Fazer
ascese por amor
Para
que tu, leitor, não me abandones, pela rudeza do
título acima, vamos começar com uma historieta.
Buddha encontrou, certa feita, um penitente que praticava,
há anos, espantosas austeridades corporais. Perguntou-lhe
o que pretendia com tanto esforço. O monge disse
que desejava desenvolver o poder de caminhar sobre as
águas. Sorrindo, o mestre observou-lhe em tom compassivo:
"Pouco vais lucrar com isto, com tamanho trabalho
e desperdício de tempo. Dá uma pequena moeda
ao barqueiro que te levará, gentilmente, para a
outra margem do rio".
Se a historieta te cativou, leitor, vamos continuar.
O tema, admito, é árido, mas tem sua importância.
Há os que acreditam poder conquistar o céu
ao preço de penosas penitências. Enganam-se
redondamente. Nós, que admiramos a verdadeira
Espiritualidade, acreditamos e sabemos que o céu
- a outra margem do rio - é graça de Deus,
que será dada para os que vivem em sua graça,
e não para os que se vangloriam de caminhar sobre
as águas. Deus é o barqueiro que nos levará
para a outra margem da vida se não tivermos a
presunção duma travessia solitária.
Ascese é uma palavra grega que significa simplesmente
exercício. Religiosamente, comporta esforços,
renúncias e penitências em vista da perfeição.
Fazer ascese é exercitar-se para adquirir musculatura
espiritual e poder percorrer com maior desenvoltura
os caminhos do bem. Fazer ascese não tem nada
a ver com a moderna "cultura do corpo", ou
o fisiculturismo.
O verdadeiro asceta, por conseguinte, não é
necessariamente magro, esquelético, descarnado.
Muitas vezes o é, mas não se pode medir
o grau de perfeição ou de espiritualidade
pelo seu físico, mas antes pela intensidade de
vida em prol dos grandes valores humanos e religiosos.
Em relação à ascese, os mestres
espirituais sempre apontaram dois extremos a serem evitados:
o do laxismo, que se caracteriza por um horror a qualquer
tipo de renúncia ou sacrifício. O laxo
é essencialmente um comodista, que só
pensa no próprio prazer. É um egoísta
sem grande caráter. Não busca forças
para elevar-se, lutar, vencer e atravessar o rio. O
segundo perigo é o rigorismo que se expressa
como violência contra o próprio corpo.
O rigorista não se dá descanso, acha que
está pecando se sentir algum prazer material
e quer atravessar o rio sozinho. Enquanto o primeiro
é, via de regra, um glutão satisfeito,
o segundo pode fazer-se um penitente carrancudo.
Não é preciso dizer que ambos estão
longe do verdadeiro espírito da ascese cristã
e dos verdadeiros caminhos da sabedoria humana. O laxo,
por ficar aquém do que poderia ser e conseguir,
e o rigorista, por perder o bom senso e ir além
dele.
A Bíblia não faz a apologia da penitência,
mas também não a desconsidera simplesmente.
Jesus pregou: "Quem quiser ser meu discípulo,
renuncie a si mesmo, tome sua cruz e me siga" (Mt
16,24; Mc 8,34; Lc 9,23). São Paulo parece temer
as práticas ascéticas como se depreende
da Carta aos Colossenses: "Ninguém, pois,
vos critique por causa da comida ou bebida ou em matéria
de festa ou de lua nova ou de sábados" (2,16).
Denuncia o falso ascetismo de certas proibições
que "são preceitos e doutrinas dos homens.
Têm ares de sabedoria, mas são regras de
afetada piedade, humildade e severidade com o corpo;
em verdade não têm valor algum, a não
ser para a satisfação da carne" (vv.
22-23).
Em contraposição, a tônica da verdadeira
Espiritualidade se centra na consagração
e no amor da pessoa a Deus, o que inclui um abandono
e uma escolha: "Buscai as coisas do alto e não
as da terra" (Cl 3,2) e "mortificai vossos
membros terrenos" (v. 5). "Buscai, em primeiro
lugar, o Reino de Deus e sua justiça" (Mt
6,33). "Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas,
que pagais o dízimo da hortelã, da erva-doce
e do cominho mas não vos preocupais com o mais
importante da Lei: a justiça, a misericórdia
e a fidelidade" (Mt 23,23)!
A verdadeira ascese, por isto, mais do que um caminho
em direção a si mesmo, comporta uma luta
em direção aos outros. Faz-se ascese como
forma de consagração e amor. A pessoa
se purifica para viver mais desimpedidamente pelos outros.
