A
utopia de Pentecostes
Lembra-te,
ó Homem, de que, para ser feliz, é preciso
saber perder... sem se perder. Esta não é
apenas uma frase de efeito, mas um princípio de
sabedoria dos Mestres da Espiritualidade. Todos eles,
uns mais, outros menos, falam sobre a renúncia
como elemento imprescindível para a felicidade
humana, recomendam-na vivamente, afirmando ser ela é
conditio sine qua non, ou seja, caminho obrigatório
e inevitável para a verdadeira ascensão
espiritual. E estabelecem o princípio: Quem não
se nega a si mesmo não chega à espiritualização
e plenitude de seu eu.
Atenta para a ponderação do mestre espiritual
muçulmano, Yunaid: "Enquanto te preocupares
contigo mesmo, estás longe de Deus. O caminho
que leva a Ele exige um só passo: sair de si
mesmo. Para renunciares a ti, deves ter as mãos
vazias de riquezas e o coração vazio de
todo apego".
A mesma verdade, mas de forma mais chocante, é
proposta pelo místico cristão Angelus
Silesius (1624-1677), autor de O Peregrino Querubínico
(Cherubinischer Wandersmann): "És tua própria
babel. Não saindo de ti mesmo, permanecerás
para sempre a taverna de satanás (I,226)".
Em formulação positiva, garante: "Se
por dentro, ó homem, és livre e vazio,
de ti jorrará a água como de sua fonte,
a eternidade" (I,159). O mesmo pensamento, em outra
formulação surpreendente: "Se o demônio
pudesse se desligar dos laços de seu eu, imediatamente
o verias sentado no trono de Deus" (I,143). E,
por último: "Quanto mais sais de ti e te
esvazias, tanto mais Deus fluirá em ti com sua
divindade" (I,138).
Espiritualidades de todos os tempos e procedências
sempre encareceram a importância da renúncia
ao próprio eu, a necessidade de viver para fora.
Lembra-te da recomendação de Jesus: "Aquele
que pretende salvar a sua vida, há de perdê-la;
e quem perder a sua vida, por amor de mim e do Evangelho,
há de salvá-la" (Mt 16,25; Lc 9,24).
"Se alguém me quiser seguir, renuncie a
si mesmo, tome sua cruz e me siga" (Mc 8,34).
A utopia de Pentecostes: O acontecimento de Pentecostes
possibilita muitas abordagens e sinaliza várias
utopias. Permite-me focalizar apenas uma: a utopia da
coragem que comporta os riscos da fé e os imperativos
da renúncia. Mas que desabrocha, finalmente,
como alegria.
Na Espiritualidade, fala-se muito em parresia, termo
grego que é sinônimo de coragem. Fala-se
também em fortaleza, que é um dos dons
do Espírito Santo. Por este dom, a pessoa enfrenta
as dificuldades que nascem da fé e da vida, vence
medos e tentações, aceita perder sem perder
as definições de suas fidelidades naturais
e sobrenaturais. Para ser plenamente homem é
preciso ter parresia. Para ser fiel a Deus é
preciso ser forte. A fé, num e noutro caso, dói,
pode doer muito.
Quem crê, sabe que ser coerente com os ditames
da fé não é fácil. O maior
perigo é o da dicotomia, a de crer e professar
a fé sem vivenciá-la com toda a vida.
Há uma oração litúrgica
que diz: "Que professemos o que cremos e realizemos
o que professamos". Em outras palavras, que sejamos
coerentes na vida com o que anunciamos com a boca e
cremos com o coração.
Santo Agostinho afirma que os mártires não
são feitos por palavras, mas por causas. "Martyres
non facit poema, sed causa." A fé pode ser
e é festiva e celebrativa. Muitas vezes, porém,
pode ser e o é, na prática, dolorosa e
crucificante. Dói, de verdade.
Durante a vida terrena de Jesus, os apóstolos
não demonstraram grandes medos. São Pedro
tentou, é verdade, impedir, certa vez, impulsivamente,
por medo e amizade, a ida de Jesus a Jerusalém.
Não o conseguiu. Foi repelido acerbamente por
Cristo. "Afasta-te de mim, satanás"
(Mc 8,33)! Mais tarde, quando em Jericó, os Doze,
temendo o cerco que se fechava e o confronto que parecia
inevitável com as autoridades religiosas, procuraram
embromar a subida para a capital. Jesus, mesmo angustiado,
no entanto, seguia em frente, resolutamente. O que se
seguiu é do conhecimento de todos.
Passados os acontecimentos da trágica Sexta
Feira Santa, os apóstolos, a começar por
Pedro, decidiram voltar para suas famílias e
afazeres. "Eu vou pescar." Os outros emendaram:
"Nós vamos contigo" (Jo 21,3). Em outra
cena, os dois discípulos de Emaús são
a expressão mais completa das esperanças
frustradas. Já no primeiro dia da semana, ou
seja, na manhã do domingo da ressurreição,
abandonaram Jerusalém, tomando também
o rumo de suas pescarias (Lc 24,13ss).
Quando Jesus ressuscitado apareceu aos apóstolos,
estes ficaram "aterrados e cheios de medo"
(Lc 24,37), e acreditaram estar vendo um espírito,
um fantasma. Jesus os acalmou: "A paz esteja convosco"
(Jo 20,19; Lc24,36)! Manifestou-se a eles de várias
formas, em várias ocasiões, tentando convencê-los
de que era ele mesmo, de que não precisavam ter
medo. Mas o medo criava-lhes resistências, que
chegaram à mais rotunda incredulidade. A de Tomé
é sintomática e eloqüente. O medo,
nele, foi tanto que não queria apenas ver o Cristo,
queria também tocar o Ressuscitado.
