Tenho certeza de que este título deste artigo pode
causar um
certo desconforto em alguns leitores. Mas para quem vem
lendo esta
coluna há algum tempo, não deverá
nem sequer causar admiração. Tenho convicção
de que, em muitas situações, Deus deve ser
para muita gente decepcionante. Vamos tentar ver como
isso se dá.
Partimos de uma verdade psicológica bem clara:
toda expectativa não realizada causa frustração.
Ou podemos dizer que toda a esperança não
realizada causa sofrimento, ou até desespero. É
certo que ouvimos muitas vezes que a esperança
é a última que morre, ou que devemos esperar
sempre em Deus.
São pensamentos em geral consoladores, mas nem
sempre práticos. É certo que devemos sempre
esperar em Deus e que esta esperança é muito
confortadora e, por vezes, fonte de uma energia impensável.
Mas, depende daquilo que esperamos. Ou seja, o conteúdo
da esperança é que consiste o problema.
Dia por dia no meu trabalho deparo com pessoas profundamente
sofridas, desanimadas, frustradas e até com raiva
de Deus. Às vezes consigo ajudar a pessoa a descobrir
que nem tudo podemos ingenuamente esperar de Deus.
Costumo brincar que você pode estar convencido que
Deus protege você de roubos e violências da
cidade grande, mas o ladrão e o assaltante podem
não saber disso e assaltar você com toda
a desenvoltura. Quase sempre ouço algum protesto
com a afirmação de que Deus pode proteger-me
do assaltante. Mas raramente - mas acontece - sou acusado
de falta de fé.
Em tais situações costumo responder que
o problema não está em discutir o poder
de Deus. Claro que Ele pode tudo, pode defender-me. O
problema está no número cada vez maior de
pessoas tão boas e com tanta fé como você
estarem sendo assaltadas todos os dias. Até posso
acrescentar que se você estiver numa área
infestada de ladrões e passar em profunda oração,
você pode estar tão distraído do que
acontece à sua volta que transforma num alvo mais
fácil ao ladrão.
Digo, então, que não costumo rezar para
Deus me proteger de ladrões, mas peço a
graça de que se for assaltado, eu mantenha a consciência
viva da presença de Deus também neste momento
e saiba melhor o que devo fazer. Já falei muitas
vezes da gratuidade de nossa relação com
Deus. Para crescer espiritualmente é necessário
renunciar a toda possível vantagem material da
minha relação com Deus. Deus por si só
é a maior recompensa que posso desejar.
Aqui está um dos aspectos que só o Cristianismo
pode mostrar. Para as religiões orientais, em geral,
Deus não é um ser pessoal. No nirvana dos
brâmanes - a vida eterna para eles -, o ser humano
desaparece e se perde em Deus. Deus seria uma espécie
de buraco negro da astronomia que tudo atrai, mas tudo
destruiria em si. Parece que os muçulmanos imaginam
a vida eterna, o céu, repletos de superprazeres
materiais e carnais.
Para nós, cristãos, Deus por si mesmo é
nossa suprema e única recompensa eterna. Mas, alguém
poderia lembrar que isso deverá ocorrer só
no céu. Não, lhes garanto eu. Isso já
pode e é desejável que ocorra aqui na Terra.
São Francisco afirmava constantemente: "Meu
Deus e meu tudo". Ou: "Desafeiçoai-me
de todas as coisas que debaixo do céu existem".
Por que, se elas também são coisas de Deus?
Porque elas poderiam fazer concorrência ao "Meu
Deus e meu tudo".
Isso era só para São Francisco e me assusta,
dirá você. Então vamos pensar o seguinte:
todas as situações que eu puder enfrentar
neste mundo, muito boas ou péssimas, serão
muitíssimo melhores se nelas eu encontrar meu Deus.
Então, mesmo que perca a esperança de cura
de uma doença mortal, que importância teria?
Morrer em Deus é melhor que gozar de excelente
saúde sem Ele. Tente você, nesta Quaresma,
quando enfrentar uma dificuldade, não pedir a Deus
que afaste o problema, mas que simplesmente esteja com
você e o conforte no sofrimento. Verá, então,
que a Páscoa já se antecipa e faz-se presente
em plena Quaresma.