O número anterior de nosso jornalzinho trouxe meu
artigo com o título Natal 2000. Na verdade
consegui expor apenas os fundamentos bíblicos da
tradição católica de celebrar Anos
Jubilares, ou Anos Santos. Vimos como para
os judeus o Ano Jubilar tinha uma função
importante na manutenção da Justiça
Social. Limitava a formação de latifúndios
e não deixava crescer as classes dos sem-terra
e sem-teto. A razão era que Javé mostrava-se
generoso para com seu povo e o judeu tinha de ser generoso
com seus irmãos. Isto é lindo e muito inspirador.
A Igreja católica herdou esta tradição
judaica e chama seus anos jubilares (50 em 50; 100 em
100; 500 em 500; 1000 em 1000) Anos Santos ou Anos
de Graça do Senhor.
Aqui já começam os desvios da intenção
original. A palavra Graça lembra "de
graça", Gratuidade. Isso puxa a idéia
de generosidade, bondade e amor. Na mente, contudo, de
uma pessoa mais interesseira, mais utilitarista, a palavra
Graça disperta logo a idéia de ganho, presente,
ajuda, vantagem, solução de problemas. É
realmente lamentável que algo tão belo e
tão grande venha tornar-se uma questão tão
pequena e, diria, quase mesquinha.
Aborrece, mas temos que reconhecer, mesmo nós,
os homens da Igreja ou "os homens de Deus",
conforme pensa o povo, cometemos um erro pedagógico
sério quando acentuamos muito e só o Ano
de Graça do Senhor, como se Deus tivesse épocas
e datas especiais para especiais para distribuir graças
e favores ao povo. Então corremos a Deus nestas
ocasiões para ganhar alguma coisa: mais saúde,
empregos, "bens de família", indulgências
e maior garantia da salvação eterna. Sim,
senhores. Indulgências e salvação!
Ouso dizer que até nisto pode estar o problema,
pois até indulgências e salvação
podem ser procurados por um espírito interesseiro
e até egoísta, pouco afeito à gratuidade
e ao Amor desinteressado de Deus.
Na verdade vejo três objetivos importantes a serem
procurados neste Ano de Graça.
O primeiro é suscitar em todos os cristãos
uma profunda gratidão por Deus ter-se encarnado
há 2000 anos e ter-se feito nosso companheiro de
caminhada já nesta vida. Deus é infinitamente
perfeito e nada poderia receber em troca deste gesto.
É por isso que eu dizia que nós conseguimos
procurar até a salvação de um modo
egoísta.
O segundo é exatamente termos de aprender com Deus.
Aprendemos que Deus é Graça em Estado
Puro, é Gratuidade 100% e, à
semelhança dele , precisamos descobrir a maravilha
de podermos ser graça e gratuidade para os outros.
O terceiro é, de graça, levar aos demais
seres humanos esta nossa descoberta, ou seja, levar este
Deus-Amor aos irmãos, ou levar Cristo aos
irmãos, ou levar irmãos a Cristo. Tudo é
a mesma coisa. No Evangelho de João, cap. 1, 35-42
, lemos que André, quando ouviu seu Mestre, João
Batista, afirmar que Jesus era o Cordeiro de Deus,
seguiu Jesus, passou quase o dia todo com Ele. Aí
correu a seu irmão Simão a levar a novidade:
"Encontramos o Messias". E levou seu irmão
a Jesus. Meus caros leitores, eis aí o programa
básico para o ano de 2000 e para toda a sua vida.