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       São Paulo, 17/05/2012, 05:06          
 
Frei Neylor Tonin
A utopia de Pentecostes

Lembra-te, ó Homem, de que, para ser feliz, é preciso saber perder... sem se perder. Esta não é apenas uma frase de efeito, mas um princípio de sabedoria dos Mestres da Espiritualidade. Todos eles, uns mais, outros menos, falam sobre a renúncia como elemento imprescindível para a felicidade humana, recomendam-na vivamente, afirmando ser ela é conditio sine qua non, ou seja, caminho obrigatório e inevitável para a verdadeira ascensão espiritual. E estabelecem o princípio: Quem não se nega a si mesmo não chega à espiritualização e plenitude de seu eu.

Atenta para a ponderação do mestre espiritual muçulmano, Yunaid: "Enquanto te preocupares contigo mesmo, estás longe de Deus. O caminho que leva a Ele exige um só passo: sair de si mesmo. Para renunciares a ti, deves ter as mãos vazias de riquezas e o coração vazio de todo apego".

A mesma verdade, mas de forma mais chocante, é proposta pelo místico cristão Angelus Silesius (1624-1677), autor de O Peregrino Querubínico (Cherubinischer Wandersmann): "És tua própria babel. Não saindo de ti mesmo, permanecerás para sempre a taverna de satanás (I,226)". Em formulação positiva, garante: "Se por dentro, ó homem, és livre e vazio, de ti jorrará a água como de sua fonte, a eternidade" (I,159). O mesmo pensamento, em outra formulação surpreendente: "Se o demônio pudesse se desligar dos laços de seu eu, imediatamente o verias sentado no trono de Deus" (I,143). E, por último: "Quanto mais sais de ti e te esvazias, tanto mais Deus fluirá em ti com sua divindade" (I,138).

Espiritualidades de todos os tempos e procedências sempre encareceram a importância da renúncia ao próprio eu, a necessidade de viver para fora. Lembra-te da recomendação de Jesus: "Aquele que pretende salvar a sua vida, há de perdê-la; e quem perder a sua vida, por amor de mim e do Evangelho, há de salvá-la" (Mt 16,25; Lc 9,24). "Se alguém me quiser seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e me siga" (Mc 8,34).

A utopia de Pentecostes: O acontecimento de Pentecostes possibilita muitas abordagens e sinaliza várias utopias. Permite-me focalizar apenas uma: a utopia da coragem que comporta os riscos da fé e os imperativos da renúncia. Mas que desabrocha, finalmente, como alegria.

Na Espiritualidade, fala-se muito em parresia, termo grego que é sinônimo de coragem. Fala-se também em fortaleza, que é um dos dons do Espírito Santo. Por este dom, a pessoa enfrenta as dificuldades que nascem da fé e da vida, vence medos e tentações, aceita perder sem perder as definições de suas fidelidades naturais e sobrenaturais. Para ser plenamente homem é preciso ter parresia. Para ser fiel a Deus é preciso ser forte. A fé, num e noutro caso, dói, pode doer muito.

Quem crê, sabe que ser coerente com os ditames da fé não é fácil. O maior perigo é o da dicotomia, a de crer e professar a fé sem vivenciá-la com toda a vida. Há uma oração litúrgica que diz: "Que professemos o que cremos e realizemos o que professamos". Em outras palavras, que sejamos coerentes na vida com o que anunciamos com a boca e cremos com o coração.

Santo Agostinho afirma que os mártires não são feitos por palavras, mas por causas. "Martyres non facit poema, sed causa." A fé pode ser e é festiva e celebrativa. Muitas vezes, porém, pode ser e o é, na prática, dolorosa e crucificante. Dói, de verdade.

Durante a vida terrena de Jesus, os apóstolos não demonstraram grandes medos. São Pedro tentou, é verdade, impedir, certa vez, impulsivamente, por medo e amizade, a ida de Jesus a Jerusalém. Não o conseguiu. Foi repelido acerbamente por Cristo. "Afasta-te de mim, satanás" (Mc 8,33)! Mais tarde, quando em Jericó, os Doze, temendo o cerco que se fechava e o confronto que parecia inevitável com as autoridades religiosas, procuraram embromar a subida para a capital. Jesus, mesmo angustiado, no entanto, seguia em frente, resolutamente. O que se seguiu é do conhecimento de todos.

Passados os acontecimentos da trágica Sexta Feira Santa, os apóstolos, a começar por Pedro, decidiram voltar para suas famílias e afazeres. "Eu vou pescar." Os outros emendaram: "Nós vamos contigo" (Jo 21,3). Em outra cena, os dois discípulos de Emaús são a expressão mais completa das esperanças frustradas. Já no primeiro dia da semana, ou seja, na manhã do domingo da ressurreição, abandonaram Jerusalém, tomando também o rumo de suas pescarias (Lc 24,13ss).

