Interessante que esta coluna nasceu com a intenção
de falar sobre
Religião e Psicologia. Isto aconteceu por duas
razões: a importância que julgo ter para
nossos colaboradores-leitores e por ser escriba um religioso-psicólogo.
Hoje abordo o tema "Consciência e Saúde".
Vamos começar afirmando que Consciência e
Saúde tem tudo a ver com Religião e Saúde.
Devemos também distinguir dois tipos de consciência.
No sentido religioso, consciência se refere ao certo
e ao errado de meus comportamentos e atitudes. Consciência
no sentido psicológico é estar acordado,
percebendo claramente o que se passa consigo próprio
e ao seu redor.
Claro, a consciência moral tem tudo o que se relaciona
a sentimentos de culpa, ou paz interior. O povo fala em
consciência pesada ou leve. Evidente que consciência
pesada ou má só pode causar ansiedade, estresse,
insônia e, em casos muito graves, desespero e suicídio.
O estresse prolongado causa males à saúde
em geral, especialmente ao coração, pois
libera hormônios prejudiciais como a norepinefrina
e o cortisol. Estresse e ódio são as emoções
mais malignas que conhecemos.
Enquanto isso, a consciência do dever cumprido,
do bem executado, da caridade exercida etc. só
pode fazer bem a todo o nosso ser. Não podemos
deixar de pensar em São Paulo a escrever a seu
amigo Timóteo. "Quanto a mim, já fui
oferecido em libação e chegou o tempo de
minha partida. Combati o bom combate, terminei minha carreira,
guardei a Fé. Desde já me está reservada
a coroa da justiça que me dará o Senhor,
Justo Juiz, naquele dia" (2 Tm 4, 6-8).
De que libação fala Paulo? Às vezes,
nos sacrifícios, era derramado sobre a vítima
um cálice de azeite da melhor qualidade ou de vinho
fino. São Paulo tinha em mente o sacrifício
de Cristo. Ele, então, se imaginava como este acréscimo
precioso ao Cristo oferecido por todos nós. Por
isso é que ele fala do dilema de escolher, se fosse
possível, entre viver e morrer e afirma que preferia
morrer para estar junto de Cristo (Fl 1, 20-24).
É evidente que São Paulo se encontrava em
total harmonia com toda a sua existência, com seus
planos e com toda a realidade interna e externa a ele.
O equilíbrio é perfeito. E uma vez definimos
saúde como o estado de bem-estar de corpo e alma,
mente e coração. Então, podemos imaginar
que São Paulo devia se sentir extraordinariamente
bem.
A multidão de pequenos problemas, preocupações
e aborrecimentos não o atingiam mais. Nesta análise
que acabamos de fazer da situação deste
homem de Deus, misturamos dados da consciência moral
com os da consciência psicológica. É
que na vida real muitas vezes eles andam juntos e são
inseparáveis. Não posso me esquecer de dizer
que a consciência psicológica, ou a percepção
que temos de nossa pessoa por si mesma tem muito a ver
com o nosso bem ou mal-estar. No caso anterior, o de São
Paulo, a auto-percepção devia ajudar muito
em sentir-se bem porque percebia a si mesmo como alguém
extraordinariamente realizado em seu projeto de viver
para Cristo.
Acontece, contudo, que muita gente ou não tem uma
percepção clara de si, ou sua percepção
é distorcida. Qualidades e defeitos podem estar
a vida inteira na gente sem que os percebamos. Podemos
também vê-los aumentados exageradamente.
Isso causa problemas seríssimos. Pessoas sem autoconsciência
clara e real podem se atormentar por defeitos ou falta
de qualidade irreais, perder grandes oportunidades de
crescer e realizar-se na vida. Sua convivência com
os outros pode tornar-se fonte de contínuo sofrimento
para si e para os demais. Terminou nosso espaço.
Voltarei ao assunto no próximo número.