Terminei o artigo anterior, "Consciência e
Saúde", prometendo voltar ao assunto. Mas
acontece que está em pauta A Semana da Família.
Então pus-me a imaginar um modo de abordar o assunto
Família, sem enganar os leitores. Dizia que a consciência
no sentido psicológico tem muito a ver com saúde
e bem-estar. Vou tentar ver hoje a relação
entre nossas famílias desfeitas e bem-estar e,
conseqüentemente a saúde, pois não
acredito que possamos separar estas duas coisas.
Estou profundamente convencido de que existe uma saúde
social, como também uma doença, ou melhor,
muitas doenças sociais. Falamos hoje em sociopatia.
Um indivíduo ou um grupo de pessoas é socialmente
doente quando tem mecanismos, valores ou convicções
que geram desajustes, violências, ou possibilitam
o desenvolvimento do indivíduo, ou dos membros
do grupo. Existem emoções sadias e emoções
patológicas; relacionamentos podem ser saudáveis
ou doentios.
Um ser humano que não experimenta sentimentos de
ternura, por exemplo, nunca vai ter um bom relacionamento
com crianças, pais idosos e nem sequer uma vida
amorosa aceitável com o sexo oposto. É um
doente social.
O problema é que os mecanísmos que regem
todo esse processo não estão ao alcance
da consciência. A proposta para ajuda é convencer
a pessoa da necessidade de fazer tudo para desenvolver
uma consciência mais clara possível de sua
real situação e explicar como estes mecanismos
funcionam. Assim, em grande parte, a pessoa pode proteger-se
desta influência negativa e aprender a pensar mais
por si mesmo e andar "com as suas próprias
pernas".
E a família com isso? Tem tudo a ver. Quanto mais
consciência alguém tiver dos mecanismos que
regem a formação da família e seu
funcionamento, mais chances terá de constituir
a família capaz de realizar seus sonhos e muito
mais. Certamente, de tudo o que se fala e escreve sobre
a família, o mais repetido é que a família
está em crise.
Trata-se de algo óbvio e nem precisamos sacrificar
espaço precioso em falar dela. A crise da família
faz parte de uma crise mais ampla e universal. O homem
de nossos dias tende a se voltar contra todo o tipo de
instituição: o Estado, as igrejas, as escolas,
o casamento, a família... De modo geral também
as pessoas de hoje tendem a não aceitar leis, normas
e tudo o que limita sua suposta liberdade pessoal. Muitos
sentem sérias dificuldades em lidar com obrigações
e compromissos. Falei em "suposta liberdade".
Existe uma verdadeira mania de busca da liberdade pessoal.
Mas a maioria vai se tornando, alegremente, escrava da
mídia de massa. Simplesmente não tem consciência
alguma do quanto os mecanismos sociais da moda vão
criando desejos, ansiedades em ser aquilo que não
pode ser, em ter o que está fora de seu alcance.
Quando está quase compreendendo que muita coisa
está além de suas possibilidade, eis que
descobre algum charlatão travestido de grande conhecedor
das coisas humanas, autêntico "vendedor de
sonhos e milagres" e lá vai nosso já
espoliado e trôpego herói às suas
magérrimas reservas e compra um livro de auto-ajuda,
ou inscreve-se em cursos caros que prometem revolucionar
sua vida. Os títulos são de impacto. "O
poder infinito da mente" é dos mais comuns.
Nosso quase desesperado sonhador não tem ideia
razoável sobre o que seja sua mente, mas já
tem uma certeza: sua mente, ou sua cuca, ou seja lá
o que for, tem poderes sem limites! E tudo isso vai acontecendo
por falta de conhecimento de si próprio e do quanto
ele é escravo da tirania da sociedade na qual vive.