Lutar
com Deus
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quaestionis: A Bíblia é um tesouro de
sabedoria e de humanidades. Conta uma grande história
e muitas outras histórias menores com nome e endereço,
exalta a epopéia de um povo e adora o Deus único
e verdadeiro, não deixa de consolar os aflitos
e de alimentar as esperanças dos anawin (os desconsiderados
da sociedade), encoraja os amedrontados e aplaude os intimoratos,
condena os ímpios e maus e abençoa os justos.
E tem uma infinidade de histórias com a nossa cara,
histórias que retratam os mais abscônditos
sonhos e o modo peculiar de ser da pessoa humana daquele
tempo, de hoje e de sempre.
Um dos grandes desejos dos homens bíblicos foi
o de conhecer Deus, de tocá-lo, de tê-lo
como hóspede de sua tenda e de, finalmente, ver
seu rosto e saber seu nome. No fundo, queriam ter a
certeza de que Deus existia, que não era apenas
uma projeção do espírito humano
atemorizado diante das forças do universo e da
cara dura e fria da morte. Para ter essa certeza, não
lhes sobrou outro caminho que o da luta. E eles não
se negaram a lutar para ter certeza de que Deus existia
e para ver sua face.
De relance, vejamos algumas histórias. A de Abraão,
por exemplo, levanta uma grande interrogação
sobre as incertezas da vida e a inescapabilidade da
morte. Se quem morre não tem descendentes, como
Abraão não tinha, o que sobrará
dele senão a frustração de um fim
que termina num nada? Diante deste medo, Abraão,
ao pé do carvalho de Mambré, olhava para
o céu, interrogando-se e suplicando pela ajuda
do Deus "único e verdadeiro".
Para ele, o fato intransponível era Sara, sua
esposa, bastante idosa, que não lhe podia dar
um filho, que fosse o mantenedor e continuador de sua
fortuna e história. Olhava por isso para o céu,
ao mesmo tempo, confiante e temeroso, acreditando que
algo poderia acontecer, embora não soubesse nem
como nem quando, nem graças a quê e por
quem.
Antes que Deus entrasse em cena, recorre ao expediente
fácil e demasiadamente humano de garantir a continuação
de sua memória, valendo-se dos serviços
de sua escrava Agar. Mas Deus lhe garante que não
será Ismael, o filho da escrava, seu herdeiro,
mas o filho que sua legítima mulher lhe dará
dentro de um ano. A legítima mulher, a velha
Sara, escondida por detrás dos panos da tenda,
não pode controlar o riso.
Na continuação desta história,
há as figuras de seu filho Isaac e de seus dois
netos, Esaú e Jacó, que disputam, com
glutonice e mentiras, a bênção da
primogenitura. Jacó mente duplamente e engana
a cegueira de seu pai Isaac, fazendo-se passar por Esaú.
Com este expediente, novamente fácil e demasiadamente
humano, usurpa a bênção e se faz
protagonista duma história que envolve Deus e
suas promessas.
Dando um salto de 430 anos de exílio, a história
dos descendentes de Abraão se defronta com um
líder gago que é destinado por Deus a
libertar o povo da escravidão no Egito. Moisés
é arrancado do pastoreio tranqüilo dos rebanhos
de seu sogro Jetro por uma voz que saía duma
Sarça Ardente e que o desafiava a enfrentar o
Faraó, seus cavalos e cavaleiros. Se já
gaguejava antes, muito mais gaguejaria agora.
Poderíamos continuar lembrando as histórias
de Saul, Davi, Judite, dos irmãos Macabeus e
de tantos outros. De Paulo, Pedro, Estêvão
já no Novo Testamento. Importante é recordar
que o Deus bíblico sempre se apresenta, ao mesmo
tempo, como graça poderosa que fala, atua e se
revela e como um contendor do qual não se pode
fugir. Estes dois aspectos - graça e luta - são
marcas inegáveis e inconfundíveis de qualquer
itinerário espiritual humano.
Na vida das pessoas e na história dos povos,
Deus é acolhido, quando graça, com festas
e danças; quando luta, no entanto, é temido
e evitado. Contudo, é na luta, tanto quanto na
graça, que Deus deixa suas marcas. É preciso,
por isso, lutar com Ele, lutar física e espiritu-almente,
com alma e corpo. É preciso ir criando e moldando,
através da graça e da luta, o caráter
de Deus em nós.
Pulemos para os dias de hoje, em que os faraós
são outros, mas não menos cruéis
e totalitários. As nossas dúvidas são
as eternas dúvidas de sempre. Deus... onde está?
Deus... onde se esconde? Em que tenda continua se fazendo
hóspede e de que Sarça continua fa-lando?
