1. Introdução
Diante da narração da Paixão podemos
ter duas atitudes diferentes. A tradição
nos pinta um quadro bastante determinista, algo semelhante
a uma peça literária, onde tudo segue um
roteiro pré-elaborado por Deus. Jesus só
tinha de submeter-se e viver seu papel. Numa postura mais
moderna diante do quadro da Paixão, procuramos
mais os elementos culturais da época histórica
e ressaltamos a atuação livre e consciente
de Jesus. O papel de Jesus é mais pessoal, mais
livre, mais humano e mais tocante.
As circunstâncias históricas determinam o
tipo de morte à qual foi condenado nosso divino
mestre. Se Jesus tivesse vivido numa época em que
o povo judeu era independente, Ele teria sido condenado
a morrer por apedrejamento. Qual seria então nosso
símbolo maior de Salvação? Certamente
não seria a Cruz. Mas, como a Palestina estava
sob ocupação romana, a sentença de
morte de Jesus foi lavrada pela autoridade de Roma. Ora,
a cruz era o instrumento de suplício para bandidos
e inimigos de Roma. Por isso, Jesus foi crucificado e
a cruz tornou-se símbolo de Salvação.
Além disso, Jesus havia até fugido de Jerusalém,
pois previa sua captura e condenação. Mas,
compreendendo o significado que teria seu confronto com
a morte para revelar o mistério maior do Amor de
Deus, voluntariamente retorna para o teatro dos acontecimentos
em Jerusalém, o que lhe custaria a vida. Isso nos
encanta, enche o coração de admiração
e amor-gratidão por nosso amado Mestre.
2. Os últimos dias de Jesus e datas
Determinar datas e a cronologia dos acontecimentos da
Paixão é muito difícil. Parece, segundo
estudiosos, que o Quarto Evangelho seria o mais exato
quanto a esses dados. Aconteceu que no ano 28 de nossa
Era, o dia 14 do mês Nisã, véspera
da Páscoa judaica, dia de comer a ceia pascal,
caiu no dia 7 de abril e era sexta-feira. Como Jesus deve
ter nascido uns seis anos antes de nossa Era, Ele devia
estar pelos seus 34 anos de idade. O único problema
é explicar as razões que teriam levado Jesus
a celebrar a última ceia já no dia anterior,
quinta-feira, 6 de abril.
O calendário dos últimos acontecimentos
da vida de Jesus pode ter sido o seguinte.
Dia 01/04/28, sábado: jantar "na casa de um
certo Simão". Maria vive a cena em que banha
os pés de Jesus com suas lágrimas e o unge
com perfume precioso (Jo 12, 1-11).
Dia 02/04/28, domingo: dá-se a entrada triunfal
de Jerusalém, vindo Jesus de Betânia. É
o nosso Domingo de Ramos. Os três primeiros Evangelhos
colocam aqui o episódio da expulsão dos
vendilhões do templo, seguido de um confronto com
as autoridades e ensino ao povo. Ao final da tarde volta
para Betânia (Jo 12, 12-19, Mt 21, 12-16).
Dia 03/04/28, segunda-feira: pela mannhã vai a
Jerusalém. Pelo caminho amaldiçoa a figueira,
símbolo do Povo de Deus estéril de boas
obras. Prega no templo e volta à noite para Betânia
(Mc 11,19).
Dia 04/04/28, terça-feira: pela manhã os
apóstolos observam que a figueira secou. No templo
Jesus deve ter feito sermões em que enfrenta seus
opositores e faz o comentário sobre a esmola da
viúva. À tarde sai do templo, prediz sua
destruição. Na volta para Betânia,
pára no Monte das Oliveiras, contempla a cidade
e pronuncia seu sermão sobre o fim de Jerusalém
e do mundo (Mt 26, 1-16).
Dia 05/04/28, quarta-feira: Jesus permanece o dia todo
em Betânia, numa espécie de retiro. Neste
dia pode ter acontecido o pacto entre Judas e as autoridades.
Dia 06/04/28, quinta-feira: à tarde Jesus volta
para Jerusalém, a fim de celebrar o lava-pés
e a última ceia. Depois da ceia, o grupo, sem Judas,
vai para o Getsêmani. Segue-se longa oração
e a agonia de Jesus. É traído, preso e conduzido
a Anãs e depois a Caifás. Lá mesmo,
à noite, reúne-se o Sinédrio. Pedro
nega conhecer Jesus.
Dia 07/04/28, sexta-feira: já cedo o Sinédrio
reúne-se novamente e condena Jesus. A sentença
precisa ser confirmada pela autoridade romana e Jesus
é levado a Pilatos. As cenas que se seguem, o leitor
as conhece bem. O caminho para a colina do Calvário
era de uns 600m de contínua subida. Embora fora
dos muros da cidade, os crucificados eram facilmente vistos,
por ser um lugar alto. No final da tarde Jesus é
sepultado.
Dia 09/04/28, domingo da Ressurreição.
3. Seguir Jesus
Jesus foi muito claro e nunca escondeu nada. Fez muitos
milagres, encontrou-nos com a beleza de suas parábolas
e revelações sobre o Pai Eterno e seu Reino.
Tocou-nos o coração em momentos de ternura
e intimidade com os discípulos, com seus amigos
Lázaro, Marta e Maria. Mas, com rude clareza nos
avisa: "Se alguém quer vir em meu seguimento,
renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me" (Mt
16,24). Precisamos pedir ao Pai que nos conceda a compreensão
de fazer-se discípulo de Jesus, engajar-se com
Ele em sua obra redentora e que o simples exercício
da religião cristã não vise só
nos confortar e atender nossas mais diversas necessidades.
A verdadeira alegria do discípulo só virá
quando ele, com sua própria cruz, tiver chegado
à certeza que deu de si tudo o que podia, em colaboração
com seu amado Mestre e Senhor Jesus, "para que o
mundo seja salvo" (Jo 3, 17).