Um
pouco de espiritualidade
Status
quaestionis: Tanto quanto a Psicologia, também
a Espiritualidade, como ciência e florescimento
da vida, pensa no ser humano como destinatário
privilegiado e possível casa da felicidade. Seu
quartinho especial chama-se coração.
Grandes Mestres Espirituais sempre se fizeram sensíveis
a essa profunda aspiração do cora-ção
humano: ser feliz. Esmeraram-se em refletir sobre ela,
em definir-lhe a natureza, denunciando possíveis
engodos, que chamaram de tentações, e
propondo comportamentos pertinentes, que chamaram de
virtudes, à sua realização.
Na Espiritualidade concentra-se o que de melhor conhecemos
da sabedoria humana. De Jesus, seu mais ínclito
expoente, diz-se que foi a encarnação
e revelação da sabedoria de Deus. Nele
se deram as mãos duas realidades, a saber: o
paraíso perdido, que ele reabriu com seu sangue,
e as promessas do Reino dos Céus, que ele anunciou
com palavras e con-firmou com milagres.
Se, em Jesus, a vida espiritual conheceu sua mais excelente
expressão, não deixou, igualmente, de
brilhar em grandes e conhecidos homens ou mulheres que
criaram escolas de espiritualidade e em pessoas simples
e anônimas que foram e são, indiscutivelmente,
mestras da arte de viver espiritualmente.
É escusado admitir que há muitas Espiritualidades,
além da cristã. Todas elas, enquanto humanas,
são legitimamente sadias e caminhos a serem seguidos
e perseguidos com denodo e segurança.
Como pessoas, estamos abertos, na admiração,
a todas experiências espirituais. Não é
pre-ciso ser cristão para dizer que se deve rezar
sem neuroses, morrer sem desespero e não cul-par
Deus pelo que nos acontece. Não é também
preciso ser cristão para saber o quanto é
bom perdoar, corrigir o que está errado e não
idolatrar o diabo.
Como cristãos, encareceremos, com alegria, a
importância de alimentar os sentimentos de Cristo,
almejando o ideal duma santidade sem rabugices e refletindo
sobre os dolorosos e beatificantes caminhos de crer
na Palavra de Deus, sem parcimônia e de olhos
fechados.
Não dá para ter espiritualidade cristã
sem ter em Cristo o mestre de nosso itinerário
espiritual, sem ter fé em suas palavras ou nos
destinos humanos a quem ele serviu e exaltou, sem fazer
ascese por amor a ele e ao seu Reino. Quando alguém,
conscientemente, se entrega ao itinerário do
crescimento espiritual, mudam-se seus horizontes e aprofundam-se
seus compromissos com o que lhe é superior.
A verdadeira Espiritualidade, assim como a boa Psicologia,
tem, no fundo, um discurso que aponta para o paraíso
perdido e apresenta propostas e caminhos de felicidade.
Uma Espiritualidade que não conhecesse o endereço
da Casa da Felicidade, mas teimasse em entristecer as
pessoas, seria falsa.
Estou convencido que a pior estupidez humana é
a da guerra que mata a vida e que o supremo bem da vida
é a paz. É isto o que prega a Espiritualidade
dos grandes mestres: que vivamos em paz, que nos amemos
como irmãos e que, em paz, honremos o santo nome
de Deus. Sem paz não dá para ajoelhar-se
numa igreja nem fazer a festa da vida. Hoje, como sempre,
os sonhos do amor procuram o endereço da casa
da Paz. E só com paz no coração
é possível ter espiritualidade e ser espiritual.
1. Ter espiritualidade e ser espiritual
As Igrejas, em geral, falam muito da Espiritualidade
e todas as religiões oferecem a seus seguidores
um itinerário de vida espiritual. Bastaria lembrar
Buda, Confúcio, Moisés, Maomé,
Jesus, para lembrar que há muitas Espiritualidades
e muitos modos de ser espiritu-al, pensando, entendendo
e vivendo a vida. Todos propõem o mesmo ideal:
chegar a uma plenitude. Os caminhos, no entanto, são
bastante diversos.
O grande teólogo e místico franciscano,
São Boaventura, escreveu, no século XIII,
um be-líssimo livro sobre a experiência
de Deus, intitulado Itinerarium Mentis in Deum (Itinerário
da Mente para Deus). A Editora VOZES publicou, na coleção
"Herança Espiritual da Humanidade",
alguns excelentes estudos que seriam de grande proveito
para os interessados em Espiritualidade: Budismo, de
Dennis Gira, Islamismo, de Jacques Jomier, Espiritualidade
Cristã, de Jesús Espeja e Peregrinos Russos
e Andarilhos Místicos, de Mi-chel Evdokimov.
Aliás, uma das conseqüências da agitada
e estressante vida moderna parece ser a do reflorescimento
de uma vida espiritual mais intensa.
Mas antes de olhar para os livros, talvez seja útil
à pessoa contemplar e entender seu próprio
mistério ou complexidade, formada de corpo e
espírito. Pesada por ser corpo e com raízes
para não perder a identidade, ela é também
leve e rica por ter espírito e asas para insuspeitados
vôos, que a fazem sofrida e altaneira diante das
pulsões instintivas do bicho que vive dentro
dela.
Um e outro, corpo e espírito, somos nós.
Não somos só corpo nem só espírito.
Somos os dois somados, interligados, interdependentes,
fusionados e amalgamados, em permanente comunhão
e conflito, no qual o corpo se faz sempre mais exigente
e nunca satisfeito e o espírito luta para não
soçobrar no desafio de compor com o irmão
corpo, sem desequilíbrios, esta difícil
unidade.
