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Mais
um bispo franciscano?
Por Frei Hipólito Martendal
1. Introdução Não, o
ponto de interrogação nada tem a ver com
restrições ou oposição.
Até pelo contrário. É que pela
boa política interna da Igreja, os candidatos
naturais ao episcopado costumam ser padres diocesanos
que se distinguem pelo zelo e capacitação
pastoral, além de santidade pessoal. O franciscano
bispo é um tanto quanto incoerente com certas
qualidades que se supõe nele existentes, tais
como a mística do servir e da minoridade. Já
expliquei em artigos anteriores que a minoridade encarna
perfeitamente todo o espírito franciscano. Isso
o deveria impulsionar a procurar sempre a primeira camada,
começando de baixo para cima, de qualquer pirâmide
ou camada social. Então, o franciscano deveria
por toda a vida ser o menor de todos para a todos servir
com a maior naturalidade. Acontece que em circunstâncias
normais, dirigentes, autoridades, governantes, diretores
ocupam os postos mais elevados da pirâmide.
2. Paradoxo Contudo, São Francisco
adotou como ideal a ser vivido o próprio Evangelho
de Jesus Cristo. A vida segundo o Evangelho se concretiza
em Fraternidade. Mas na vida entre irmãos, para
Jesus, não há lugar para maiores e menores,
para autoridades e súditos. Todos são
apenas irmãos uns dos outros e a vida é
regida só e sempre pelo amor mútuo expresso
pelos serviços prestados continuamente de todos
para todos. Sugiro ver Mt 20, 25-28 e Mc 10, 42-45.
O grande problema que a Igreja de Deus enfrenta sempre
é tentar conciliar esta vida fraterna tão
idealizada, tão romântica, tão utópica,
com uma instituição que precisa ser prática
, funcional, segura, cientificamente bem organizada.
Parece impossível uma instituição
manter unida uma multidão de pessoas, por mais
fraternas e evangélicas que sejam todas, que
desejam conviver e atender satisfatoriamente as necessidades
e demandas de todos os seus membros sem recorrer a alguma
organização e uso de poder e autoridade
conferidos a alguns de seus membros.
3. Como harmonizar duas realidades tão
diferentes e diametralmente opostas? É dificílimo.
A Igreja de Cristo, muitas vezes e por longos séculos,
caiu na tentação do poder, chegando às
vezes a disputar até pelo uso de forças
armadas o comando com reis e imperadores. Foram épocas
em que o governo da Igreja mais se afastou do Evangelho
como carta magna e fonte inspiradora. São Francisco
simplesmente resolveu apegar-se ao Evangelho para vive-lo
em Fraternidade. Mas, por muito pouco, ainda durante
sua vida e apesar de toda a sua influência pessoal,
influência ancorada numa santidade de vida talvez
única em seres humanos comuns, sua Ordem dos
Frades Menores não se desconjuntou inteiramente.
Então, parece que para uma Fraternidade Cristã
viver segundo a vontade de Jesus Cristo, a receita é:
o máximo de elementos tirados do Evangelho (amor-serviço,
perdão, compreensão....) e o mínimo
de elementos ligados ao poder.
4. Uma contribuição surpreendente
hoje nos chega do mundo empresarial, um mundo nada evangélico.
Esse pessoal quer o sucesso de suas empresas. Mas percebem
que o sucesso não se alcança fácil
e não se prolonga por muito tempo sem o bem-estar
das pessoas envolvidas no empreendimento. Aos poucos
descobriu-se que o chefe todo-poderoso não garantia
sucesso. Aos poucos percebeu-se que o chefe mais do
que revestido de poder devia ter liderança. Mas,
há tantos modelos diferentes de liderança!
Aos poucos foi ficando mais claro que o bom líder
é aquele que melhor sabe unir os liderados e
estimulá-los à ação. Muito
se investiu sobre clareza de comunicação,
sobre motivação, simpatia, sobre carismas
pessoais e poder de atrair admiração do
líder. Mas os resultados, embora melhores, ainda
não deixavam o pessoal do ramo satisfeito.
Agora, novas descobertas têm sido feitas e elas
apontam para uma liderança que eles chamam de
liderança-serviço. Se você já
pensou em amor-serviço, bingo! Evangelho e Franciscanismo
têm tudo a ver com isso. É a descoberta
desse potencial verdadeiramente humanístico encerrado
no cerne do verdadeiro cristianismo e franciscanismo.
Os caminhos e as motivações podem ter
sido tortos, mas a descoberta e a homenagem ao Amor-Serviço
(= liderança-serviço) são reais
e autênticas. O problema é encontrar pessoas
do mundo que possam envergar bem esta liderança.
No meu entender, o verdadeiro franciscano deve se movimentar
nesta liderança-serviço, a mais eficiente
até agora, com a mesma desenvoltura com que o
peixe nada na água.
5. E nosso Frei Severino com isto? Acredito que
a Igreja também faz suas descobertas em torno
de lideranças, vida evangélica e franciscanos.
Nosso desejo, imagino-me falando pelos leitores deste
Boletim e freqüentadores desta Paróquia-Santuário
de São Francisco, é que Frei Severino,
sagrado bispo, continue cada vez mais líder evangélico,
líder-serviçal de todos os seus diocesanos.
Ocorreu-me uma piada de nosso santo Frei Godofredo:
Quando alguns padres são ordenados bispos,
não sabemos que espírito entra neles.
Que nenhum outro espírito, nem o da vaidade,
do amor próprio, da vanglória, do poder,
digo, nenhum espírito entre em Frei Severino,
a não ser o ESPÍRITO SANTO e o seu
SANTO MODO DE OPERAR! Que todos os seus diocesanos
recebam os frutos de sua liderança-serviço
franciscana!
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