Terminei o artigo anterior dizendo: "O psicólogo
é um agente de saúde. É a saúde,
o bem-estar, a qualidade de vida que importam em primeiro
lugar".
Julgo importante voltar a este tópico e aprofundá-lo.
Realmente estou convencido de que não só
o psicólogo, mas também o padre precisa
ter a qualidade de vida das pessoas às quais serve
como objetivo número um de sua atividade.
O bem-estar no seu todo deve ser objeto de cuidados de
quem serve o irmão, tanto no psicólogo,
no sacerdote, como em qualquer religioso. Como afirmava
anteriormente, preocupo-me com a forma pela qual a religião
afeta o espírito, a mente, o pensamento, as atitudes,
ou seja, o modo de viver da pessoa.
Por si mesmo, o bem-viver é excelente alimentador
da saúde. Minha impressão é a de
que muita gente imagina que a religião só
pode fazer bem. Ouço muitas vezes a observação:
"Está faltando religião", quando
pessoas se referem a situações de famílias
desagregadas, de conflitos, de dependência de drogas
etc.
Mas tenho observado também que muitas vezes as
convicções religiosas podem ser pouco saudáveis,
ou até diretamente prejudiciais. São frequentes
as notícias de pessoas religiosas fanáticas
e intransigentes, de brigas e divisões em famílias
por religião, de perseguições e condenações
e até à morte de pessoas religiosas dissidentes.
A praga maior que ataca as religiões, as guerras,
ainda não desapareceu. Durante muitos séculos
cristãos e muçulmanos combateram-se com
imensa violência e ferocidade, chegando às
vezes ao verdadeiro genocídio, isto é, ao
aniquilamento de populações inteiras.
Os dois lados se entregavam às piores formas de
violência de que o ser humano é capaz - o
genocídio - em nome de Deus, pela grandeza de sua
religião. Aqui, a religião toma o lugar
de Deus e se toma a pior das idolatrias. Não acredito
que se possa imaginar algum mal pior que isso.
Nunca podemos esquecer: qualquer religião, para
ser boa, necessita estar a serviço do bem-estar
das pessoas, de todas as pessoas. Só através
desta via, a religião serve a seu Deus, pois Ele
sempre ama por meio de "serviços" que
presta às suas criaturas.
Ao mesmo tempo que é criador da vida, Deus é
também seu mantenedor e alimentador. Hoje ainda
vemos guerras religiosas, ou guerras políticas
e étnicas com conteúdo também religioso.
Entre nós, ainda temos os exemplos deploráveis
de católicos e protestantes às turras na
Irlanda do Norte.
Na ex-lugoslávia brigam católicos croatas,
cristãos ortodoxos sérvios e muçulmanos
bósnios e albaneses. Em países árabes,
muçulmanos e xiitas não se entendem. Entre
nós, cristãos, quase todas as igrejas pentecostais
e também grupos católicos falam muito mal
de outras igrejas, principalmente das religiões
afro-brasileiras e do espiritismo.
Temos igualmente muitas igrejas que exploram demais o
bolso de seus fiéis, levando muitos a contribuir
com mais do que poderiam. Isso é injusto e desumano,
pois apela-se para Deus e pessoas, movidas por profundas
emoções religiosas, sacrificam a si e aos
seus familiares além do bom senso. São pastores
a servirem-se do rebanho e não a serviço
das ovelhas. É a inversão do próprio
sentido da religião. Tudo se faz em nome de Deus.
O Deus da vida, da misericórdia e compaixão
infinitas transformam-se, na cabeça de pobres irmãos
nossos, num Deus marcial (de Marte, deus da guerra) da
vingança e da morte.
Não se pode imaginar maior blasfêmia. Todos
estes religiosos confundem o que há de mais importante
e de autêntico em qualquer religião. Ao invés
de servir para o bem-estar de toda criatura humana, o
ser humano é sacrificado, muitas vezes cruelmente,
à religião. A religião se toma ídolo
que exige sacrifícios humanos, sangue, lágrimas
e morte.
Uma de minhas convicções básicas
é a de que o modo de ser do próprio Deus
deve determinar o modo de eu organizar minha vida pessoal
e minha forma de relacionar-me com as outras pessoas.
Tudo o que desvia deste princípio vem do Mal e
causa males a muitos. Toda forma de religião que
traz transtornos à vida das pessoas, que as desune
e gera ódio, deve ser mudada, ou abandonada. Esses
tipos de religião são piores que religião
nenhuma.
Como recomendação de leitura indico os Evangelhos
de São Mateus, 12, 1-21 e João, 10, l -18.
A figura que Deus aplica a si próprio é
a do Pastor bom que trata, cuida e defende a ovelha. Vale
a pena meditar também Jeremias, 23, 1-6 e Ezequiel
, 34, 2-6. Cuidar, ajudar e defender é função
de qualquer pessoa que tem alguma religião, que
acredita em Deus.