Um
cartaz do tamanho do céu
Lembra-te,
ó Homem, de que 30 de julho é o Dia Nacional
do Cartaz. Com certa razão, disse um amigo meu:
Tem dia para tudo. Entre muitos e muitos outros,
tem o Dia do Tintureiro (3 de agosto), o Dia das Devoluções
(31 de dezembro), o Dia do Perdão (18 de setembro),
o Dia do Trote e da Mentira (1o. de abril), o Dia do Protesto
(14 de agosto), o Dia da Sogra (28 de abril), o Dia Internacional
para a Preservação da Camada de Ozônio
(16 de setembro), o Dia do Orquidófilo (22 de junho),
o Dia do Silêncio (7 de maio), o Dia do Frevo (14
de setembro), o Dia Nacional do Choro (23 de abril), o
Dia do Samba (2 de dezembro), o Dia Nacional dos Vereadores
(1o. de outubro), o Dia do Prefeito (3 de outubro), o
Dia do Palhaço (10 de dezembro), o Dia do Vizinho
(23 de dezembro), o Dia Internacional da Pizza (10 de
julho), o Dia do Trigo (10 de novembro), o Dia do Cacau
(26 de março), o Dia do Café (24 de maio)
e o Dia da Banana (22 de setembro). Será que tem
o Dia do Abacaxi e o do Pepino?.Que importa? Para
quem está feliz, qualquer dia é sempre um
dia de festa. Ao contrário, para quem está
enfezado, até os dias de carnaval são chatos
e sem graça.
30 de julho é, no Brasil, o Dia Nacional do
Cartaz. Que tal imaginarmos o céu como um enorme
cartaz, que pudesse ser lido por todo o mundo, com a
chance de escrevermos nele o que bem quiséssemos?
O que tu escreverias?
Há quem, cansado com a violência das grandes
cidades e muito irado, simplesmente escreveria: BASTA,
palavra que, aliás, já se encontra em
muitas janelas de casas e apartamentos, expressando
a consternação e a impaciência de
uma classe média, até há pouco
tranqüila, mas que já começa a sentir
falta de segurança e proteção.
Há quem, diante da estupidez da guerra, que
acompanha a humanidade desde sempre, simplesmente escreveria:
PAZ! QUEREMOS PAZ! Em verdade, sem paz, a humanidade
está mais perto do inferno do que do céu.
Imagino que uma pessoa religiosa escreveria: DEUS É
PAI, ou DEUS TE AMA. Se aceitamos que o mundo é
uma grande casa, que bom seria se todos tivéssemos
um mesmo Deus, que fosse pai e salvador de todos! A
vida, então, dificilmente mergulharia no flagelo
das guerras e da loucura dos megalomaníacos.
Um namorado, certamente, circundaria com um coração
o nome de sua bem-amada. Uma criança, quem sabe,
o nome de sua escola ou professora. Um doente, uma pequena
oração pedindo a Deus a cura de seus males.
Quantos ofendidos escreveriam: EU TE PERDÔO,
e quantos velhinhos: A VIDA É BELA! Um sábio
se lembraria do título do livro da autora norte-americana,
Barry Stevens, e escreveria: NÃO APRESSE O RIO.
ELE CORRE SOZINHO.
E, tu, o que escreverias? Eu, como franciscano, escreveria:
SOMOS TODOS IRMÃOS. Não somos outra coisa.
Lembra-te de Jesus! Ele veio para alargar os limites
geográficos, culturais e sociais do Povo Eleito,
anunciando que já não haveria mais gregos
ou judeus, circuncisos ou incircuncisos, incultos, selvagens,
escravos ou livres (Cl 3,11), mas todos, a partir
de seu evangelho e do amor de sua cruz, seriam simples
e lindamente irmãos.
Ser amigo é uma escolha. Ser irmão é
uma marca e um destino. O amigo é uma conquista
do tempo. O irmão é um presente do céu.
O amigo, quando nos ama de fato, nos chama de irmão.
O irmão, quando é nosso amigo, diz simplesmente:
Tu és meu irmão!
São Francisco de Assis não quis fundar
uma Ordem ou uma Congregação de gente
especial, mas apenas uma Fraternidade de irmãos.
Revelou-se quão predestinado era e a importância
de sua intuição, quando, com simplicidade,
afirmou: Deus me deu irmãos. Na fraternidade,
ninguém deveria chamar-se prior ou superior.
Todos seriam somente irmãos.
Um dia, falando com um pobre, perguntei-lhe o que escreveria
se o céu fosse um enorme cartaz, e ele me disse:
Escreveria simplesmente a palavra PÃO.
UM PÃO, POR AMOR DE DEUS!
Confesso-te que me comovi e fiquei a pensar, por um
lado, nas mil padarias que existem nos bairros e nos
shoppings de nossas cidades e, por outro, na fome de
quem não tem uma moeda para comprar um mísero
pão. Lembrei-me da sinistra estatística,
segundo a qual existem, em nosso mundo, 850 milhões
de pessoas que dormem, todas as noites, com o estômago
roncando de fome por falta do que comer. Nosso mundo
poderia alimentar 12 bilhões de pessoas e não
alimenta nem a metade! E, isso, por insensibilidade!
Fiquei pensando nas outras mensagens, todas lindas
e verdadeiras, todas dignas de serem escritas num cartaz
do tamanho do céu. E me perguntei: Para quem
tem fome, o que significa Deus é Pai
e todos somos irmãos?
Assomou-me diante dos olhos o Juízo Final, no
qual Jesus se identificará com os pobres a quem
damos ou não comida, com os nus a quem damos
ou não roupas, com os miseráveis a quem,
na caridade, acudimos ou não. E fiquei com vontade
de diminuir todas as outras escritas, dando destaque
apenas ao pedido do pobre por pão, por um pão,
por amor de Deus.
Não te faças insensível, ó
Homem, diante da miséria de tantos irmãos!
Escuta seu clamor e grava esta humilde advertência:
quando te encontrares em tua igreja e souberes que teu
irmão, lá fora, está com fome,
deixa tua oferta junto ao altar e vai primeiro saciar-lhe
a fome. Depois, volta e oferece a Deus teu coração,
que já o deste a quem, como tu, é filho
do mesmo Pai que está para além do grande
cartaz que todos pintamos no céu.
Como disse, lindamente, a Irmã Emmanuelle em
seu livro A Riqueza da Pobreza: Possamos todos...
avançar de mãos dadas, nas estradas da
fraternidade. Ela é o caminho que cumula o coração
do homem. Ela é o caminho que cumula o coração
de Deus. Ela é exultação.
Frei Neylor J. Tonin
Irmão menor e pecador
|