"De alguma forma o padre trabalha com dados mais
objetivos que o psicólogo.
Enquanto isso, para o psicólogo é mais importante
a subjetividade do cliente".
Neste artigo quero abordar aspectos práticos de
psicologia e religião no que se refere à
ajuda que o indivíduo recebe, mas tendo em vista
principalmente o psicológico e o religioso na mente
daquele que oferece ajuda.
É muito comum pessoas religiosas procurarem padres
para orientação em problemas que são
claramente de ordem psicológica.
Claro que destas pessoas algumas há que imaginam
sejam seus problemas de ordem espiritual e espera que
o padre saiba lidar com todos os problemas espirituais,
quando na realidade suas dificuldades podem ser claramente
de ordem natural, psíquica e relacional. Nossos
irmãos espíritas, praticantes do candomblé,
de umbanda e outros; bem como cristãos pentecostais
protestantes e católicos, com muita facilidade
atribuem à invasão ou à presença
de espíritos maus (demônios), almas de pessoas
falecidas e que não estariam em paz e entidades
africanas, principalmente exu, a causa de desordens de
comportamento e de mudanças de personalidade. Tais
pessoas vão procurar o padre, o centro espírita,
o pastor ou o pai-de-santo, quando na verdade poderia
ser muito mais proveitoso procurar um bom psicólogo
e de preferência se ele conhecer este universo místico
de nossa cultura religiosa.
Mas também é comum pessoas católicas
que sabem estarem sofrendo de algum problema de ordem
psíquica fazerem questão de encontrar um
psicólogo padre, ou pelo menos bom católico,
para ajudá-las. Eu costumo dizer que o psicólogo
bem experimentado pode ajudar quem o procura, independente
de suas convicções religiosas. Vamos explicar
isto e estaremos justamente no centro da questão
de hoje.
Demos agora uma rápida olhada para o trabalho do
psicólogo, do padre e do religioso que tentam ajudar
quem os procura. Em primeiro lugar percebemos que o padre
e o religioso trabalham basicamente com dados da Fé,
convicções religiosas e teológicas.
Trabalham com dogmas, revelações divinas
e valores. Eles não têm obrigação
de serem cientistas. De outro lado, o psicólogo
tem obrigação de ser bem versado em ciências.
Quanto mais cientista ele for, melhor para seu cliente.
Ele trabalha basicamente com convicções
de ordem científica.
Contudo, é evidente que se o psicólogo entender
a teologia que está na raiz das convicções
religiosas de seu cliente isto pode ser uma qualidade
a mais. Mas insisto em dizer que isto não é
essencial. Já prestei ajuda a espíritas,
protestantes, umbandistas, judeus e ateus e creio ter-me
saído bem. Por quê? Porque sou um padre e
psicólogo, ou seja, esforço-me para ser
um teólogo e cientista ao mesmo tempo. Como padre
(religioso e teólogo), quando procurado por alguém
que tem a mesma religião que eu, depois de ouvir
tudo o que ele tem a dizer e certificar-me de que entendi
corretamente seu pensamento e suas dificuldades, posso
então comparar sua realidade com aquilo que a nossa
religião, a nossa Igreja tem a dizer e a esperar
dele.
Trabalho com Fé, dogmas, mandamentos e doutrinas
certas. Além desta correção doutrinária
é de se esperar que o sacerdote, ou o conselheiro
religioso, seja também um bom pastor, isto é:
que ame aquele que o procura, que tenha por ele um coração
cheio de compreensão e misericórdia, que
represente tanto quanto possível a infinita bondade
do coração de nosso Deus. De alguma forma
o padre trabalha com dados mais objetivos que o psicólogo.
Enquanto isso, para o psicólogo é mais importante
a subjetividade do cliente. Interessa-se mais pela forma
como a pessoa se relaciona com os dados de sua fé
e, principalmente, como ele é tocado, afetado e
modificado pelos dados religiosos.
A título de exemplo, se meu cliente é muçulmano,
o conteúdo objetivo de sua fé não
me interessa muito. Mas é fundamental compreender
como a fé muçulmana, suas obrigações
religiosas e sua comunidade de culto atingem sua mente,
seus sentimentos e emoções. Em outras palavras,
importa saber se a vida religiosa que leva está
tornando-o mais saudável, mais feliz, ou se o contrário
é a verdade.
O psicólogo é um agente de saúde.
É a saúde, o bem-estar, a qualidade de vida
que importam em primeiro lugar.
Creio ser necessário voltar ao assunto no próximo
número.