A
utopia da vida e da morte
Lembra-te, ó Homem, do que escreveu Santo Inácio
de Antioquia (séc. II), em sua Carta aos cristãos
de Magnésia: Tudo terá um fim. Mas
dois termos nos são propostos: a morte e a vida
(5.1).
A vida e a morte! De tua vida, conheces a data e o
local de nascimento. De tua morte, faltam-te ainda o
onde e o quando, para fechar tua biografia. Nascer,
viver e morrer são marcos de uma história,
da qual muitos, infelizmente, desconhecem a razão
e a utopia.
Mas voltemos ao santo. Para que possas admirar a têmpera
deste grande bispo, lê o que escreveu em sua Carta
aos Fiéis de Corinto, quando, já preso,
vislumbrou o local de seu fim, o Coliseu romano: Deixai-me
ser comida para as feras, pelas quais me é possível
encontrar Deus. Sou trigo de Deus e serei moído
pelos dentes das feras, para encontrar-me como pão
puro de Cristo. Acariciai, antes, as feras, para que
se tornem meu túmulo e não deixem sobrar
nada de meu corpo, para que na minha morte não
me torne peso para ninguém. Então, de
fato, serei discípulo de Jesus Cristo, quando
o mundo nem mais vir meu corpo. (...) Quando houver
padecido, tornar-me-ei alforriado de Jesus Cristo e
ressuscitarei nele. (...) Fogo e cruz, manadas de feras,
quebraduras de ossos, esquartejamentos, trituração
do corpo todo; os piores flagelos do diabo venham sobre
mim, contanto que eu encontre a Jesus Cristo. (...)
Então, começarei a ser discípulo
do Senhor (4.1-3).
Já encontraste alguém que tenha se expressado
assim, com tal lucidez de alma, com um objetivo tão
seguro e definitivo de vida e de morte? Talvez tenhamos
tu e eu que responder não e admitir que são
raras as pessoas que mantêm, permanentemente,
tal linearidade de comportamento. O que se vê
com freqüência é o ziguezaguear indeciso
das pessoas durante a vida e próximo do fim.
Santo Inácio, cujo nome significa nascido
do fogo (igne natus), tinha, como se costuma dizer,
arroubos de profeta e parresia (coragem) de mártir.
A Tradição o identificou como aquele menino
que Jesus teria tomado nos braços, quando disse:
Deixai vir a mim as criancinhas, porque delas
é o Reino dos céus (Lc 18,16). Tanto
foi seu amor por Cristo - É a Ele que procuro,
o meu amor crucificado, a boca sem
mentiras do Pai -que as feras, que destroçaram
seu corpo, pouparam-lhe o coração, no
qual se encontrou escrito, com veias, o nome JESUS.
Verdade ou piedosa lenda, assim foi a vida e o fim
deste terceiro bispo de Antioquia, discípulo
de São João Evangelista, indicado para
o cargo por Pedro e Paulo. Foi numa de suas Cartas que,
pela primeira vez, a denominação Católica
(universal) foi aplicada à Igreja de Cristo.
Foi um grande pastor em vida e um impávido mártir
na hora da morte.
Suas últimas palavras, depois de condenado à
arena pelo imperador Trajano, foram: Eu te agradeço,
ó Senhor, por me concederes esta possibilidade
de provar perfeitamente o meu amor por ti, e de também
ser, por teu amor, agrilhoado como teu apóstolo
Paulo.
À luz de sua vida e morte, talvez possamos tentar
expressar qual seja a utopia da vida e da morte:
A utopia da vida é a de alcançar uma
razão suprema, absoluta e definitiva, que unifique
nossos caminhos e engrandeça nossas atitudes
de forma intensa e total, apaixonada e incondicional,
vivendo de coração aberto, sem medos invencíveis.
A utopia da morte é a de confirmar e sacramentar
tal utopia, aceitando-a, com serenidade, sem desespero,
como coroa incorruptível e luminosa da fé
que animou e norteou a vida.
Quem é religioso entende que esta utopia se
ancora em Deus, senhor da vida e da morte. Nele
é que vivemos, nos movemos e existimos(At
17,28). Ao mesmo tempo, porque vivemos em comunidade,
não deixamos minimamente de ser dos outros. Adoradores
do Criador, somos igualmente irmãos uns dos outros.
