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       São Paulo, 12/10/2008, 07:00          
 
Psicologia & Religião
Ajuda espiritual e ajuda psicológica II

Terminei o artigo anterior dizendo: "O psicólogo é um agente de saúde. É a saúde, o bem-estar, a qualidade de vida que importam em primeiro lugar".

Julgo importante voltar a este tópico e aprofundá-lo. Realmente estou convencido de que não só o psicólogo, mas também o padre precisa ter a qualidade de vida das pessoas às quais serve como objetivo número um de sua atividade.

O bem-estar no seu todo deve ser objeto de cuidados de quem serve o irmão, tanto no psicólogo, no sacerdote, como em qualquer religioso. Como afirmava anteriormente, preocupo-me com a forma pela qual a religião afeta o espírito, a mente, o pensamento, as atitudes, ou seja, o modo de viver da pessoa.

Por si mesmo, o bem-viver é excelente alimentador da saúde. Minha impressão é a de que muita gente imagina que a religião só pode fazer bem. Ouço muitas vezes a observação: "Está faltando religião", quando pessoas se referem a situações de famílias desagregadas, de conflitos, de dependência de drogas etc.

Mas tenho observado também que muitas vezes as convicções religiosas podem ser pouco saudáveis, ou até diretamente prejudiciais. São frequentes as notícias de pessoas religiosas fanáticas e intransigentes, de brigas e divisões em famílias por religião, de perseguições e condenações e até à morte de pessoas religiosas dissidentes. A praga maior que ataca as religiões, as guerras, ainda não desapareceu. Durante muitos séculos cristãos e muçulmanos combateram-se com imensa violência e ferocidade, chegando às
vezes ao verdadeiro genocídio, isto é, ao aniquilamento de populações inteiras.

Os dois lados se entregavam às piores formas de violência de que o ser humano é capaz - o genocídio - em nome de Deus, pela grandeza de sua religião. Aqui, a religião toma o lugar de Deus e se toma a pior das idolatrias. Não acredito que se possa imaginar algum mal pior que isso.

Nunca podemos esquecer: qualquer religião, para ser boa, necessita estar a serviço do bem-estar das pessoas, de todas as pessoas. Só através desta via, a religião serve a seu Deus, pois Ele sempre ama por meio de "serviços" que presta às suas criaturas.

Ao mesmo tempo que é criador da vida, Deus é também seu mantenedor e alimentador. Hoje ainda vemos guerras religiosas, ou guerras políticas e étnicas com conteúdo também religioso. Entre nós, ainda temos os exemplos deploráveis de católicos e protestantes às turras na Irlanda do Norte.

Na ex-lugoslávia brigam católicos croatas, cristãos ortodoxos sérvios e muçulmanos bósnios e albaneses. Em países árabes, muçulmanos e xiitas não se entendem. Entre nós, cristãos, quase todas as igrejas pentecostais e também grupos católicos falam muito mal de outras igrejas, principalmente das religiões afro-brasileiras e do espiritismo.

Temos igualmente muitas igrejas que exploram demais o bolso de seus fiéis, levando muitos a contribuir com mais do que poderiam. Isso é injusto e desumano, pois apela-se para Deus e pessoas, movidas por profundas emoções religiosas, sacrificam a si e aos seus familiares além do bom senso. São pastores a servirem-se do rebanho e não a serviço das ovelhas. É a inversão do próprio sentido da religião. Tudo se faz em nome de Deus. O Deus da vida, da misericórdia e compaixão infinitas transformam-se, na cabeça de pobres irmãos nossos, num Deus marcial (de Marte, deus da guerra) da vingança e da morte.

Não se pode imaginar maior blasfêmia. Todos estes religiosos confundem o que há de mais importante e de autêntico em qualquer religião. Ao invés de servir para o bem-estar de toda criatura humana, o ser humano é sacrificado, muitas vezes cruelmente, à religião. A religião se toma ídolo que exige sacrifícios humanos, sangue, lágrimas e morte.

Uma de minhas convicções básicas é a de que o modo de ser do próprio Deus deve determinar o modo de eu organizar minha vida pessoal e minha forma de relacionar-me com as outras pessoas. Tudo o que desvia deste princípio vem do Mal e causa males a muitos. Toda forma de religião que traz transtornos à vida das pessoas, que as desune e gera ódio, deve ser mudada, ou abandonada. Esses tipos de religião são piores que religião nenhuma.

Como recomendação de leitura indico os Evangelhos de São Mateus, 12, 1-21 e João, 10, l -18. A figura que Deus aplica a si próprio é a do Pastor bom que trata, cuida e defende a ovelha. Vale a pena meditar também Jeremias, 23, 1-6 e Ezequiel , 34, 2-6. Cuidar, ajudar e defender é função de qualquer pessoa que tem alguma religião, que acredita em Deus.


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