1. Introdução
Falar e escrever mais uma vez sobre o NATAL pode ser muito
fácil, ou muito difícil, dependendo do que
se quer abordar. É ao mesmo tempo o tema mais profundo
e radical para entendermos o Cristianismo como religião
e um fenômeno cultural, social e econômico
global. Nenhuma crença religiosa jamais atingiu
tal dimensão cultural e tão vasta divulgação
como o NATAL. Isso é bom? É ruim? Quem sabe?
2. Uma mega "Ceia" no Largo São Francisco
Coloquei aspas na ceia porque fica difícil imaginar
ceia que comece a ser servida por volta das 12 horas.
Mais uma vez, cerca de 3 mil pobres receberão uma
refeição quente e bem elaborada no Largo
São Francisco, dia 24. Qual o sentido de semelhante
evento?
Alguém poderia dizer que não traz nenhuma
conseqüência prática, que em nada tornará
a vida do morador de rua mais fácil. Outro poderia
afirmar que se trata apenas de manobra dos franciscanos
para angariar a simpatia da população, ou
para cultivar a própria boa consciência.
Um terceiro crítico mais radical seria tentado
a ver nisso apenas mais uma manifestação
bizarra do consumismo materialista que deturpa o verdadeiro
espírito de NATAL.
E você, leitor (a)? Continue lendo e encontrará
a resposta satisfatória para suas interrogações.
3. Isaías e João Batista
O profeta Isaías sonhava apenas com uma restauração
do Reino de Israel que teria para sempre um chefe segundo
o coração de Javé. Como uma grande
luz, esse Rei-Messias exerceria uma positiva influência
sobre todos os povos da Terra. Imaginava uma grande paz,
uma ordem universal que atingiria a natureza como um todo.
Até os animais selvagens teriam seus hábitos
e instintos modificados. Não haveria mais animais
carnívoros e predadores. Ursos e leões virariam
vegetarianos (Is 11, 1-9).
João Batista vê no sonho de Isaías
começar sua concretização em Jesus
(Lc 3, 4-6; Mt 3, 1-12). Proclama: "O Reino de Deus
está próximo".
Então, Jesus seria simplesmente a encarnação
desse Messias (= o Enviado) e inauguraria esse novo período,
esse novo tempo da História? Claro, isso por si
só já seria uma grande alegria para toda
gente (Lc 2, 10-14). Pois, um Reinado de alguém
que organizasse e governasse a convivência e as
relações entre todas as pessoas, conforme
o coração de nosso Pai do Céu, já
seria uma indiscutível felicidade para toda a humanidade,
principalmente para os mais sofridos e marginalizados.
Por isso, Jesus se apresenta a si próprio como
aquele que encarna outra visão de Isaías
(Is 61,1). Começa exatamente anunciando a esperança
aos pobres, aos doentes, aos presos! É a restauração
da humanidade a começar da periferia para o centro.
Ninguém deve se perder. "Nenhuma ovelha perdida
da Casa de Israel deve perecer!"
O projeto do Reino de Deus abraçado por Jesus supera
de longe o de Isaías. Ele quer que o Reinado de
seu Pai deite raízes por todo o orbe e transforme
toda a humanidade, num processo comparável à
ação do fermento, transformador de toda
a massa do pão (Mt 13,33).
O Reinado de Deus entre os humanos se caracteriza principalmente
pela solidariedade de todos para com todos. Assim, nenhum
membro da espécie humana pode ficar excluído
ou marginalizado, a não ser que ele se auto-exclua
e não queira participar. Contudo, mesmo que não
queira entrar para o banquete, move o coração
do Pai que, deixando todos os convidados, vai ao encontro
do filho turrão, queixoso e acusador para convencê-lo
a entrar (Lc 15, 25-32).
Aqui está o verdadeiro espírito de NATAL,
acessível a todos.
4. Natal, vôos mais altos
Uma "simples" presença atuante e transformadora
do Reino de Deus entre os homens já é algo
tão extraordinário, que é impensável
para quase toda gente. Sociedades humanas, lideradas por
homens e mulheres de Deus, líderes messiânicos
a exercer sua liderança-serviço, segundo
o coração de Deus, gerariam já um
homem novo real "imagem e semelhança de Deus".
Mas Deus quer mais! Não se contenta em reinar sobre
os humanos através desses líderes-messias
e contemplar "lá do alto dos céus"
a obra maravilhosa de seus filhos humanos, em tudo fazedores
de sua divina vontade. Por isso, desde a eternidade, determina
que "o Verbo se faça carne e habite entre
nós" (Jo 1,14). O Pai não se contenta
com um Amor-Salvação exercido sobre o ser
humano à distância. Seu próprio Filho
assume o papel de Messias, aceitando tornar-se um "Filho
de Homem". Para amar os humanos completamente, renunciou
à sua condição divina (Fls, 5-7)
e assumiu viver a experiência humana, igual a nós
em tudo, sem qualquer outra vantagem, a não ser
a de não se sujeitar ao pecado.
Aqui está a grandeza, o supra-sumo do NATAL. Deus
não salva à distância. Seu Filho se
insere como um enxerto preciosíssimo na velha cepa
humana e gera o homem novo que vive segundo o coração
do Pai Celeste.
Entre os mais belos exemplos da geração
destes novos homens sobressai São Francisco, "o
mais santo dos humanos e o mais humano dos santos",
no dizer de alguém. Seus biógrafos têm
dificuldades para encontrar palavras adequadas que descrevam
a alegria de São Francisco ao celebrar o NATAL.
Ele sentia-se alguém gerado pelo enxerto-Cristo
na cepa humana. Para Francisco nada mais no mundo podia
ter qualquer valor, comparado a esse fato radical e básico,
ser um com Cristo.
Enquanto a civilização do homem velho, não-crístico,
prega a conquista da grandeza, da riqueza, fama e poder,
Francisco a tudo renuncia e se põe a serviço
dos mais pobres e miseráveis e deles se faz o menor
e irmão, para recupera-los para Cristo e para realização
da verdadeira dignidade de sua humanidade. Na verdade,
Francisco intui que esses deserdados dos bens humanos
estão mais próximos de Jesus, o "deserdado"
da condição divina. Por isso é que
Jesus e Francisco identificam-se mais a eles e os amam
com loucura.
Caminhando pelo deserto em preparação para
mais um NATAL, de alma leve e coração em
festa, vamos cantarolando no silêncio: "Não
quero gloriar-me a não ser no Senhor, que me deu
a graça de segui-lo poder. Loucura aos olhos do
mundo, pode ser."