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       São Paulo, 20/08/2008, 00:21          
 
Psicologia & Religião
Os cristãos e seus idosos

1. Introdução
Em 1994, a Campanha da Fraternidade elegeu a Família como tema e, no ano seguinte, abordou os excluídos. Entre as diversas classes de pessoas excluídas, os idosos ocuparam grande espaço nas preocupações dos que se ocuparam da CF. Parece que a CF de 1995 ajudou muita gente a focalizar sua atenção sobre os idosos como alguns dos excluídos que mais sofrem e que são capazes de despertar profunda compaixão.

Hoje existem várias formas de se referir aos que envelheceram, com cuidados para não magoar ou chocar. A idade de 65 anos está se tornando uma espécie de marca mágica para estabelecer o ponto inicial para a terceira idade (palavra bonita para fugir da realidade da velhice que vem) e o restante das pessoas. Mas, a idade física e mental são, em grande escala, fruto da qualidade de vida que o indivíduo leva. E a qualidade de vida tem a ver com determinação e esforço individual, bem como o grau de cultura e civilização alcançadas por um povo.

2. Idoso, cultura e civilização
Nos países pobres, sujeitos a doenças crônicas, má alimentação e sistemas de saúde precaríssimos, poucos chegam a idades mais avançadas. Pessoas centenárias são aí raríssimas. Já nos Estados Unidos, se não me engano, os cidadãos com mais de 100 anos são algo em torno de 52.000. Em populações de muito baixa qualidade de vida, uma pessoa de 60 anos já costuma mostrar sinais de velhice e desgaste da idade maiores que seus irmãos de 90 anos de alta qualidade de vida.

De modo geral, quanto mais primitiva é uma civilização, menos idosos sobrevivem. Assim, há centenas de milhares de anos, os nossos antepassados caçavam e eram caçados nas savanas da África. Então, mesmo entre os membros da espécie humana, prevalecia a selvagem lei da sobrevivência dos mais fortes e mais hábeis. Os mais idosos, enfraquecidos fisicamente, tinham até um papel de utilidade para a sobrevivência de seu grupo. Enquanto eles eram alcançados e devorados pelos predadores, os mais jovens e fortes conseguiam escapar e sobreviver.

Quando o progresso da civilização permitiu aos humanos formarem aldeias e pequenas cidades, a situação dos idosos melhorou muito. Mas em áreas de alimentação muito difícil, houve casos de o clã familiar aceitar o costume de conduzir anciãos para algum lugar ermo, onde eram abandonados à morte. Os ainus do norte do Japão faziam isso.

À medida em que as hordas e clãs foram cedendo importância à família, esta foi fortalecendo os laços entre seus membros e o senso de consaguinidade cresceu e o grupo familiar passou a assumir mais responsabilidades para com todos os seus membros. As grandes religiões contribuíram muito para o cultivo das virtudes familiares e da sabedoria, entendida como algo divino e em geral reservada aos anciãos. Daí surgiram os conselhos de presbíteros, principalmente entre judeus e cristãos. Idosos muitas vezes tinham papéis importantes na família e na aldeia e recebiam respeito e consideração. Respeitar e honrar os mais velhos, ouvir suas exortações era norma geral.

Nossos tempos caracterizam-se, entre outras coisas, por uma crise de todas as instituições e valores herdados do passado. Os idosos vêm crescendo em número, mas sua importância na família e na sociedade diminui acentuadamente. O Manual da CF de 2003 descreve a situação dos idosos muito bem. Mas um drama não foi abordado. Refiro-me ao número cada vez maior de idosos que são arrimo de netos e bisnetos, frutos de famílias desfeitas e de pais desempregados. Há ainda aqueles que são chantageados e extorquidos por filhos adultos, muitas vezes drogados, que se negam a assumir qualquer trabalho produtivo ou responsabilidade. Estes estão entre os idosos mais infelizes que conheço.

3. Cristianismo e Senectude
O Cristianismo, tal como nasceu, tem resposta para todos os problemas dos idosos. Prega a vida em fraternidade e o amor-serviço entre os irmãos não-discípulos como suprema norma da vida social. Quanto mais necessitado alguém estiver, mais ele é meu próximo e sou obrigado a dedicar-me em atendê-lo. Sem amor-serviço não existe vida cristã e não existe relacionamento decente entre quaisquer pessoas. Além disso, o Cristianismo nos revela a vida espiritual conduzida pela ação do Espírito Santo que é capaz de se desenvolver sempre mais, apesar da idade. Quando tudo parece desmoronar em nós, as forças físicas, o porte, a beleza, a elegância, o brilho da inteligência, o espírito continua a se desenvolver. Aqui me vêm à mente as figuras de São Paulo e de São Francisco. Isso é suficiente e só isso pode levar o ser humano, em profunda sintonia com seu Deus, a superar todas as suas limitações e barreiras que, de outra forma, seriam intransponíveis na velhice.

4. Envelhecimento e Responsabilidade Pessoal
Hoje está muito em moda apontar as responsabilidades dos governos, da cultura, da mídia etc em quase todos os males que afligem o ser humano. Sua margem de responsabilidade sobre os problemas dos idosos é realmente muito grande. Mas não posso encerrar este escrito sem lembrar veementemente que todo ser humano, na medida que vai ficando adulto, precisa assumir responsabilidades sobre o tipo de pessoa que quer ser, sobre seu desenvolvimento como pessoa, sobre a qualidade de seus relacionamentos, sobre o combate e erradicação de seus defeitos, principalmente os antissociais e, acima de tudo, precisa descobrir que a vida interior de reflexão, meditação e cultivo do espírito depende praticamente só dele. Esta vida interior cristã é capaz de tornar todas as circunstâncias adversas da vida como pequenas e insignificantes. Até a morte pode se tornar bem-vinda, como foi para Francisco e Paulo. "Pois para mim viver é Cristo e morrer é um ganho" (Fl 1,21)


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