A espiritualidade tem tudo a ver com esta complexa
convivência entre corpo e espírito que,
quando não consegue ser integrada, nos torna
complicados. A pessoa humana não é um
corpo desespiritualizado nem um espírito desencarnado.
O modo como trabalhamos esta dualidade, rica e trágica,
complexa e difícil de ser integrada, é
que, finalmente, definirá nossa espiritualidade.
Ser simplesmente gente já é uma experiência
espiritual. Os anjos também são espirituais,
mas de outro jeito. O nosso jeito é humano, com
corpo e alma, com matéria e espírito,
com definições problemáticas e
sentimentos desencontrados, com tempo que se esvai e
eternida-de que nos assusta. A espiritualidade, por
isso, que tem no espírito seu princípio
de qualifi-cação, expressa-se eloqüentemente
no corpo e somos espirituais na totalidade do nosso
ser, por dentro e por fora, no corpo e no espírito,
com um e outro.
A força espiritual de uma pessoa se mede pelo
grau de intensidade com que faz algo ou como vive os
ideais e suas relações. Quanto mais a
pessoa se entrega, de corpo e alma, a alguma coisa,
ação ou pessoa, mais espiritual ela o
é. É muito espiritual, por conseguinte,
quem é muito intenso e pouco espiritual quem
é melancolicamente superficial.
Alguém pode ser muito espiritual quando trabalha,
faz esporte, convive em família ou vai a uma
igreja. Pode também ser minimamente espiritual
quando reza, come ou faz amor. Bem entendido, um ato
sexual pode ser mais espiritual do que a participação
em uma procissão, quando o primeiro é
feito com corpo e alma e a segunda, só com o
corpo e sem alma. Que não haja dúvidas:
a caraterística principal da espiritualidade
é a intensidade com que se faz o bem, pouco importando
que bem, materialmente, se faça.
Ressaltemos, no entanto, que não basta apenas
intensidade desregrada de aplicação, que
um animal e um bandido também podem ter. Faz-se
necessário também retidão justa
de inten-ção, que ocorre quando o espírito
comanda e coordena o processo de busca do bem deseja-do.
Não se pode, por isso, dizer que um animal, na
caça de sua presa, ou um malvivente, em suas
ações criminosas, sejam espirituais. Para
o animal, faltar-lhe-ia espírito; para o bandi-do,
correção de intenção e integração
de suas forças. O primeiro é só
animal em estado puro e instinto, enquanto o segundo
é pouco espírito e muito animal em estado
desintegrado e desumano.
A vida, em suas múltiplas facetas, será
sempre a fonte primária para a espiritualidade.
A inspiração poderá vir da paz
e da alegria, da vida e da morte, do trabalho e da dor,
da artes e dos esportes, da cidadania e do poder, do
amor e do lazer, da terra, da natureza e de Deus.
Por sermos gente, todos somos espirituais, ou temos
espiritualidade. Santos ou bandidos, piedosos seres
eclesiais ou pecadores penitentes ou reincidentes, ninguém
deixa de ser espi-ritual. Uns são mais, outros
menos, uns de uma forma, outros de outra, mas espiritualidade
todos têm porque todos são seres humanos.
Na verdade, a experiência nos diz que uns são
mais gente do que outros. É pois segundo este
mais ou menos que somos mais ou menos espirituais.
Para ser profundamente espiritual não é
preciso ser religioso. Bom seria que pessoas de confissão
religiosa fossem também luminosamente espirituais,
mas não é isto o que sempre se vê
na prática. É bastante freqüente
a confusão que se faz entre Espiritualidade e
Religião. Diz-se, por exemplo, que determinada
pessoa é muito espiritual porque tem muita religião.
Pode ser um equívoco. Dentro das Igrejas cultiva-se
uma religião que não transforma, sem mais,
pessoas religiosas em seres espirituais. Não
será, por isso, injustiça afirmar que,
nas Igrejas, muitas vezes, temos pessoas com muita religião
e pouca espiritualidade e, fora de-las, pessoas sem
nenhuma religião, mas com muita espiritualidade.
Para os cristãos, a fonte, o caminho de vida,
o critério e o alimento da espiritualidade são
o Cristo da ressurreição e a história
de Jesus. Quem segue esta espiritualidade deveria ser
uma expressão intensa de Cristo, ecoando seus
sentimentos e caráter. Ele é a cor da
paixão dos cristãos pela vida, pelos pobres,
doentes e pecadores, pelos perdidos e marginalizados,
pelos que não têm pai e mãe, pelos
que vivem separados pelos muros das mais várias
se-gregações. A cor de Cristo é
a da misericórdia e do perdão, da compaixão
e da ternura, da consagração a Deus e
da ousadia da santidade. É também a cor
que abraça a ovelhinha transviada, a cor da beleza
arrependida da pecadora pública, a cor da simplicidade
cativante da vida, a cor da graça de ter irmãos,
a cor da alegria de comer, de pescar e de viver. Tudo
isto, somado à sua determinação
pelo Reino de Deus, é a cor da verdadeira espiritualidade
cristã.
Com vergonha, podemos confessar que estamos longe disso,
mas sem esquecer que a espi-ritualidade é um
processo longo e doloroso e, mais do que um dado, é
um caminho de espi-ritualização. Não
somos espiritualmente redondos, acabados. Muito lentamente,
vamos nos fazendo mais espirituais e cristãos,
na medida em que vamos nos tornando mais plenamente
humanos à luz de Cristo e em seu seguimento.
"A glória de Deus, afirmou Santo Irineu
(+202), é a pessoa plenamente viva". Ninguém
se sente assim, mas podemos chegar lá. O que
não podemos é abdicar da tarefa de fazer
flo-rescer, de modo harmonioso, a graça da vida
ou o nosso jeito humano de ser.
Frei Neylor J. Tonin
Irmão menor e pecador
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