Num mundo de sempre maiores facilidades, em que a única
coisa difícil continua sendo amar e crer (além
de sofrer), é preciso repropor o caráter
de luta da vida espiritual e religiosa. Deus não
se contenta com pouco nem com a lógica das dúvidas
humanas, assim como abomina a execução
apenas ritual de compromissos religiosos que levam as
pessoas à igreja, mas as exime da luta em favor
do projeto maior da história. Ter fé em
Deus comporta lutar dolorosamente com o invisível
e obedecer a ordens aparentemente absurdas.
Não basta, por isso, assistir a missas e rezar
o terço, dar esmolas e fazer jejuns, derramar-se
em louvores e danças de exultação.
Tudo isto poderá ser importante e necessário,
mas é, segundo os caminhos bíblicos, insuficiente.
É preciso mais. É preciso agarrar Deus,
como Jacó, e lutar com Ele até "o
romper da aurora". É preciso buscar conhecer
seu rosto e nome, como Moisés, mesmo não
o vendo nem sabendo como se chama. É preciso
estar disposto a sacrificar o filho mais querido, como
Abraão, mesmo que isto custe a possível
morte de nossas esperanças.
Viver para Deus e com Deus é uma luta, bonita
e crucificante, da qual sairemos sempre como dominados
e, só finalmente, como vencedores. Nosso itinerário
com Ele, será, num primeiro momento, de festa
e terá o doce sabor do mel, encherá de
gozo o espírito e de leveza nosso interior. Enquanto
só acontecer isso, enquanto nossa relação
com Ele não se fizer luta, dolorosa e crucificada,
ainda não podemos dizer que temos uma fé
adulta e ma-dura.
Deus chega a nós como graça, pois sua
natureza não pode ser outra coisa: Ele é
graça, so-mente graça, sempre e unicamente
e nada mais do que graça. Esta graça,
aliás, tem até um nome histórico:
Jesus. E nós, cheios da graça de Deus,
chegamos a Ele pelas graças da fé, do
amor, da luta e da cruz.
É verdade que há mil formas de chegar
a Deus, mas a forma mais sentida e menos enganosa é
a da luta e da cruz. Uma pessoa só tem sua fé
verdadeiramente testada na luta por Deus, quando subir
e permanecer no alto de uma cruz. Enquanto reza e dança,
enquanto segue o Cristo da doutrina e o aplaude como
miraculoso salvador, ainda não é inegavelmente
de Deus. De Deus ela é quando faz um ato de fé
em seu Senhor crucificado.
A esta altura, devemos elucidar um equívoco
ocorrente na espiritualidade: não é a
luta que, pura e simplesmente, nos salva. Ela é,
sem dúvida, engrandecedora do ser humano, mas
não o leva para além dos merecidos aplausos
que granjeia. Chamados à luta, temos que admitir
que somos mais do que os esforços que fazemos.
Pelo contrário, os esforços são
até uma parte ínfima de nossas vidas.
Comparada a um rio, a vida vai nos levando em suas águas,
mesmo que tenhamos que nadar bravamente. A força
do rio, mais do que nossos esforços, vai nos
levando correnteza abaixo em direção ao
gran-de mar. Mas não se pode deixar de bracejar,
evitando o risco de afogamento prematuro.
Religiosamente, a compreensão que se tem da
vida espiritual passa necessariamente pela luta. Depois
da queda original, não se pode chegar à
perfeição se não mediante luta
pelo bem e pela verdade. E, ainda mais, por causa da
fragilidade humana, necessitamos de um mediador que
não sejamos nós mesmos. Nosso destino
escapa ao poder finito de nossas mãos e nunca
chegaremos para além dos contrafortes da morte
senão pela gratuidade de um amor onipotente que
nos ama infinitamente e que santifica e resgata nosso
tempo e enve-lhecimento inevitável.
A falta de luta na vida religiosa apresenta dois tristes
sintomas: o de seu agüamento e o da revitalização
do demônio. É isto que se constata em pessoas
sem musculatura espiritual. Mas a luta pela grandeza
religiosa não pode erradamente ser apenas moral,
ou seja, não se pode, por princípio, viver
em função de demônios a serem vencidos
a ferro e fogo. A luta humana é com Deus e por
Deus. É um ato de envolvimento com o divino e
de radical iden-tificação com Ele. Caso
contrário, dar-se-á ao diabo um status
que não tem e cometer-se-á, por ignorância,
contra Deus, uma ofensa de insanáveis danos.
A luta, de que falamos, é também moral,
sendo essencialmente religiosa e relacional. É
de amor a Deus e por Deus. Deus é nosso campo
de batalha e o guerreiro que temos de enfren-tar até
o romper da aurora. Como Jacó, sairemos certamente
mancos desta luta. Mancos, mas salvos; machucados, mas
engrandecidos e agraciados.
Frei Neylor J. Tonin
Irmão menor e pecador
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