O céu e a terra, a vida e a morte têm a
mesma marca: o desejo insopitável da plenitude
da vida, aqui, por Ele e com os outros, enquanto vivemos,
e lá, com Ele e com todos, depois que morrermos.
Marchamos todos inexoravelmente para o desfecho da
vida. Como já te disse acima, conhecemos a data
de nosso nascimento. Ninguém conhece a data da
própria morte. Celebramos muito a primeira. Tememos
todos muito a segunda.
Com instintiva sabedoria, no entanto, nos acomodamos,
na prática, ao drama de viver. Vamos perdendo
as forças e as ilusões, vamos, pouco a
pouco, embora relutantemente, aceitando a idéia
de que estamos, no mundo, apenas de passagem.
Aliás, se pudéssemos, viveríamos
sempre de frente para a vida e de costas para a morte.
No entanto, é a vida que vai nos dando as costas
e é a morte que vai se aproximando de nós,
e tomando-nos, aos poucos, pela mão.
A questão madura e inevitável que, então,
temos que enfrentar e à qual não podemos
deixar de responder, é sobre como estamos vivendo
e sobre como estamos morrendo. Que utopia vamos alimentando?
Que chama sagrada vai nos iluminando? Que feras estamos
dispostos a enfrentar, sem desespero? Que imperadores
merecerão, finalmente, o testemunho de nossa
fé? E em qual coliseu entraremos, no último
dia, cantando?
Lembra-te, ó Homem, que ninguém quer
deixar de viver e que são poucos os que se preparam
para morrer. Mas vida e morte são realidades
de um mesmo projeto, com idêntica utopia.
A vida é, na verdade, nossa maior riqueza e
seu mistério, nosso mais apaixonante desafio.
Teologicamente, dizemos que ela é sopro de Deus
de inestimável valor, embora colocado em vasos
frágeis. Amar a vida, a própria vida,
e cuidar de todas as vidas, é honrar seu Criador.
Menosprezá-la seria negar sua origem e transviar
seu destino.
Por outro lado, a vida é um drama que começa
com o aplaudido choro do nosso nascimento. Nas inconseqüências
dos primeiros anos, vamos aprendendo que não
estamos sozinhos, que nossos pais mandam em nós
e que o melhor é obedecer-lhes para evitar castigos,
desafeições e insuportáveis desajustes,
que até Jesus experimentou, como evidencia o
episódio de seu encontro no Templo, aos 12 anos.
Assim continuará a vida, entre a obediência
aos que mandam e o desejo de mandar mais do que os outros,
até que, finalmente, já na idade das sombras,
voltamos a descobrir que ainda temos que obedecer, nem
que seja a médicos, enfermeiros e gente mais
cheia de vida, que poderão passar a cuidar de
nós como se fôssemos crianças recém
nascidas.
Mas, um dia, teremos que obedecer já não
mais a pessoas, mas a uma realidade que sempre tentamos
evitar: à morte. Dela partirá a última
ordem: Chega! É hora de partir!.
Entregaremos, então, aos que ficam a chave de
nossa casa, num último ato de obediência.
Eles fecharão nossos olhos e partiremos talvez,
com certa relutância, para uma terra desconhecida.
Assim é a vida. Vivemos e morreremos obedecendo,
como Jesus, que também viveu e morreu obedecendo.
Nestas inevitáveis obediências, importante
seria não viver ao léu e não morrer
sem destino.
Vive, por isso, sonhando com a utopia de bem viver!
Honra a vida e crê em teu Criador! Ele ama o que
criou e nunca te desprezará. Ele quer que todos
tenham vida e que tenhas vida em abundância. Por
tua vida, Ele apostou a vida de seu Filho Unigênito.
Não estás sozinho. Quando chegares aos
anos derradeiros, não desanimes! Ele quer que
sejas livre. Ele te fará livre, alforriado. Apenas
te cobra obediência à utopia da vida e
da morte. Não uma obediência cega, de quem
tem medo de castigos e desafeições, mas
a obediência de um homem livre, que reconhece
sua glória e onipotência e seu infinito
e incondicional amor por suas criaturas.
Viver, ó Homem, pode ser, sim, como disseram
os gregos, uma tragédia. Morrer pode ser a maior
frustração, a pior das tragédias.
Mas Deus é o avalista da tragédia da vida
e da morte, porque Ele é graça e misericórdia,
salvação e glória, abraço
de pai e vida sem fim.
Frei Neylor J. Tonin
Irmão menor e pecador
|