1. Introdução
Em 1994, a Campanha da Fraternidade elegeu a Família
como tema e, no ano seguinte, abordou os excluídos.
Entre as diversas classes de pessoas excluídas,
os idosos ocuparam grande espaço nas preocupações
dos que se ocuparam da CF. Parece que a CF de 1995 ajudou
muita gente a focalizar sua atenção sobre
os idosos como alguns dos excluídos que mais sofrem
e que são capazes de despertar profunda compaixão.
Hoje existem várias formas de se referir aos que
envelheceram, com cuidados para não magoar ou chocar.
A idade de 65 anos está se tornando uma espécie
de marca mágica para estabelecer o ponto inicial
para a terceira idade (palavra bonita para fugir da realidade
da velhice que vem) e o restante das pessoas. Mas, a idade
física e mental são, em grande escala, fruto
da qualidade de vida que o indivíduo leva. E a
qualidade de vida tem a ver com determinação
e esforço individual, bem como o grau de cultura
e civilização alcançadas por um povo.
2. Idoso, cultura e civilização
Nos países pobres, sujeitos a doenças crônicas,
má alimentação e sistemas de saúde
precaríssimos, poucos chegam a idades mais avançadas.
Pessoas centenárias são aí raríssimas.
Já nos Estados Unidos, se não me engano,
os cidadãos com mais de 100 anos são algo
em torno de 52.000. Em populações de muito
baixa qualidade de vida, uma pessoa de 60 anos já
costuma mostrar sinais de velhice e desgaste da idade
maiores que seus irmãos de 90 anos de alta qualidade
de vida.
De modo geral, quanto mais primitiva é uma civilização,
menos idosos sobrevivem. Assim, há centenas de
milhares de anos, os nossos antepassados caçavam
e eram caçados nas savanas da África. Então,
mesmo entre os membros da espécie humana, prevalecia
a selvagem lei da sobrevivência dos mais fortes
e mais hábeis. Os mais idosos, enfraquecidos fisicamente,
tinham até um papel de utilidade para a sobrevivência
de seu grupo. Enquanto eles eram alcançados e devorados
pelos predadores, os mais jovens e fortes conseguiam escapar
e sobreviver.
Quando o progresso da civilização permitiu
aos humanos formarem aldeias e pequenas cidades, a situação
dos idosos melhorou muito. Mas em áreas de alimentação
muito difícil, houve casos de o clã familiar
aceitar o costume de conduzir anciãos para algum
lugar ermo, onde eram abandonados à morte. Os ainus
do norte do Japão faziam isso.
À medida em que as hordas e clãs foram cedendo
importância à família, esta foi fortalecendo
os laços entre seus membros e o senso de consaguinidade
cresceu e o grupo familiar passou a assumir mais responsabilidades
para com todos os seus membros. As grandes religiões
contribuíram muito para o cultivo das virtudes
familiares e da sabedoria, entendida como algo divino
e em geral reservada aos anciãos. Daí surgiram
os conselhos de presbíteros, principalmente entre
judeus e cristãos. Idosos muitas vezes tinham papéis
importantes na família e na aldeia e recebiam respeito
e consideração. Respeitar e honrar os mais
velhos, ouvir suas exortações era norma
geral.
Nossos tempos caracterizam-se, entre outras coisas, por
uma crise de todas as instituições e valores
herdados do passado. Os idosos vêm crescendo em
número, mas sua importância na família
e na sociedade diminui acentuadamente. O Manual da CF
de 2003 descreve a situação dos idosos muito
bem. Mas um drama não foi abordado. Refiro-me ao
número cada vez maior de idosos que são
arrimo de netos e bisnetos, frutos de famílias
desfeitas e de pais desempregados. Há ainda aqueles
que são chantageados e extorquidos por filhos adultos,
muitas vezes drogados, que se negam a assumir qualquer
trabalho produtivo ou responsabilidade. Estes estão
entre os idosos mais infelizes que conheço.
3. Cristianismo e Senectude
O Cristianismo, tal como nasceu, tem resposta para todos
os problemas dos idosos. Prega a vida em fraternidade
e o amor-serviço entre os irmãos não-discípulos
como suprema norma da vida social. Quanto mais necessitado
alguém estiver, mais ele é meu próximo
e sou obrigado a dedicar-me em atendê-lo. Sem amor-serviço
não existe vida cristã e não existe
relacionamento decente entre quaisquer pessoas. Além
disso, o Cristianismo nos revela a vida espiritual conduzida
pela ação do Espírito Santo que é
capaz de se desenvolver sempre mais, apesar da idade.
Quando tudo parece desmoronar em nós, as forças
físicas, o porte, a beleza, a elegância,
o brilho da inteligência, o espírito continua
a se desenvolver. Aqui me vêm à mente as
figuras de São Paulo e de São Francisco.
Isso é suficiente e só isso pode levar o
ser humano, em profunda sintonia com seu Deus, a superar
todas as suas limitações e barreiras que,
de outra forma, seriam intransponíveis na velhice.
4. Envelhecimento e Responsabilidade Pessoal
Hoje está muito em moda apontar as responsabilidades
dos governos, da cultura, da mídia etc em quase
todos os males que afligem o ser humano. Sua margem de
responsabilidade sobre os problemas dos idosos é
realmente muito grande. Mas não posso encerrar
este escrito sem lembrar veementemente que todo ser humano,
na medida que vai ficando adulto, precisa assumir responsabilidades
sobre o tipo de pessoa que quer ser, sobre seu desenvolvimento
como pessoa, sobre a qualidade de seus relacionamentos,
sobre o combate e erradicação de seus defeitos,
principalmente os antissociais e, acima de tudo, precisa
descobrir que a vida interior de reflexão, meditação
e cultivo do espírito depende praticamente só
dele. Esta vida interior cristã é capaz
de tornar todas as circunstâncias adversas da vida
como pequenas e insignificantes. Até a morte pode
se tornar bem-vinda, como foi para Francisco e Paulo.
"Pois para mim viver é Cristo e morrer é
um ganho" (Fl 1,21)