Renuncia a coisas válidas para ser mais irmã
e companheira.
A Tradição cristã encontrou sua
melhor formulação ascética na expressão:
"Nudus nudum Christum sequi", ou seja, seguir
nu, despojado, o Cristo nu e despojado. Em vista disso,
o movimento ascético, penitencial, não
é uma operação fechada sobre si
mesma, a se stante, como diz o latim. A penitência,
em si mesma, não tem religiosamente nenhum valor.
Seria apenas uma dieta espiritual, mas que não
conduziria a endereço algum. A ascese só
tem valor quando feita "por amor de", "em
vista a", "em benefício de". Quando
recebe apenas o caráter de quem a faz, mas não
o endereço de por quem é feita, a ascese
é vazia e perigosa, inútil, suspeita e
não recomendável.
Por sua natureza, a vida é uma força
selvagem, com uma pujança formidável,
com majestade apaixonante e beleza muitas vezes cruel.
É como um diamante que, para não deixá-la
em estado bruto, precisa ser burilado pela ascese. Os
pais e educadores fazem isto com as crianças.
Os adultos, consigo mesmo.
Con-centrados em nós mesmos, não passamos
de indivíduos. Des-centrados de nós e
concentrados nos outros, tornamo-nos pessoas. Sobre-centrados
em Deus, transformamo-nos em criaturas divinas. Este
processo pode ser doloroso e corresponde à tríade
espiritual bíblica do jejum (con-centração
em si), esmola (des-centração de nós
e concentração no pobre) e oração
(sobre-centração em Deus).
Mas há outras formas de ascese. Na ascese da
fé, a pessoa se aceita com seus dolorosos e insuperáveis
limites, fraquezas e misérias, dor e desenganos
da vida, e com o desfecho da morte, aparentemente o
absurdo e total fracasso da vida. Na ascese moral, a
pessoa diz sim ao bem e não ao mal, abraçando
e renunciando ao mesmo tempo. Na ascese escatológica,
a pessoa alimenta uma constante disposição
para a partida e uma iluminada vigilância diante
da vida em Deus. Para quem é cristão,
existe ainda a ascese da cruz, que consiste em abraçar
o escândalo do calvário, identificando-se
com o Cristo que não afastou o cálice
da dor nem fugiu da idiotice da cruz, fazendo-se obediente
à vontade do Pai.
Em conseqüência, parece claro que fazer ascese
não consiste em mortificar simplesmente o corpo,
mas em morti-ficar (fazer morrer) o velho Adão
ou o animal que é egoísta, guloso, violento,
preguiçoso e cruel em nós. Fazer ascese
consiste em renunciar ao eu não intencionado
por Deus e não em tentar ser, simplesmente, mais
e melhor.
A verdadeira ascese visa a fazer-nos mais livres, levando-nos
a viver mais plenamente. Não procura arrancar
qualquer erva daninha em nosso jardim espiritual, mas
cultivar os frutos e as flores que ele pode, com a graça
de Deus, com a ajuda dos irmãos e com a coragem
pessoal, produzir.
Brevemente, eis alguns princípios que orientam
o verdadeiro caminho da libertação humana:
1) A ascese é um meio, somente um meio, embora
importante e, ao mesmo tempo, doloroso. 2) A ascese
tem valor relativo e só é aceitável
como serviço de amor e quando leva o penitente
a identificar-se com os outros e com o grande Outro.
3) O ser humano tem uma natureza ferida pelo pecado
e necessita da graça para resgatá-la e
da ascese para fortalecer o homem espiritual e interior.
4) A ascese religiosa objetiva a purificação
do pecador e é a contrapartida humana devida
ao pecado. 5) A ascese não cria méritos
para a graça, mas serve de conditio sine qua
non (condição necessitante) para ela.
6) A ascese não é um luxo reservado a
poucos, mas é um ideário abraçado
por quem quer ser grande. 7) A ascese não faz
ninguém santo, mas os santos fazem ascese.
Se alguém, por fazer ascese, se fizer triste
e azedo, é melhor que não a faça.
É preferível e é mais engraçado
um comilão feliz a um atleta espiritual emburrado.
Um dos frutos da verdadeira ascese é a alegria.
Tanto quanto o comilão feliz, o asceta também
sabe cantar. E canta. E canta melhor.
Frei Neylor J. Tonin
Irmão menor e pecador
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