Daí que ver (Jo 20,5.8.18), ouvir (Lc 24,32),
tocar (Lc 24,39; Jo 20,27), saber (Jo 21,12), abraçar
(Mt 28,9), comer junto com Cristo (At 10,41), presenciar
sua ascensão ao céu (Mc 16,19; At 1,9)
não foi suficiente para convencê-los de
que Jesus estava vivo e ressuscitado. Jesus chegou até
a repreender-lhes "a incredulidade e a esclerose
de coração" (Mc 16,14). Mesmo assim,
tudo foi de insuficiente valia. A verdade é uma
só: eles sentiam e estavam dominados pelo medo.
Faltava-lhes a virtude da parresia. Não tinham
o dom da fortaleza do Espírito Santo. Algo mais
teria que acontecer para que a experiência da
Páscoa se tornasse viva e definitiva para os
apóstolos. Este algo mais ocorreu em Pentecostes.
O evangelista Lucas assim descreve o acontecimento:
"Chegando o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos
no mesmo lugar. De repente, veio do céu um ruído,
como de um vento impetuoso, que encheu toda a casa em
que estavam sentados. E viram, então, uma espécie
de línguas de fogo, que se repartiram e foram
pousar sobre cada um deles. Ficaram todos cheios do
Espírito Santo e começaram a falar em
outras línguas, conforme o Espírito Santo
lhes concedia" (At 2,1-4).
Aqui, ó Homem, é importante fazer atenção
aos detalhes: Os apóstolos estavam reunidos e
sentados (imobilizados pelo medo e amparando-se mutuamente
em seus medos). Veio do céu um ruído,
como de um vento impetuoso (para abalá-los e
ajudá-los a vencer as únicas vozes que
escutavam: as do medo). Línguas de fogo pousaram
sobre cada um deles (para queimá-los e para espantar
o frio amedrontado que sentiam). Ficaram cheios do Espírito
Santo (e sem os seus medos). E começaram a falar
em outras línguas (até então só
falavam a língua do medo).
Como conseqüência, a vinda do Espírito
Santo produziu neles a coragem de se abrirem para o
mundo e de aceitar os riscos da fé. Pentecostes
operou o milagre da coragem, fez acontecer o que parecia
impossível: a utopia da parresia. Desmentindo
a acusação que, séculos mais tarde,
Nietzsche viria a fazer contra os cristãos: "são
uns inúteis, uns distantes, uns conformados;
são estranhos ao trabalho da terra; seus olhos
estão postos no céu", Pentecostes
leva os assustados apóstolos para fora, coloca-os
no topo das escadarias do Templo, e eles se apresentam
próximos, sem medo, dispostos a não mais
negar a verdade e a experiência que fizeram do
Cristo ressuscitado.
A partir deste acontecimento, os apóstolos foram
outros. Deixaram de ser os pobres pescadores da Galiléia
para se transformarem em anunciadores da ressurreição.
Numa confissão solene que, se mentira fosse,
se consubstanciaria no mais inimaginável perjúrio,
anunciaram que "o Deus de nossos pais ressuscitou
Jesus, exaltou-o, tornando-o guia supremo e salvador,
para dar ao povo de Israel a conversão e o perdão
dos seus pecados. Disso", juraram, "somos
testemunhas, nós e o Espírito Santo"
(At 5,31-32). As conseqüências não
se fizeram esperar. Por este desassombro, foram presos
e açoitados, "mas ficaram muito contentes
por terem sido considerados dignos de injúrias,
por causa do nome de Jesus" (At 5,41).
Pentecostes pode ter várias leituras e pode
fundamentar várias utopias, mas nenhuma parece
mais evidente e surpreendente do que a utopia da coragem.
Pobres homens medrosos, trancados num lugar sagrado,
o Cenáculo, por medo dos judeus (Jo 20,19), de
repente se transformam em evangelistas de uma verdade,
em mártires de um acontecimento. E não
apenas proclamam o que crêem, mas estão
prontos para dar a vida por sua fé.
A disposição de fé dos apóstolos
passará a ser, para todos os seguidores de Jesus,
a medida pentecostal da fé cristã. Não
basta mais rezar nas igrejas, viver recolhido em lugares
sagrados, fazer a festa da páscoa. Todas as liturgias
são importantes, mas é preciso sair para
a rua, subir as escadarias do Templo, enfrentar a fúria
dos donos do mundo, e proclamar o fato único
e histórico de que Cristo está vivo e
ressuscitado. Em outras palavras, não se pode
ser apenas um ser pascal; é preciso também
ser um ser pentecostal.
Pentecostes é a plenitude da Páscoa.
A Igreja de Pentecostes é a Igreja da Páscoa.
Os dois acontecimentos criam e atestam a festa da ressurreição.
Pentecostes está para o mundo, assim como a Páscoa
está para a fé. Não basta apenas
ter uma verdade, é preciso também a coragem
de proclamá-la e vive-la. Esta é a utopia
maior e jubilosa de Pentecostes.
(Do livro A Vida é um Luxo. O Grande Luxo
é Viver, a sair pela VOZES)
Frei Neylor J. Tonin
Irmão menor e pecador
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