Cara
de paisagem
Lembra-te,
ó Homem, de que ninguém gosta de um rosto
enfarado, imutável e distante como uma paisagem,
ninguém aprecia uma pessoa inacessível,
solene e engomada o tempo todo. Afinal, existimos para
viver e conviver com sangue e paixão e não
para sermos peças empalhadas de algum estranho
museu. Mas tem gente que se esforça em ostentar
uma enluvada pureza, uma alienada neutralidade, uma distância
de paisagem.
Conhecemos todos pessoas assim, que se portam com uma
calculada sobranceirice, como se o que é próprio
ao comum dos mortais não lhes dissesse respeito.
Não vibram, não se emocionam, não
mostram preferências, resguardam ciosamente seus
sentimentos, bloqueiam em si e esfriam nos outros qualquer
tipo de reação e mantém, rigidamente
sob controle, seus mais legítimos impulsos e
afetos.
Causam pena. Olhando para elas, até desejaríamos
abordá-las, mas nos perguntamos como e se deveríamos?
Como chegar ao seu íntimo, como romper as máscaras
rugosas de suas bem estudadas proteções?
Parecem feitas de vidro, brilhante, mas escorregadio,
não riem, não choram, não abraçam.
Mostram-se até educadas, sem se permitirem, no
entanto, ser amigas ou cúmplices de ninguém
e de nada.
Costuma-se dizer que tais pessoas têm cara de
paisagem, impassível e sempre igual, armada e
diplomática, intocável e desencantada.
Não vai nisto nenhuma zangada condenação,
mas apenas uma lamentável constatação.
Quando jovens, elas não se concederam ou não
lhes foi concedida a chance de extravasamentos afetivos,
de amizades concretas e arriscadas, de um namoro sério
e pra valer; já agora, quando velhas, vivem blindadas
por uma superioridade olímpica, inatingível,
maravilhosa, quem sabe?, mas pouco graciosa.
Já te perguntaste sobre o que há por
detrás destas caras de paisagem? Elas tiveram,
possivelmente, uma educação esmerada,
mas asséptica, que não lhes possibilitou
a personalização de desejadas escolhas,
mesmo inocentes, nas quais pudessem correr os riscos
normais de viver. Foram educadas para um padrão
de vida em que o comportamento de classe era mais importante
do que a liberdade pessoal de acertar ou errar.
Nunca experimentaram, por isso, a alegria de gritar,
de discordar, de optar e de se afirmar dizendo não,
de rir com vontade ou de sujar a roupa e de pregar uma
inocente peça aos coleguinhas de escola ou de
rua. Foi-lhes impedida a normalidade dos contatos e
ensinaram-lhes a se preservarem de sentimentos pouco
nobres, decididamente plebeus. Em sua olímpica
formação, foram instadas a olhar o mundo
com uma soberana comiseração, um disfarçado
desdém e uma fingida segurança.
Na convivência social, fingem uma segurança
que estão longe de possuir. Tudo nelas é
encenação, é aparência, é
malabarismo. Fingem ser o que não são,
são atores de um teatro sem final feliz. Olham-se
no espelho sem sentir alegria, vivem sem curtir a graça
de viver.
Em suas vidas, tudo é, infelizmente, tão
certo que não são capazes de algo errado,
de um pecado, por exemplo, bem feito, isto é,
personalizado, próprio, só delas, livre.
Uma fingida segurança as faz admiráveis
e distantes, muito para serem consideradas e pouco para
serem queridas. Por fora são certinhas, perfeitas,
irretocáveis. No fundo, escondem um animal acorrentado,
amedrontado, infeliz.
Não é preciso dizer que tais pessoas
são uma tragédia. Para si e para os outros.
Talvez sejam convivas ideais e brilhantes em salões
nobres de festa, mas não para a convivência
diária, para um casamento, para relações
mais exigentes, onde errar e acertar são ocorrências
quotidianas, penosas e/ou desejáveis. Teriam
que mudar. Uma revolução precisaria acontecer
em suas vidas.
Porque, nas relações com os outros, não
basta ser apenas sério, é preciso também
sentir-se e aceitar-se frágil, dependente e mendigo,
deixando-se invadir, ajudar, questionar, rasgar-se por
dentro e por fora. Ser, em outras palavras, humano,
muito humano, gente dos pés à cabeça.
O Olimpo, enfim, é para os deuses. Para nós,
gente, nosso céu e nosso inferno são os
outros.
A aventura de viver é o nosso maior risco. Mas
é também nossa possível glória.
Educar-se para bem viver é o nosso maior desafio.
Nisto, podemos acertar ou errar. Só não
podemos nos eximir, por medo ou arrogância, por
excessiva auto-proteção ou irresponsável
despudor, de enfrentar o ideal de ser gente e de ser
gente em plenitude.
Aliás, Deus não nos cobrará êxitos
ou vitórias, mas esforços e caráter.
Como Jesus, podemos, num aparente fracasso, terminar
crucificados, mas afirmando, num ato de fé, que
tudo está bem, que, em nossa vida, tudo está
consumado, porque ela repousa nas mãos de Deus.
Pertencemos, dependemos e somos uns dos outros. Nossa
grande graça tem um nome e um endereço:
o próximo. Com ele, construímos o céu
e o inferno. Longe deles, nossa paisagem não
tem a menor graça. Sem eles, a vida não
será um luxo, mas apenas uma empobrecida e lamentável
tragédia.
Lembra-te, ó Homem, de que a coisa mais bonita
que cada um tem é a paisagem de sua vida. Deixar
que os outros a admirem e dela se encantem é
uma aventura perigosa, mas com reais possibilidades
de felicidade. Vale a pena tentar e vale a pena correr
este risco. O que não se pode é ter, apenas,
uma cara de paisagem.
Frei Neylor J. Tonin
Irmão menor e pecador
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