Dentro de nosso assunto geral de Psicologia e Religião
vamos abordar um tema realmente atual e preocupante. Tratarei
das orações de cura tão propaladas
através da mídia religiosa, seja católica
ou evangélica, ou os canais de outras religiões
orientais, Nova Era etc. Parece que todo mundo sente necessidade
de divulgar as maravilhosas práticas de sua religião
para resolver os problemas mais comuns e imediatos que
afligem o dia-a-dia dos seres humanos.
Não vou abordar o antiqüíssimo hábito
cristão de recorrer a Deus e suplicar socorro em
suas necessidades. Isso está fora de dúvidas.
O que me preocupa é a multiplicação
dos prometedores de milagres. Não tenho dados exatos
em termos de porcentagens, mas número de pessoas
que chegam ao meu consultório com doenças
crônicas, carregando os aborrecimentos causados
pela própria doença acrescidos de angústias
na fé e decepções geradas por esperanças
e certezas desfeitas, é muito grande. Estas frustrações
podem ser mais perturbadoras do que os males que a pessoa
vinha enfrentando.
Existem livros muito divulgados, orações
em impressos menores, muitas celebrações
específicas voltadas para curas infalíveis
para doenças e principalmente para cura de emoções.
Aqui temos dois problemas. Em primeiro lugar ninguém
pode dizer a ninguém que determinada oração,
ou sacramento, vai curar determinada doença em
determinada pessoa como uma coisa certa e infalível,
pois o mistério da oração é
uma espécie de diálogo entre cada pessoa
humana específica que ora a Deus. Ninguém
tem o controle sobre o exercício do poder de Deus.
Estas certezas criadas na mente de uma pessoa sofrida
ao extremo e desfeitas pouco depois podem levar algumas
delas ao desespero. E quem responderá por suas
conseqüências?
O segundo problema está diretamente ligado à
"cura das emoções" em especial.
Aqui o problema principal está mesmo na mais pura
desinformação de muitos escritores e pregadores.
As emoções fazem parte de uma área
da Psicologia das mais estudadas e pesquisadas nos últimos
dez anos e com resultados surpreendentes. Tudo o que foi
dito sobre emoções nos melhores autores
da Psicanálise precisa ser revisto. Quase tudo
o que foi falado e escrito sobre o assunto pela gente
que defende as regressões às primeiras fases
da vida do indivíduo, ou até de antepassados
nossos, seria melhor jogar simplesmente no lixo. Trazem
mais erros e confusões que verdades.
O melhor estudo que conheço sobre emoções
é o livro "O Cérebro Emocional",
de Joseph Le Doux, considerado talvez o melhor pesquisador
vivo sobre o cérebro e seu funcionamento. A distância
entre o que Le Doux escreve e o que nossos pregadores
populares dizem sobre emoções é tão
grande que a gente tem dificuldades para imaginar que
estejam a falar sobre o mesmo tema.
Em primeiro lugar afirmar a necessidade de curar emoções
passa a idéia de que elas sejam algo doentio. Em
segundo lugar imaginar tantos traumas e sofrimentos atrozes
causados por emoções revela pouco conhecimento
sobre traumas reais e sobre o papel do sofrimento em nossa
vida.
Não me refiro ao papel do sofrimento, mas a sua
própria natureza e relação com a
psique humana. Conhecer ou não conhecer a natureza
e a razão do sofrimento pode mudar completamente
nossa postura diante dele. E o que dizer sobre o sentido,
o significado, que podemos elaborar ou não sobre
o sofrimento em si? Viktor Frankl é mestre nisso,
pois sobreviveu e saiu psíquica e espiritualmente
ileso e até muito fortalecido de dois campos de
concentração.
Emoções não são doenças.
Só raramente tornam-se doentias e, então,
sim, objeto de cura. Os sofrimentos experimentados nas
primeiras fases da vida raramente comprometem o futuro
desenvolvimento sadio da pessoa. Alguém gastar
tinta e papel para afirmar que o simples corte do cordão
umbilical pode causar traumas de rejeição
é fruto de uma mente sem a luz da boa religião
e da ciência.
Por enquanto, tenho que concluir que muitas orações
de cura simplesmente não têm o que curar.
Bons autores de espiritualidade falam em cura interior
pela oração de contemplação,
como fruto de longos anos, de paciente, pertinaz e disciplinado
exercício de diálogo com Deus.