Quando Jesus ressuscitado apareceu aos apóstolos, estes ficaram "aterrados e cheios de medo" (Lc 24,37), e acreditaram estar vendo um espírito, um fantasma. Jesus os acalmou: "A paz esteja convosco" (Jo 20,19; Lc24,36)! Manifestou-se a eles de várias formas, em várias ocasiões, tentando convencê-los de que era ele mesmo, de que não precisavam ter medo. Mas o medo criava-lhes resistências, que chegaram à mais rotunda incredulidade. A de Tomé é sintomática e eloqüente. O medo, nele, foi tanto que não queria apenas ver o Cristo, queria também tocar o Ressuscitado.

Daí que ver (Jo 20,5.8.18), ouvir (Lc 24,32), tocar (Lc 24,39; Jo 20,27), saber (Jo 21,12), abraçar (Mt 28,9), comer junto com Cristo (At 10,41), presenciar sua ascensão ao céu (Mc 16,19; At 1,9) não foi suficiente para convencê-los de que Jesus estava vivo e ressuscitado. Jesus chegou até a repreender-lhes "a incredulidade e a esclerose de coração" (Mc 16,14). Mesmo assim, tudo foi de insuficiente valia. A verdade é uma só: eles sentiam e estavam dominados pelo medo. Faltava-lhes a virtude da parresia. Não tinham o dom da fortaleza do Espírito Santo. Algo mais teria que acontecer para que a experiência da Páscoa se tornasse viva e definitiva para os apóstolos. Este algo mais ocorreu em Pentecostes.

O evangelista Lucas assim descreve o acontecimento: "Chegando o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar. De repente, veio do céu um ruído, como de um vento impetuoso, que encheu toda a casa em que estavam sentados. E viram, então, uma espécie de línguas de fogo, que se repartiram e foram pousar sobre cada um deles. Ficaram todos cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia" (At 2,1-4).

Aqui, ó Homem, é importante fazer atenção aos detalhes: Os apóstolos estavam reunidos e sentados (imobilizados pelo medo e amparando-se mutuamente em seus medos). Veio do céu um ruído, como de um vento impetuoso (para abalá-los e ajudá-los a vencer as únicas vozes que escutavam: as do medo). Línguas de fogo pousaram sobre cada um deles (para queimá-los e para espantar o frio amedrontado que sentiam). Ficaram cheios do Espírito Santo (e sem os seus medos). E começaram a falar em outras línguas (até então só falavam a língua do medo).

Como conseqüência, a vinda do Espírito Santo produziu neles a coragem de se abrirem para o mundo e de aceitar os riscos da fé. Pentecostes operou o milagre da coragem, fez acontecer o que parecia impossível: a utopia da parresia. Desmentindo a acusação que, séculos mais tarde, Nietzsche viria a fazer contra os cristãos: "são uns inúteis, uns distantes, uns conformados; são estranhos ao trabalho da terra; seus olhos estão postos no céu", Pentecostes leva os assustados apóstolos para fora, coloca-os no topo das escadarias do Templo, e eles se apresentam próximos, sem medo, dispostos a não mais negar a verdade e a experiência que fizeram do Cristo ressuscitado.

A partir deste acontecimento, os apóstolos foram outros. Deixaram de ser os pobres pescadores da Galiléia para se transformarem em anunciadores da ressurreição. Numa confissão solene que, se mentira fosse, se consubstanciaria no mais inimaginável perjúrio, anunciaram que "o Deus de nossos pais ressuscitou Jesus, exaltou-o, tornando-o guia supremo e salvador, para dar ao povo de Israel a conversão e o perdão dos seus pecados. Disso", juraram, "somos testemunhas, nós e o Espírito Santo" (At 5,31-32). As conseqüências não se fizeram esperar. Por este desassombro, foram presos e açoitados, "mas ficaram muito contentes por terem sido considerados dignos de injúrias, por causa do nome de Jesus" (At 5,41).

Pentecostes pode ter várias leituras e pode fundamentar várias utopias, mas nenhuma parece mais evidente e surpreendente do que a utopia da coragem. Pobres homens medrosos, trancados num lugar sagrado, o Cenáculo, por medo dos judeus (Jo 20,19), de repente se transformam em evangelistas de uma verdade, em mártires de um acontecimento. E não apenas proclamam o que crêem, mas estão prontos para dar a vida por sua fé.

A disposição de fé dos apóstolos passará a ser, para todos os seguidores de Jesus, a medida pentecostal da fé cristã. Não basta mais rezar nas igrejas, viver recolhido em lugares sagrados, fazer a festa da páscoa. Todas as liturgias são importantes, mas é preciso sair para a rua, subir as escadarias do Templo, enfrentar a fúria dos donos do mundo, e proclamar o fato único e histórico de que Cristo está vivo e ressuscitado. Em outras palavras, não se pode ser apenas um ser pascal; é preciso também ser um ser pentecostal.

Pentecostes é a plenitude da Páscoa. A Igreja de Pentecostes é a Igreja da Páscoa. Os dois acontecimentos criam e atestam a festa da ressurreição. Pentecostes está para o mundo, assim como a Páscoa está para a fé. Não basta apenas ter uma verdade, é preciso também a coragem de proclamá-la e vive-la. Esta é a utopia maior e jubilosa de Pentecostes.

(Do livro A Vida é um Luxo. O Grande Luxo é Viver, a sair pela VOZES)

Frei Neylor J. Tonin
Irmão menor e pecador



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