles que depositaram nele sua confiança. Em
quem crê e espera, Deus terá sempre sucesso.
"A virtude que mais aprecio, diz Deus", segundo
o poeta francês, Charles Péguy, "é
a esperança". Na vida, a esperança
é a virtude da ressurreição, que
reforça nos peregrinos a utopia da Páscoa.
Os eleitos de Deus, em seguimento a Jesus, ressuscitarão
um dia, é o que proclama, alimenta e garante
a esperança. Ninguém se corromperá
para sempre. O corpo descerá à sepultura,
mas haverá a ressurreição da carne
e a glorificação da pessoa. Assim como
Deus sustenta, permanentemente, o milagre da vida, assim
abraçará, como um Pai que espera, seus
filhos que o procuram por entre os percalços
da vida e as trevas da morte.
O grande bispo Santo Agostinho afirma isto com palavras
definitivas: "Quando Cristo, que é nossa
vida, aparecer, então também aparecereis
com ele na glória". E estas são palavras
do apóstolo. "A quem ainda não morreu,
digo-lhe que morra. A quem ainda vive mal, digo-lhe
que se converta. Se vivia mal, mas já não
vive assim, morreu; se vive bem, ressuscitou. Agora,
pois, enquanto vivemos nesta carne corruptível,
morramos com Cristo pela conversão dos costumes,
vivamos com Cristo pelo amor da justiça. Não
havemos de receber vida bem-aventurada, senão
quando chegarmos Àquele que veio até nós
e quando começarmos a viver com Aquele que por
nós morreu".
Mas para que isso aconteça, lembra-te, ó
Homem, de que deves completar, em tua vida, a paixão
de Cristo. Os medos de viver terão que ser assumidos
na esperança e na fé. As durezas e rejeições
do dia-a-dia terão que ser resgatadas por amor
e com amor.
A utopia da páscoa é a utopia da esperança,
tem o canto da esperança. A Liturgia da páscoa,
por isso, começa com o grande canto do Exsultet.
Não dá para não cantar quando a
grande utopia da vida se torna realidade, quando a luz
de Cristo ressuscitado enche as igrejas e ilumina rostos
e corações.
O Ressuscitado volta ao reino dos vivos com uma mensagem
de paz e de perdão. Perdoa os que o traíram,
negaram e foram fracos e covardes. Enche-os de júbilo
e os torna destinatários de uma nova vida. Tudo
recomeça e pode recomeçar a cada dia.
Nada está perdido. Com a páscoa, abrem-se
as portas do paraíso perdido e há uma
promessa de felicidade. Os medrosos e desanimados se
enchem de esperança: é esta a utopia da
páscoa.
Por isso, ó Homem, deixa que esta utopia te
alimente, te ilumine e te transforme. Não tenhas
medo das trevas da vida ou da morte. Poderão
apagar-se todas as luzes da terra e do céu. Se
a luz de Cristo brilha, sabemos que Deus existe, que
todos somos irmãos e que ninguém precisa
ter medo. Segura esta luz em tuas mãos, vive
com ela e olha para ela. Que ela ilumine teus caminhos,
aqueça teu coração e te prepare
para o grande abraço de reconciliação
com Deus e com o mundo.
Dentro de ti, porque és um ressuscitado, que
aconteça, então, o mundo, o mundo de Deus
e de teus semelhantes. Não hesites em subir,
corajosamente, as escadarias do Templo de Jerusalém
para proclamar a utopia da páscoa. Sem medo.
Na alegria. Sem condenações. Cheio do
Espírito Santo.
Vive a glória da páscoa. Sem meias medidas.
Sem discriminações. Iluminado. Na exultação
da vitória. Faze a experiência do Ressuscitado.
Movido pela luz da páscoa, reparte teu pão
com os famintos. Canta com os mudos e abatidos. Abraça
os pobres, os não amados, os rejeitados da sociedade.
Quem só vive pensando no céu, acaba perdendo
o céu e a terra. Mas quem lava os pés
dos irmãos, torna-se, como Cristo, mestre e senhor
da vida. Colherá os aplausos do céu e
a admiração da terra. E não precisará
ter medo de morrer, porque o Deus da vida, que foi o
autor da ressurreição de Jesus, é
também o eterno avalista da utopia que, na expressão
de Dante, move o sol e as demais estrelas.
(Do livro A Vida é um Luxo. O Grande Luxo é
Viver, a sair pela VOZES).
Frei Neylor J. Tonin
Irmão menor e pecador
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