Itinerário
espiritual de São Francisco de Assis
Parte 4
De todos os pobres, os mais miseráveis e relegados,
eram os leprosos, eles viviam fora dos muros da cidade,
no abandono e na insegurança, afastados, por
medo de contágio, pelos habitantes de Assis.
Francisco mesmo confessou, em seu Testamento, que "lhe
era insuportável olhar leprosos, [...] julgando-os
a monstruosidade mais infeliz deste mundo". Mas
o Senhor o conduziu para entre eles, e ele não
se fez surdo a esta amorosa imposição.
"Obrigando-se a se curvar e a sofrer até
se transformar em escravo das pessoas miseráveis
e repugnantes - diz belissimamente Tomás de Celano
- queria aprender o perfeito desprezo de si e do mundo,
antes de ensiná-los aos outros. Desejava conquistar
um domínio pacifico sobre si mesmo depois de
vencer este inimigo que cada um leva consigo".
E, na verdade, ele o venceu. Conta a história
que, certo dia, cavalgava pelas campinas, defronte a
Assis, quando, de repente, sem saber de onde saíra,
encontrou-se com um leproso. A um primeiro momento de
repulsa seguiu-se a vitória do propósito
que se fizera de não desviar, de ora em diante,
sua face de nenhum pobre. Desceu do cavalo, perdeu sua
imponência, e deu-lhe o que tinha de material
e afetivo: uma moeda e um beijo. (A configuração
desta cena nos lembra o homem colocado em frente as
suas tentações, ou no deserto ou na campina,
sempre sozinho, onde só há um espectador:
Deus, que espera sua resposta. São Francisco
a deu). Depois, voltou a montar e afastou-se, mas apesar
de estar em campo aberto, diz a história, olhou
para todos os lados e não viu mais o leproso.
O leproso tinha sumido de dentro de si mesmo. As feridas
da lepra tinham subitamente cicatrizado dentro de seu
coração e o milagre da cura o fez um outro
homem, uma nova criatura, a ponto de confessar: "Enquanto
me retirava, justamente o que antes me parecia amargo
se me converteu em doçura do corpo e da alma".
O grande trabalho junto ao próprio coração
se faz no coração dos outros, em seus
corpos quando famintos, em suas almas quando afligidas.
E, então, o homem, que tanto se buscava sem encontrar-se,
acaba experimentando uma consolação que
não é sua, mas fruto maduro de um outro
que é o Senhor dos caminhos do bem, o qual, muitas
vezes, pode ter as mãos e o rosto carcomidos
pela lepra.
Este, nos parece, é o itinerário espiritual
de todos os grandes homens santos: da própria
vontade, com suas aversões e simpatias, em direção
à vontade dos outros, do grande Outro, que geralmente
se apresenta no desamparo e nas mais variadas formas
das monstruosidades humanas. Estes monstruosos de todos
os tempos são os pobres das mais diversas pobrezas
(físicas, morais, espirituais, materiais, psíquicas),
os miseráveis das mais diversas misérias,
os leprosos das mais tristes lepras, os cristos de todas
as cruzes injustas e aviltantes, sempre imobilizados
e silenciados pela ganância e pela maldade, pela
prepotência e pelo desamor. Eles não contam
aos olhos do mundo, mas deles é o Reino dos Céus.
Bem-aventurados os pobres! O olho espiritual de Francisco
compreendeu isso e ele passou - diz Celano - a ser "quem
mais amava os pobres"..
Frei Neylor J. Tonin
Esta série de artigos está sendo impressa
no "Boletim do Pró-Vocações"
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